Em entrevista aos alunos da Universidade Metodista de S. Bernardo, veiculada pelo blog VALOR NEGRO, o jornalista, advogado, poeta e ativista do Movimento Anti-Racista Brasileiro, Dojival Vieira, disse que a exclusão social que atinge a população afrodescendente brasileira (cerca de 80 milhões de pessoas, segundo o IBGE), só pode ser explicada pelo Racismo. “É o racismo que explica a desigualdade”, afirmou Dojival, que preside a ONG ABC SEM RACISMO, no ABC paulista, ao falar das atividades que antecedem o DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA, que será marcado, em S. Bernardo, pela MARCHA DO POVO NEGRO POR DIREITOS E CIDADANIA. Veja a Entrevista.
1. Há quanto tempo a ONG vem desenvolvendo projetos?
Resposta: A ONG ABC SEM RACISMO, foi criada em maio deste ano no contexto da I SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA, realizada por iniciativa de lideranças negras de S. Bernardo e que tive a honra de coordenar. Como coordenador do primeiro programa de Ações Afirmativas no âmbito do Ministério da Educação – o Diversidade na Universidade -, de setembro a dezembro de 2.022, quando ajudei a aprovar a Lei no Congresso e desenvolvi ações e uma estreita relação com lideranças do movimento negro no país, senti a ausência, no ABC, de uma organização que “saísse do gueto” e falasse pra fora. Conseguisse combater o racismo sem ódios, nem rancores, dirigindo-se à sociedade como um todo; que deixasse a postura defensiva de vítima.
Por outro lado, me chamou muito a atenção que, em S. Bernardo e no ABC, região que, nos últimos trinta anos esteve no centro do debate político, econômico e social, berço do novo sindicalismo, do PT e da CUT, um trabalhador negro, segundo o IBGE, continue ganhando, em média, menos que a metade do que ganha um trabalhador não negro. Nós negros somos, sim, vítimas do racismo, mas não queremos transformar isso numa bandeira. Nossas bandeiras são as ações afirmativas que, ao mesmo tempo, desmascarem o racismo hipócrita e dissimulado que nos vitima, mas aponte para as soluções, apontem para a afirmação de uma comunidade que representa metade da população brasileira e que tem sido excluída de todos os setores, por conta da herança maldita de 350 anos de escravidão. A ONG ABC SEM RACISMO nasce então dessa necessidade. Precisamos falar para amplos setores, ter capacidade de construir parcerias com empresas, com o Poder Público e outras instituições, para viabilizar projetos voltados à comunidade afrodescendente que, só em S. Bernardo, é de cerca de 200 mil pessoas. São essas alianças que vão permitir a elaboração e a implementação de políticas públicas fundamentais para que o povo negro de S. Bernardo e do Brasil ocupe os espaços dos quais vem sendo sistematicamente excluído pelo racismo. É preciso mostrar aos setores mais esclarecidos da sociedade que ainda não enxergam no racismo um problema, que o racismo é sim um problema, e um problema grave que atinge pesadamente os negros e outros discriminados como nordestinos, ciganos, árabes, mas também é um problema da sociedade brasileira, na medida em que é o principal fator de exclusão social de metade da população. Enfrentar o racismo é bom para os negros e bom para o Brasil Não somos o problema, fazemos parte da solução.
2. Quais são os principais projetos que são desenvolvidos pela ONG atualmente?
R: A ONG ABC SEM RACISMO foi criada há menos de seis meses e já desenvolve (todos em fase de elaboração) projetos nas áreas da Educação, da Saúde, da Assistência a Vítimas de Crimes Raciais, entre outros. Estamos na fase de negociação de vários desses projetos com o Poder Público e com outras instituições e esperamos poder, em breve, iniciar a execução desses projetos em benefício da comunidade negra.
Dois projetos desenvolvidos pela ONG já foram executados – ambos voltados a se contrapor a invisibilidade que atinge a comunidade negra na mídia. O primeiro – o Programa ABC SEM RACISMO, que foi ao ar todas as terças feiras, de julho a outubro, no Canal Eco TV (Rede de TV a cabo Canbras/TV) e onde pudemos debater temas fundamentais para o movimento negro não apenas da região mas de S. Paulo e do Brasil, como ações afirmativas e cotas, inserção no mercado de trabalho, a questão da Mulher, a questão da Saúde, em especial o grave problema da anemia falciforme, religiões de matriz africana, entre outros.
O programa saiu do ar temporariamente em função do fim do patrocínio e agora estamos buscando patrocínios, inclusive para levá-lo para a TV aberta.
O outro projeto é o da AFROPRESS – Agência Afroétnica de Notícias – que já está no ar e que pode ser acessada no endereço novo.afropress.com .A AFROPRESS é uma idéia simples, usar a Rede Mundial de Computadores para dar maior visibilidade à questão racial e étnica no Brasil, nas Américas, enfim, em todo o mundo. A proposta é criar um espaço de acesso à informação ágil e dinâmica, bem como de reflexão e debate da questão racial e étnica com a publicação de artigos de lideranças, pesquisadores, educadores, ativistas, enfim. Um espaço na Internet que possa ser acessado para consulta sobre a questão racial por todas as pessoas que querem conhecer, se inteirar e se engajar no tema. A idéia é que esse espaço também se estenda a luta dos grupos étnicos espalhados pelo mundo todo e que também sofrem discriminação de natureza étnica, como é o caso dos indígenas brasileiros e sul-americanos, como o povo Mapuche que vive em territórios hoje ocupados pelo Chile. O projeto AFROPRESS naturalmente está apenas começando e estamos buscando apoios e patrocínios porque a idéia é que a Redação da Agência de Notícias que vai possibilitar a inserção horária e não apenas diárias de notícias, seja operada por estudantes afrodescendentes de Comunicação. Um dos nossos objetivos com a AFROPRESS é difundir no cotidiano das pessoas a cultura das ações afirmativas, ao mesmo tempo viabilizando e possibilitando a jovens afrodescendentes oportunidades de capacitação profissional e de trabalho.
3. A ONG conta com parcerias para que os projetos possam ser realizados?
R: Nossas parcerias são com o Poder Público, independente de Partidos, com empresas, Instituições não-governamentais congêneres, enfim, com todos os que se propuserem a ser parceiros na implementação de políticas públicas em benefício da comunidade afrodescendente.
4. Qual o diferencial da ONG ABC Sem Racismo, dentre tantas outras Ongs que tratam de assuntos relacionados aos negros?
R: Penso que a ONG ABC SEM RACISMO tem uma abordagem diferenciada em relação a várias outras Organizações que combatem o racismo, em que pese o respeito que temos com todas elas, com quem queremos estreitar laços e construir parcerias em torno daquilo que nos une, deixando de lado o que nos divide, o que é menor.
Primeiro, porque não tratamos a questão do racismo como um problema exclusivo nosso, dos negros. O problema é da sociedade brasileira, é do Brasil. Isso define o nosso leque de interlocutores. Queremos falar para a sociedade como um todo, sair do gueto, deixar a postura vitimizada, falar para todos, não tornar à condição de vítimas de um sistema desumano e cruel como o foi o escravismo – cujas seqüelas ainda hoje persistem e explicam as desvantagens que os negros em todos os indicadores – em bandeira. Temos uma posição afirmativa em relação à questão do negro e consideramos que o combate ao racismo deve reunir todos, negros, brancos, orientais, ciganos, nordestinos, enfim. Quem está disposto a identificar e combater o racismo é bem-vindo à nossa organização. Em nossas reuniões, embora o número predominante de presentes seja de jovens afrodescendentes, os brancos que comparecem não se sentem fora do lugar, ou desconfortáveis, porque sabem que a nossa luta é também a sua luta contra o racismo e pelo respeito e valorização da diversidade racial e étnica no Brasil e no mundo.
Um outro aspecto é que não queremos ficar apenas na denúncia do racismo, mas desenvolver projetos voltados à comunidade negra que sirva para melhorar sua capacidade de inserção no mercado de trabalho, melhore as condições de acesso à Educação e contribua para o resgate da nossa auto-estima e dos nossos valores ancestrais como povo que é herdeiro de uma tradição de luta e resistência únicas e fundamental para definir os traços e as características do Brasil, em todas as áreas de atividade. Somos herdeiros do povo que foi arrancado de suas casas, de suas terras, suas aldeias, seu território sua cultura e trazido em navios tumbeiros para servir como mão de obra escrava à construção do Brasil. Não é pouca coisa. O que queremos é que o Estado brasileiro nos reconheça como povo protagonista na construção do Brasil e deixe de nos reservar apenas o espaço da invisibilidade e da subalternidade.
5. A divulgação da ONG e das realizações dos projetos é desenvolvida de que maneira?
R: A divulgação dos nossos projetos é feita em reuniões, em palestras pela mídia de um modo geral, na medida em que conseguimos furar a barreira da pouca visibilidade que a temática tem nos meios de comunicação. É preciso, contudo registrar que, em especial após a Conferência de Durban, o interesse pelo tema aumentou bastante e vai aumentar ainda mais. Discutir o racismo no Brasil, o respeito e a valorização da diversidade racial e étnica, não é um modismo. É central na pauta deste século.
6. Qual é a imagem do negro que os meios de comunicação transmitem na sociedade?
R: A imagem que, normalmente os meios de comunicação transmitem a respeito do negro, são estereótipos largamente conhecidos e que se constituem na porta do preconceito e da discriminação. O negro é sempre visto como ocupando um lugar subalterno na sociedade. Isso você vê nas novelas, onde o papel reservado é a cozinha ou lugares subalternos e onde os personagens normalmente são mostrados fora de um contexto familiar e social. Há até um caso curioso. A Novela A Cabana do Pai Tomás que foi mostrada pela TV brasileira na década de 60, o principal personagem, o ator Sérgio Cardoso, já morto, era branco e o pintaram de negro para representar o personagem. Não era pela ausência de atores negros, naturalmente. Temos vários e dos melhores. Mas é apenas uma amostra de como a TV ainda é impermeável ao trato da questão. Há apenas dois anos o principal telejornal da TV brasileira, o Jornal Nacional passou a ter um negro como apresentador, o repórter Heraldo Pereira.
Mesmo de forma tímida, entretanto, é preciso reconhecer avanços. Hoje já temos uma presença maior e revistas como a Revista Raça, ocupam um espaço importante para o resgate da auto-estima do negro.
7. Quais os temas relacionados aos negros mais discutidos atualmente?
R: Os temas mais debatidos hoje são, naturalmente, a questão das cotas e das ações afirmativas, que são uma enorme batalha para conseguir que os negros tenham acesso à Educação Superior. Hoje somos apenas 2% na Universidade. Importante destacar o papel de lideranças como Frei David da Rede Educafro , do professor Hélio Santos na área acadêmica, que vem juntamente com outras lideranças e intelectuais negros e brancos trabalhando estas questões.
8. Quais as posições dos negros em frente ao racismo presente e a má distribuição de renda?
R: O racismo é responsável pela exclusão do negro em todas as posições. Ocupamos as piores posições no mercado de trabalho e, segundo o IBGE, um homem negro ganha em média apenas a metade que um trabalhador branco. No caso da mulher, a situação é ainda pior. Em todos os indicadores (IBGE, IPEA, DIEESE) estamos em desvantagem. Embora representemos 45,6% da população brasileira – cerca de 80 milhões de pessoas – apenas 2% chega a Universidade. Morremos mais cedo: nossa expectativa de vida é seis anos menor. Enfim, todo o processo de exclusão social que faz do Brasil um dos países de pior distribuição de renda do planeta, está imbricado com o processo de exclusão provocado pelo racismo, este por sua vez, resultante da herança maldita que são os 350 anos de escravismo, cujas seqüelas permanecem.
9. Você acha que os negros possuem medo de denunciar os preconceitos que sofrem?
R: Sim, a maioria dos negros vítimas do racismo no seu cotidiano ainda teme denunciá-lo, quando o enxergam. Digo isso porque no Brasil desenvolveu-se uma modalidade tão, digamos, sofisticada de racismo, que às vezes nem a própria vítima o percebe. Aqui, fez raízes um tipo de racismo muito peculiar. O racismo à brasileira é hipócrita, dissimulado. Não se assume. Você certamente nunca viu ninguém no Brasil assumir: sou racista. E, no entanto, estão aí os indicadores a apontar os prejuízos causados pela discriminação racial e étnica. Então, muitas vezes, ele é tão sutil que a própria vítima – no caso os negros – não percebem que a sua situação de exclusão do mercado de trabalho, do acesso à Educação, do acesso aos bens de consumo, enfim, as suas condições precárias de vida, estão associadas ao fato de ser negro. Para estes, a elite branca racista, destinou papel análogo ao papel antes desempenhado pelo escravo, o espaço da invisibilidade, do subalterno.
É muito difícil, portanto, aos negros que ocupam as piores situações na escala social, primeiro identificar que o seu processo de exclusão social está ligado à condição de negro. O mito da democracia racial, segundo o qual, no Brasil, diferente dos Estados Unidos, da África do Sul, o regime de escravidão foi diferente, segundo o qual reinava a mais absoluta entre a Casa Grande e a Senzala, como se isso fosse possível, gerou e ainda acarreta conseqüências na cabeça e no inconsciente das pessoas. Na área do Judiciário, por exemplo, embora pela Constituição Federal, o racismo seja crime imprescritível e inafiançável, os operadores do Direito – juizes, promotores, advogados, a quase totalidade branca – tem dificuldades de interpretar a Lei quando se trata de crimes raciais. É uma realidade que ele não pode compreender. Que só quem é negro pode compreender. Vista a pele de negro por um dia e você vai compreender o que é ser negro em um país racista; o olhar que te exclui está em toda a parte e não se trata de nenhuma paranóia, nem mania de perseguição não. Daí, a importância de se garantir e lutar pelo acesso dos negros à Educação Superior, às Universidades, para que cada vez tenhamos mais médicos, advogados, Juízes, Promotores, para que a interpretação da Lei e, consequentemente sua aplicação aconteça em face de ocorrência dos crimes de racismo. Não estou dizendo que uma pessoa por ser branca não tenha capacidade de identificar o racismo e aplicar as Leis que o punem. Estou apenas dizendo que, naturalmente, pelos condicionamentos culturais que ela tem, ela tem maiores dificuldades de fazê-lo. Isso quando a desinformação não prevalece. Tenho sempre defendido a necessidade de que as pessoas sejam informadas a respeito da história do Brasil, de fatos históricos que explicam muitas das mazelas persistentes nos dias de hoje.
10. No mês da consciência negra quais as manifestações de maior destaque na região do ABC?
R: No dia 20 de Novembro, vamos promover em S. Bernardo a MARCHA DO POVO NEGRO POR DIREITOS E CIDADANIA. A MARCHA será um momento importante de resgate da nossa auto-estima, de recensear o Herói Zumbi dos Palmares, de afirmação da nossa cultura, dos nossos valores, da nossa presença enfim. S. Bernardo tem uma comunidade afrodescendente de cerca de 200 mil pessoas e precisa, claro, ter políticas públicas específicas em todas as áreas. Não será uma Marcha de protesto. Será uma Marcha de Celebração, queremos mostrar que em uma cidade em que predomina a cultura das colônias italiana, portuguesa, oriental, também existe uma comunidade afrodescendente que tem seus valores e sua contribuição para a cidade e que quer viver em paz, com o reconhecimento de seus direitos, de sua presença, de seus valores e de sua cultura. No Mês de Novembro, a ONG ABC SEM RACISMO, juntamente com outros ativistas de outras organizações negras, ajudou a construir a Agenda do Mês da Consciência Negra, que contemplou atividades musicais, palestras, shows, em parceria com o Departamento de Cultura da Prefeitura de S. Bernardo. O ponto alto, entretanto, será a MARCHA DO POVO NEGRO POR DIREITOS E CIDADANIA. A MARCHA sairá às 9h do estacionamento da WALMART, seguirá pela Marechal Deodoro e será encerrada, às 12h em frente a Praça da Matriz, no Centro de S. Bernardo.
Dojival Vieira dos Santos é Jornalista, Advogado e poeta

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