Considero esta matéria tendenciosa,feita para ludibriar novos leitores deste jornal e para manter alienados os já existentes. De um lado, um jornal conservador com linha editorial nitidamente anti-cotas raciais e de outro um instituto originador desta pesquisa, a Andifes – Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, a qual deixa transparecer também ser contra cotas raciais.
Basta ir a seu portal na Internet para ver que num universo de 43 textos sobre o assunto, uns 42 tem teor contra cotas raciais e um outro fica encima do muro. Então juntamos um jornal conservador anti-cotas e um instituto anti-cotas. O que podemos esperar desta dupla? São tão previsíveis.
Vamos então analisar a matéria. Num primeiro dado estatístico ela diz que das 14 universidades criadas em 5 há mais ricos que pobres – UFCSPA, UFABC, Unifal, UFTM e UTFPR. Ocorre que destas 5 apenas a UFABC é previsto o sistema de cotas com recorte racial, num percentual para negros de 14% do total em cada curso, 36% para quem vier de escola pública e não se declarar negro e 50% para o sistema universal. Caso não se preencham as vagas destinadas às ações afirmativas, estas serão preenchidas pela lista geral.
O jornalista se surpreende pelo fato de existirem mais alunos da classe A e B nesta universidade e se surpreende mais ainda pelo fato de existirem na UFABC – Universidade Federal do ABC 71,14% de estudantes brancos. Ora, se no edital prevê 14% de negros, há de convir que 86% sejam não negros.
E o índice que deixou o jornalista impressionado foi 71,14% de estudantes brancos, 15% abaixo do previsto que pode variar… mas para menos, pois se já é garantido 14% para negros vindos de escola pública, é provável que negros de escola privada adentrem pelo sistema universal, aumentando assim este percentual no conjunto total.
Atenção para o fato de que aqui é previsto no mínimo 14% de negros em cada curso. No total pode aumentar, pois há cursos que o percentual de negros pode ser maior, são os cursos onde a concorrência é menor, pois menos procurados pelos estudantes privilegiados de nossa sociedade. – e não vamos nos iludir também pelo lado inverso, pois há cursos que não são preenchidos pelos 14% de negros. As vagas aqui remanescentes serão ocupadas pelos classificados dos demais grupos. –
O jornalista se surpreende pelo fato de na UFCSPA – Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre – existirem 91% de brancos. Acho natural, perfeitamente natural, afinal de contas ali não é previsto reserva de vagas para negros. Um estudante negro que adentrar naquele site a procura de uma informação precisa desistirá logo de cara.
O jornalista não precisa ir tão longe, a Porto Alegre, para observar tamanha exclusão, basta ir logo ali na USP fazer uma visita aos cursos de Ciências Médicas, há turmas com 100% de brancos. Nos é apresentado outro dado da UFCSPA, 84,85% são estudantes das classes A e B. E novamente um “que absurdo!”. Tolice, pelas regras de preenchimento de vagas, nada demonstra poder existir um número mais justo para as demais classes.
Na Unifal – Universidade Federal de Alfenas – um jovem negro, estudante de escola pública que acessar seu site entenderá perfeitamente que ali dificilmente entrará ante os problemas seculares de nossa sociedade excludente, pois inexiste um programa de ações afirmativas com recorte racial. Se este estudante tiver um pouco de tempo e paciência poderá acessar o Plano de Metas 2011 desta universidade e procurar em suas 80 páginas. Dou uma dica, não perca tempo com as 80 páginas, basta olhar no sumário e não verá nada acerca da inclusão de negros e negras.
Na UFTM – Universidade Federal do Triângulo Mineiro – temos ações afirmativas num bônus de 10% para quem vem de escola pública, multiplica-se a nota deste aluno por 1,1. São ações afirmativas com critério social. Sem olhar a cor do estudante. Já ficou provado ser as cotas exclusivamente sociais um sistema ineficaz de inclusão do negro.
Pode até ter aumentado o número de negros no conjunto total, de forma global, porém em cada curso há um forte desequilíbrio em relação aos cursos mais concorridos. Os que defendem as cotas exclusivamente sociais entendem não existir diferenças entre brancos e negros vindos de escola pública.
Num país racista como o nosso, a diferença entre negros e brancos começa ao nascer em desfavor do negro. Esta diferença se alastra durante a trajetória de vida de ambos. Um branco pobre sofre os percalços por ser branco pobre. Sofre uma única vez. Ao passo que o negro pobre sofre duas vezes, por ser pobre e por ser negro. Os que pensam o contrário, seja qual for o ideário político-sociológico, são os devotos da democracia racial.
Em fim temos a UTFPR – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, a quinta universidade exposta como elitizada pela presença majoritária de estudantes das classes A e B. Nesta universidade é previsto cotas sociais, sem olhar a cor do estudante. Como já demonstrei na explicação em relação a UFTM, nesta 5ª prevalece a visão da democracia racial, visão entranhada em nossa cultura.
Então caríssimos leitores e leitoras, abracemos esta causa, vamos pressionar as universidades federais que ainda não adotaram o sistema de ações afirmativas em conjunto ao critério racial que o façam, pois onde é aplicado o sistema temos milhares histórias de sucesso, sucesso não apenas para os estudantes negros e negras, mas também para todo o universo acadêmico.
O nosso país com certeza será mais justo tendo nossas universidades um mar de cores. Uma pluralidade de cores.

Francisco Antero Mendes Andrade