Apesar das mudanças climáticas que parecem antecipar as profecias de Conselheiro (“o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”), a metereologia não prevê a chegada das sete bestas do apocalipse para este domingo, 26 de outubro de 2014, quando se disputa o segundo turno das eleições deste ano. O mundo não acabará, "por supuesto".

Foi-se a campanha mais violenta desde 1.989, a mais despolitizada de toda a história das eleições do Brasil. Os candidatos, mesmo nos debates diretos transmitidos pela TV em clima de final de novela das oito, pareciam guiados por telepromters ou pontos: perguntas e respostas decoradas. Até mesmo os eleitores do último debate da Globo, escolhidos à dedo pelo IBOPE, pareciam robôs, a repetir mecânicamente as perguntas sem o direito de manifestarem aquiescência – ou discordância – com as respostas.

Os candidatos não trataram dos temas que, verdadeiramente, afligem ao povo brasileiro: violência urbana; educação sofrível; saúde na UTI; a dívida eterna (que todos reconhecem, mas ninguém paga), com a maioria da população negra – herança maldita de quase 400 anos de escravidão e de uma Abolição que nunca se concluiu.

Para isso teriam que tratar das reformas que vem sendo adiadas há décadas – a reforma agrária e urbana, a reforma política, a reforma do judiciário, a reforma do sistema penal e prisional, a reforma tributária, a reforma do modelo sindical. Essas mesmas, que há séculos vem sendo adiadas, e foram o pretexto (para impedí-las, claro) de uma ditadura que durou 21 anos em que morreram homens e mulheres – muitos dos quais figuram ainda hoje entre os desaparecidos.

À propósito: os candidatos também não trataram da herança desses anos da ditadura que ainda hoje nos acompanha, como uma sombra sinistra, mesmo sendo a presidente-candidata uma das vítimas desse período hediondo. Continuamos navegando na “transição lenta, gradual e segura” desenhada pelo general Figueiredo, e imposta pelos militares.

As denúncias de corrupção, recorrentes, em um Estado que tem a corrupção no seu DNA e a nossa tolerância atávica, de tão banais, se naturalizaram. Antes roubava-se os cofres públicos em mil, depois, milhares (de cruzeiros ou cruzeiros novos), depois milhões e agora, no escândalo da Petrobrás – ou Petrolão – se rouba em bilhões de reais, conforme as denúncias do caso da delação premiada. Quem se importa? Ninguém mais se choca.

Quem diria! O “rouba, mas faz”; o “rouba, mas é dos nossos”; o “rouba, mas é de esquerda”, e suas variações pouco criativas, prevaleceu sobre o nosso silêncio cúmplice e de uma Justiça que só é cega para pobres e negros – expressão que pelo menos no caso brasileiro significa quase a mesma coisa.

Aliás, em um país em que ninguém se assume de direita, esquerda e direita se tornaram xingamentos, como também suas variações. Qualquer situação, por mais banal e prosaica, inclusive, a opção por um ou outro candidato, é motivo para que alguém atire: “você é de direita”, “você é de esquerda”, “fascista”, “racista” e outros epítetos menos votados. Pouco importa se o agressor saiba o que significam tais termos.

Tristes tempos, esses!

Na campanha o que se viu foi o show de sempre: ofensas, troca de farpas violência verbal ou insinuada, as perguntas – de lado a lado – feitas, não para extrair de um ou de outra a possibilidade de uma resposta honesta, mas o pretexto para atacar o adversário. Um octógono do UFC, um vale tudo, sem a necessidade de regras.

Nenhuma palavra sobre a desigualdade estruturante do Brasil – 7ª economia do mundo, mas também campeão em desigualdade que tem como seus dois elementos estruturantes os quase 400 anos de escravidão, que nos torna, a nós negros, cidadãos de segunda classe, invisíveis, e a herança de uma sociedade patriarcal, machista, que coloca as mulheres em condição subalterna.

O Brasil, como já disse Tom Jobim, não é para amadores: aqui, além da jabuticaba que é nossa, os marqueteiros inventaram a campanha política sem política.

Tudo funciona como se o país se tornasse um imenso auditório onde os tais marqueteiros, bancados com os milhões doados por empresas, funcionam como animadores de auditório. Além de, provavelmente, ser o único país do mundo com 32 partidos registrados e ter um Governo com 39 ministérios, também deve ser o único país do mundo em que o Governo faz campanha com o lema “muda mais”, ainda que governe há 12 anos.

Não custa muito a inventarem a democracia sem oposição. Não faltarão sábios a justificar: para que oposição, se nós mesmos podemos fazer oposição a nós mesmos? Haverá menos custos. Assistimos nessa campanha a um ensaio para esse novo modelo.

Por tudo isso, aos que romperam as amizades, ou que se tornaram inimigos declarados nessa campanha eleitoral, permitam-me uma sugestão: reatem a partir de amanhã quando o vencedor ou vencedora for anunciado (a). Não vale à pena!

Descobrirão muito rapidamente, que a batalha foi inglória, porque simplesmente os oponentes, ou adversários, não tinham posições distintas, a respeito do essencial. Tudo continuará na mesma e aqui na terra continuarão "jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock’n’roll, uns dias chove, noutros dias bate o sol", como diria Chico Buarque que, de Paris, mandou lembranças e o seu voto.

O que assistimos nessa campanha que se encerra de forma melancólica, foi o que já diagnosticamos por aqui: o estado de exaustão, de esgotamento mesmo, do mesmo modelo político-partidário e eleitoral instaurado com a constituição de 1.988 e do modelo de governança instalado com FHC e continuado por Lula e Dilma que caminham para completar 20 anos e que não tem mais nada a oferecer ao Brasil.

As multidões que saíram às ruas em junho de 2013, tem um papel – o único, que nos restou: iniciar movimento da sociedade civil para a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte, livre e soberana, que seja o espaço para a construção de um novo pacto, que abra espaço para as reformas, que estabeleça novos vínculos entre representantes e representados, entre as instituições democráticas e os cidadãos, que aponte esperanças para as novas gerações de brasileiros que precisam de esperança para continuarem vivendo, sem o mantra da “governabilidade”, que tem sido governabilidade para quem governa e – quase sempre de costas para o povo.

Aliás, o eleito ou eleita – seja quem for – poderia se antecipar e ter a grandeza de convocá-la, mas aí já é pedir grandeza demais, a quem trocou um projeto de país por um projeto de poder, ou a quem não tem projeto de país algum, a não ser o marketing eleitoral para consumo imediato.

PS. Recomendo ler o presente artigo ouvindo baixinho o próprio Chico Buarque de Holanda falando de tempos conhecidos, não muito distantes.

http://youtu.be/3VT5j1CV-hQ

Crédito da foto: Ricardo Duarte/Agência RBS

Dojival Vieira