S. Paulo – Contrariando as expectativas de conselheiros que pretendiam promover debates para a escolha do nome que ocupará a presidência do Conselho da Comunidade Negra de S. Paulo, a professora Elisa Lucas Rodrigues (na foto com o ex-governador Geraldo Alckmin), que até segunda-feira ocupava o cargo e pretende nele se manter até 2.011, se antecipou e convocou para esta quarta, a nova eleição.
A eleição começa as 15h30, em primeira convocação. Não havendo quórum acontece às 16h, com qualquer número. Votam os 22 conselheiros representando a sociedade civil e mais 10 representando as secretarias do governo do Estado.
O fato desagradou alguns dos novos conselheiros e provocou protestos do outro candidato a presidência, o historiador Paulo César Pereira de Oliveira, presidente do Centro Cultural Orunmilá, de Ribeirão Preto. “O debate em torno de propostas é necessário a falta dele compromete a seriedade do processo”, protestou Paulo César, que defendia um prazo de 15 dias para que os candidatos pudessem apresentar propostas e falar dos planos para o Conselho.
Ele contou que até às 17h30 da segunda feira, quando houve a posse dos novos conselheiros, conversou pessoalmente com Elisa, no Palácio dos Bandeirantes, e a mesma lhe garantiu que só haveria reunião na próxima semana para tratar da eleição. “Elisa precisa vir prá discussão; sair do banquinho e vir para a discussão ideológica. É fundamental para que as posições se explicitem”, afirmou Paulo César, ao tomar conhecimento de que a eleição já havia sido marcada.
Elisa se explica
Para Elisa, no entanto, a falta de tempo não compromete o debate. “Acho que há tempo hábil para isso. Ninguém vai votar por votar. Este é um momento muito rico e um momento feliz. Se não for reeleita, saio daqui com uma experiência muito grande”, afirmou.
Ela é apontada como favorita por conselheiros que pediram reserva dos seus nomes, pelo fato de que, além de ocupar a presidência desde 2.003, dirigiu todo o processo, inclusive a escolha da Comissão de Notáveis, que escolheu os 22 representantes da sociedade civil. A Comissão foi composta pelos irmãos Antonio Carlos (Billy) e Rosângela Malachias, e mais por Luiz Eduardo Batista e o subprefeito da Cidade Tiradentes, Artur Xavier.
Segundo Elisa, a disputa de duas candidaturas à presidência faz parte do processo democrático. “Quando há disputa é sinal de que o local tem valor. Quando eu cheguei aqui em 2003, eu não vi isso. A abertura que agente conseguiu dar é que explica esse interesse no cargo. Nunca tive medo de pessoas que tenham conhecimento maior que o meu. Respeito muito o Paulo, que como eu também é do interior”, afirmou.
Ela, entretanto, discorda da avaliação de que não houve avanços na sua gestão. Segundo Paulo, o único projeto da atual gestão foi o “Educando pela diferença para a Igualdade”, em parceria com a Secretaria da Educação para treinar professores na aplicação da Lei 10.639/2003. Ele considera o projeto “um equívoco” pela forma como foi conduzido. “Lamentavelmente não houve avanços em nenhuma área”, concluiu, acrescentando que faltou ao Conselho “o olhar do militante”.
Elisa contesta: “Eu acho que há muitos pontos positivos. A abertura que demos ao Conselho. A questão da saúde, realizamos quatro seminários estaduais, inclusive em Ribeirão Preto; um sistema de informações foi implantado para conhecer melhor a saúde da população negra. Houve avanços, sim. A capacitação dos policiais na questão de direitos humanos e na questão racial foi introduzida. Agora, claro, falta muito coisa. Não vamos resolver um problema de 350 anos”, afirmou.
Debates
Entre os conselheiros, a decisão de Elisa de antecipar a escolha de quem ocupará a presidência, entretanto, não agradou, principalmente porque até o dia anterior ninguém havia sido informado e quinze dos componentes do Conselho, moram em cidades do interior, distantes da capital para onde terão que se deslocar para votar.
O coordenador da Assessoria Especial de Promoção da Igualdade Racial de Araraquara (Aepir) Washington Andrade disse que não poderá comparecer. “Não dá prá ser dois dias depois da posse. Há uma dificuldade de se trabalhar com o interior. Eu monto agenda prá semana toda”, afirmou, justificando a ausência. Ele não quis revelar em quem votaria se comparecesse e defendeu a realização de debates prévios em torno de projetos. “Eu não apóio nomes, apóio projetos”, concluiu.
Por sua vez, João Carlos Benício, que ocupou por três meses interinamente a Coordenadoria Especial de Assuntos da População Negra de S. Paulo (CONE), considera que o papel do Conselho precisa ser repensado para que não se subordine a questão racial a entraves burocráticos. “Seria saudável um debate com os conselheiros, ampliado para a comunidade sobre o papel do Conselho. Eu acho que seria muito oportuno, inclusive, com uma pauta mínima de gestão. O Conselho precisa de um choque de gestão”, acrescentou.

Da Redacao