S. Paulo – A defesa de alguns conselheiros para que houvesse tempo para um debate de propostas e projetos foi inútil. Com 20 votos de conselheiros escolhidos por uma Comissão de Notáveis indicada por ela própria, a professora Elisa Lucas (foto) foi eleita presidente do Conselho da Comunidade Negra do Estado para um mandato até 2.011.
O historiador Paulo César Pereira de Oliveira, presidente do Centro Cultural Orúnmilá, de Ribeirão Preto, que se apresentou como alternativa, com críticas à gestão e ao distanciamento do Conselho da realidade a população negra no Estado, teve apenas um voto: o próprio. S. Paulo é o Estado com maior população negra do país, com 12,5 milhões de afro-brasileiros, de acordo com a Fundação Seade. O Conselho é formado por 22 representantes da sociedade civil e dez designados pelo Estado.
O caráter de eleição “fechada” ficou caracterizado quando a própria Elisa, que ocupa o Conselho desde 2.003, nomeada pelo ex-governador Geraldo Alckmin, convocou os conselheiros à toque de caixa, menos de 48 horas após a posse, ocorrida na segunda-feira no Palácio dos Bandeirantes. Avisados por e-mails de última hora, alguns nem puderam comparecer, como foi o caso do jornalista Marco Antonio dos Santos, de Bebedouro.
“Eu sou jornalista, empregado em um jornal diário, e não pude comparecer a eleição, pois, qualquer trabalhador da iniciativa privada sabe que é complicado ausentar duas vezes na mesma semana do trabalho. Portanto concordo com o argumento que a eleição mereceria ser marcada em outra data. No mínimo: sábado, dia 16 de junho. O tempo também é necessário para debate de propostas e não equivocadamente de nomes para a presidência. Mas uma coisa é importante: que não se repita a situação da última eleição”, disse ele a Afropress.
Nomes que, até a véspera, haviam publicamente defendido maior debate como o ex-coordenador da Cone, João Carlos Benício, voltaram atrás. Outros, como o advogado Eginaldo Marcos Honório e Sueli Aparecida Gonçalves, ambos de Campinas, estavam fechados: sem debate. Na própria eleição, jornalistas foram convidados a se retirar no momento da votação.
Adiamento
Paulo César ainda tentou adiar a votação para que houvesse tempo para conhecimento das propostas de cada candidato. Inútil. “A coisa estava pronta. Fiz a proposta, mas não foi aceita. Perdi por 20 votos a um. Fiz a proposta de voto secreto. Também não foi aceita. Não houve nenhuma disposição sequer de discutir a proposta de ampliar o debate”, afirmou. Perplexo diante da resistência até mesmo em colocar em votação a proposta de realizar o debate, ele chegou a questionar se estava “numa monarquia”. No dia anterior, Elisa defendeu o processo e garantiu que seria democrático.
Segundo Paulo César, embora tendo maioria dos votos “quem perde com isso é a própria Elisa, na medida em que ficou explícito um processo viciado desde o início”. “Perde a comunidade negra e perde o Governo Serra, porque poderia ter um canal de interlocução positivo com a comunidade negra do Estado”, acrescentou. Paulo é filiado ao PSDB e preside o Secretariado Regional Tucano em Ribeirão Preto.
Mesmo com um único voto, ele considera que a apresentação de sua candidatura cumpriu um papel – o de questionar os métodos pelos quais o Conselho, órgão criado pelo Estado para a elaboração de políticas públicas para a comunidade negra, vem sendo dirigido.
Preocupado com o distanciamento do órgão das demandas da comunidade, propôs a mobilização em defesa da criação de uma Secretaria do Negro, pelo Estado, com dotação orçamentária e capacidade de gestão. “Este modelo de Conselho, submisso e distante, não atende as aspirações da população negra. Da mesma forma que os deficientes foram contemplados com dotação orçamentária, queremos uma Secretaria do Negro, com dotação orçamentária que possa executar políticas públicas para a população negra. Nós necessitamos de um órgão do Governo para a execução de políticas públicas”, afirmou.
Na solenidade de posse do Conselho, o governador José Serra anunciou a criação da Secretaria Estadual dos Portadores de Deficiência, cujo projeto já está na Assembléia Legislativa.

Da Redacao