Para um jornalista sensível, a tragédia humana deve provocar revolta e não inspiração. Há maneiras mais inteligentes de mostrar a “realidade” de quem toma tapa na cara só porque a cara não é pálida.
Seja na hora do almoço, seja no finalzinho da tarde, vender o medo acabou se tornando um negócio rentável. O povo de pele escura que aparece na televisão trocando tiro com a polícia, seqüestrando empresário e assaltando banco é a exceção. A grande massa está mexendo massa, assentando bloco, esmerilhando aço, lavando banheiro, limpando vidraça, pintando parede, dirigindo caminhão, lendo, escrevendo, compondo música, driblando as estatísticas, sonhando com uma vida menos injusta…
É importante exigir do governo a prisão e a punição dos criminosos. Entretanto, antes de tudo, é fundamental respeitar a dor de quem é vítima constante de violências físicas, morais e espirituais. Programas como o “Brasil Urgente” (Rede Bandeirantes) e o “Balanço Geral” (Rede Record), entre outros, provocam surdez e cegueira. Por conta dos impropérios que são veiculados nesses programas, a sociedade deixa passar despercebidas campanhas nazi-fascistas e cenas de genocídio.
Poucos protestaram quando o governador do Rio de Janeiro fez uma das declarações mais infelizes deste princípio de século. Em entrevista ao G1 (portal de notícias do Grupo Globo), Sérgio Cabral (PMDB) defendeu a legalização do aborto e o controle da natalidade em favelas como a Rocinha, por elas serem “fábricas de produzir marginal”. O discurso do governador rendeu a ele o título de imbecil. Em todo o mundo, apenas meia-dúzia de pessoas merecem ser chamadas de imbecis. Por curiosidade, a lista é encabeçada por George W. Bush.
Em um país “democrático”, onde a convivência é “pacífica”, deveríamos sentir calafrios diante do “Caveirão”. Aquilo é uma máquina de moer gente e atua no mesmo território sob jurisdição do já citado imbecil. Como satiriza o funk que virou modinha, “pega um, pega geral / também vai pegar você”. As organizações que zelam (ou deveriam zelar) pelos Direitos Humanos precisam entender que omissão é cumplicidade. É preciso se escandalizar também diante do assassinato de um preto pobre e inocente.
Quando nos calamos diante das imbecilidades dos homens públicos; quando apoiamos a existência do “Caveirão”; quando almoçamos diante de uma tela cheia de sangue, sem ter indigestão; quando deixamos de admirar o crepúsculo para ouvir um sujeito praguejar contra um povo que foi abandonado à sua própria sorte; quando aplaudimos uma Polícia que mata suspeitos; quando acreditamos na falácia de que “as coisas nunca estiveram tão bem na história deste país”, estamos banalizando a tragédia e evocando o caos.
Se for para mostrar a “realidade”, que não seja apenas o lado obscuro dela! Há um lado colorido e cheio de vida nas periferias. Em 2007, enquanto os meios de comunicação anunciavam os esquemas de segurança para as festividades de fim de ano, um grupo de artistas estava organizando, nos arrabaldes de São Paulo, longe dos holofotes, a Semana de Arte Moderna da Periferia. Durante sete dias, poetas, escritores, artistas plásticos, músicos e atores mostraram que o povo pobre só precisa de “pena” para escrever.
Nas palavras de um dos maiores antropólogos em atividade no Brasil, “até no lixão nasce flor”. Ao cantar as dores de quem vive na periferia, Mano Brown e outros tantos defensores da dignidade dos desvalidos sempre nos convidam a compreender antes de julgar. Já que a soberba nos faz olhar tudo por cima, podemos entrar pelas frestas dos telhados e “dar uma espiadinha” na vida real. Se fizermos um pouquinho de silêncio, além de tiros, talvez possamos também ouvir o descompasso das batidas de um coração apaixonado.

Jorge Américo