Ao convocar um ato de ocupação às Lojas Americanas, em protesto contra o mais recente caso de tortura praticado por seguranças e sofrido por um trabalhador negro, desta vez em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, fez o que muitos, mesmo se dizendo lideranças – por acomodação, omissão, covardia, ou obediência estrita e cega à agenda dos seus partidos – não se dignam, mesmo com a repetição quase diária dessas práticas medievais em pleno século XXI.
Nos últimos dois anos, episódios semelhantes – com maior ou menor semelhança – ocorreram nas três principais redes de supermercados do país: Carrefour, Extra e Walmart. Em todos, as mesmas velhas e odiosas práticas de seguranças que atuam com licença do Ministério da Justiça, por intermédio da Polícia Federal, para agir com uma espécie de guarda paralela e à margem da Lei, bate-paus que – com a truculência conhecida – partem para cima de homens e mulheres negros – suspeitos-padrão de qualquer crime, no melhor estilo da Casa Grande.
Foi assim, com o vigilante Januário Alves de Santana, tomado por suspeito do roubo do seu próprio carro – um Ford EcoSport – e espancado por seis seguranças por quase meia hora, em agosto de 2009, numa loja do Carrefour.
A tortura a Januário foi, primeiramente, denunciada por esta Afropress e, depois, se espalhou pelo Brasil replicada pelos grandes meios de comunicação e pelo telejornalismo das grandes redes, forçando a empresa a negociar uma indenização em termos adequados, e fazendo com que a Polícia de S. Paulo enquadrasse os seguranças, pela primeira vez no Brasil, por crime de tortura motivada por discriminação racial.
Foi assim, no episódio em que crianças e pré-adolescentes foram levados para um quartinho no Supermercados Extra da Marginal Tietê, em S. Paulo, em janeiro deste ano e, sob a ameaça de chicotadas e safanões, pressionados a confessarem roubo de mercadorias pelas quais – pelo menos um deles – comprovadamente havia pago.
Foi assim, com a dona de casa negra, Clécia Maria da Silva, na loja da Avenida dos Autonomistas, também em Osasco, em fevereiro deste ano, tomada por ladra por um desses bate-paus que, depois de expô-la à humilhação e vergonha públicas, ainda teve o desplante de debochar quando cobrado a dar explicações afirmando que “esse tipo de procedimento era normal com negros”.
Tantos e tão corriqueiros são os casos a se somar à outras violências e humilhações diárias, que uma reação firme, decidida, altiva, se faz, mais do que necessária: é urgente. E foi essa, para sermos justos, a intenção do Frei David, ao mobilizar o seu exército de guerreiros e guerreiras da Educafro.
Ao colocar na linha telefônica, direto de Campo Grande, o vigilante Márcio Antonio de Souza, a vítima da agressão mais recente, para saudar os presentes reunidos para a celebração de um ato de solidariedade ativa, viva, Frei David apontou o velho caminho conhecido de todos os oprimidos: a união.
Contudo, mais uma vez, o Frei – que, como todos nós seres humanos, erra – errou. Foi traído pelo voluntarismo e espírito messiânico, aliás, próprios de líderes religiosos, pouco importa a fé que professem ou a ordem à que pertençam, mas não privilégio deles.
A convocação da ocupação de uma das unidades das Lojas Americanas, em pleno centro de S. Paulo e, na presente ordem/desordem capitalista em que vivemos, seria compreensível em um processo de ruptura dessa mesma ordem/desordem, ou numa atitude extrema de grevistas radicalizados. Como não é um nem outro caso, poderia muito bem soar como uma provocação, não conhecêssemos todos a história, a trajetória e a dedicação de Frei David.
Pretender que, diante da convocação de um ato de ocupação de uma empresa, o aparato estatal policial-repressivo se mantivesse omisso, conhecendo como conhecemos as limitações desse mesmo estado democrático de direito, que é uma conquista – queira-se ou não -, se lembrarmos que recém saímos de mais de 20 anos de ditadura militar – que matou e torturou quem lutava por liberdade, inclusive, a atual presidente da República, Dilma Rousseff – é, no mínimo, fruto de pouca ou nenhuma percepção da realidade política, ingenuidade extrema. Aí está o equívoco do Frei.
O mesmo Estado democrático de direito garante e assegura a liberdade de expressão e manifestação nos espaços públicos e privados. Tivesse o Frei, com a sua conhecida liderança, convocado os líderes das entidades negras de S. Paulo para expressar um “Basta” às violências diárias sofridas por negros nas relações de consumo e no mercado de trabalho, teria atingido com esse gesto os dois objetivos: mobilizado pelo menos três vezes mais gente, e não dado pretexto para que a ação do aparato repressivo agisse com a violência e a truculência de sempre.
Como bem diz o advogado, Gerson Rozo Guimarães, em comentário enviado à Afropress, ao fazer a defesa de uma “tomada pública de posição de lideranças, ativistas, simpatizantes da causa da igualdade racial, parentes e amigos de vítimas como uma manifestação cívica. Um ato público de desagravo à pessoa e à cidadania ofendidas”.
“Mas, não concordo com ocupação de lojas ou qualquer intervenção que impacte à segurança de espaços públicos ou a propriedade privada por entender que isso atrairá a repressão policial expondo desnecessariamente as pessoas e negativamente o crescimento do movimento, e, sobretudo, por desviar o foco do debate. A ordem jurídica democrática autoriza a reunião de pessoas em espaços abertos ou fechados, públicos ou privados. Atos de Desagravos podem e devem contar com lideranças políticas, sociais, religiosas, personalidades esportivas e culturais. Esses atos devem ser estrategicamente preparados, portanto devem atender a visões de curto, médio e longo prazo. Igualdade racial é cidadania”, objeta Rozo, um insuspeito defensor da igualdade racial, dirigente e militante do PT, desde a década de 80.
Fica então, aí a sugestão ao Frei David. Assuma a sua liderança para aglutinar todos – rigorosamente todos os que se indignam diariamente com esses atos de violência que atingem pessoas negros. Convoque uma grande reunião para organizar uma manifestação monstro, ampla, aberta a todos os que são solidários, em todas as empresas em que ocorreram e ou vierem a ocorrer esses atos de violência contra negros, em espaço público.
Proponha que se façam outras em todo o país para expressar a nossa indignação revolta e protesto.
E acima de tudo para dizer: Chega! Toda vez que um negro, neste país, sofrer violência, os negros de todo o país se levantarão. Toda vez que um branco pobre, neste país, sofrer violência, os negros e os pobres deste país, se levantarão.
Desta forma, o aparato policial repressivo, que sempre – e desde sempre -, esteve e estará à postos para defender quem tem contra os que não tem, não terá pretexto para agir. E quando sem pretexto agir, mais isolado ficará.
E mais ainda: mesmo que os homens e mulheres que dele fazem parte, não assumam o nosso lado, muitos deles, – que também são negros – passarão a, no mínimo, ver com mais simpatia a nossa Causa.