NOVA IGUAÇU/RJ – Em mais um caso de discriminação e racismo contra pessoas negras praticado por seguranças e funcionários de uma empresa do Grupo Carrefour Brasil, a dona de casa Juliana Vieira Gonçalves, que trabalha como vendedora de balas nos trens dos subúrbios carioca, foi tratada como ladra por funcionário do Atacadão de Nova Iguaçu e teve de chamar a Polícia.

Ela estava de saída de uma loja da Rua Allan Kardec, no Bairro Maria da Luz, quando ouviu gritos em sua direção vindos de um homem que pediu para que parasse: “A senhora tem a nota fiscal?”, exigiu o homem depois identificado como Paulo Vitor Oliveira, funcionário do setor de Prevenção de Perdas do Atacadão. O caso aconteceu no dia 22 do mês passado.

SUSTO E HUMILHAÇÃO

Assustada, Juliana respondeu que sim, mas isso não foi suficiente. O homem já com a nota fiscal na mão, a conduziu a um canto do estabelecimento, e passou a interrogá-la perguntando se todos os ítens que estavam na sacola haviam sido pagos, conferindo cada produto, em evidente demonstração de que Juliana passara à condição de suspeita de furto.

“Essa vassoura você não pagou” disse o homem ao constatar que a vassoura não estava entre os itens da nota, porque havia sido comprada em outra loja.

No momento em que constatou que estava sendo tratada como ladra, Juliana chamou a Polícia e gravou um vídeo denunciando a violência. Antes da chegada da viatura, um outro homem,  descrito como branco, cabelos pretos, um pouco gordo, se aproximou pedindo desculpas alegando que a abordagem tinha acontecido porque o funcionário achou que Juliana havia esquecido um frango no caixa.  O próprio suposto gerente admitiu que a vassoura não havia sido comprada na loja – o Atacadão não trabalha com aquele tipo de produto.

A história fantasiosa e o falso álibi criado pelo gerente para justificar a discriminação e racismo desmoronou porque Juliana garante que sequer comprou frango naquele dia, conforme pode ser provado com a nota fiscal.

Na 52ª Delegacia de Polícia de Nova Iguaçu para onde os dois funcionários foram conduzidos pelos policiais Menezes e Ramalho, que atenderam a ocorrência, o delegado de plantão recusou-se a fazer o registro do Boletim, orientando Juliana a fazê-lo por meio da Internet.

COLETIVO E PROVIDÊNCIAS

Na última terça-feira (29/março), Juliana se reuniu com advogados Dojival Vieira, Cláudio Latorraca, André Moreira, Onir Araújo do Coletivo Cidadania, Antirracismo e Direitos Humanos, Lucílio Casas Bastos, do Núcleo de Salvador, com o advogado Bruno Cândido, convidado pelo Coletivo, e pelas professoras Rosane Romão e Mila Neves, de Niterói, e Arísia Barros, de Maceió, Alagoas.

Durante a reunião, além da solidariedade manifestada por todos, foi orientada a fazer o registro do Boletim de Ocorrência diretamente na Delegacia de Crimes contra a Discriminação Racial, do Rio (DECRADI) o que aconteceu na quinta-feira (31/março), quando acompanhada do advogado Bruno Cândido, finalmente pôde fazer o registro.

O caso foi registrado como a injúria prevista no art. 140 do Código Penal , tendo como motivo presumido intolerância étnica, racial ou de cor. O advogado Bruno Cândido, porém, disse que buscará intervir para que fique caracterizado oficialmente, que a falsa suspeita de furto e o constrangimento sofrido por Juliana tratada como ladra diante das pessoas que se encontravam no local, fique caracterizado como racismo.

Segundo os advogados do Coletivo Cidadania, Antirracismo e Direitos Humanos, além do acompanhamento do Inquérito a ser aberto, e da ação civil de indenização por danos morais, o caso deverá ser objeto de mais uma Ação Civil Pública por dano moral coletivo contra o Grupo Carrefour Brasil.

No ano passado, o Atacadão teve um faturamento de R$ 60 bilhões no Brasil e a previsão para os próximos anos é que chegue a R$ 100 bilhões até 2.024.

Veja o vídeo:

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