Rio – Em noite de festa que reuniu no Teatro do Vivo Rio, no Aterro do Flamengo, lideranças do Movimento Negro, jornalistas comprometidos com a defesa da igualdade, representantes de várias religiões e cultos, cantores como Eliana Pittman, Sandra de Sá e o Grupo Fundo de Quintal, e os atores Milton Gonçalves e Neusa Borges, o Centro de Articulação das Populações Marginalizadas (CEAP), promoveu nesta segunda-feira (31/05) a entrega do Prêmio Camélia da Liberdade.
O Prêmio, que já está na 5ª Edição e tem como objetivo homenagear personalidades que desenvolvem ações positivas para a população negra brasileira, este ano lembrou os 100 anos da Revolta da Chibata e reverenciou a memória do seu líder, João Cândido, o “Mestre Sala dos Mares”, celebrizado na música de João Bosco e Aldir Blanc.
A Afropress – Agência Afroétnica de Notícias – recebeu Menção Honrosa pelo jornalismo com enfoque na comunidade afro-brasileira e por se constituir numa opção de leitura para milhares de pessoas que desejam obter informações relacionadas à temática étnico-racial brasileira.
Ao ser chamado ao palco, o jornalista Dojival Vieira agradeceu aos organizadores do Prêmio e a todos os colaboradores que “ao longo destes cinco anos contribuíram para que a Afropress se tornasse um instrumento capaz de furar a invisibilidade que os grandes veículos ainda dedicam a temática étnico-racial brasileira”.
Também receberam a Menção Honrosa Ana Maria Felippe, do Espaço Lélia Gonzalez, e Edson Lopes Cardoso, do Irohin. Este último, embora presente, não subiu para receber o certificado.
Emoção
Os grandes homenageados desta 5ª Edição, além de Milton Gonçalves, foram as jornalistas Joyce Ribeiro, apresentadora do jornal Boletim de Ocorrências do SBT, e a repórter Clarissa Monteagudo, do Jornal Extra, do Rio, por uma série de reportagens sobre a intolerância às religiões de matriz africana.
Joyce – a única negra à frente de um telejornal nacional – disse sentir orgulho de ouvir nas ruas de muitas meninas negras que pretendem fazer jornalismo por terem passado a admirar o seu trabalho no vídeo.
“Fico muito feliz quando saio, ando pelas ruas e vejo jovens que chegam para falar comigo dizendo que fui uma luz e inspiração. Só de ter despertado essa pontinha no coração de cada um que vem falar comigo, já vale meu trabalho, minha luta e minha insistência. Trabalho para levar o melhor”, afirmou ao receber o troféu do ministro chefe da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Elói Araújo (foto).
Por sua vez, Clarissa Monteagudo fez um depoimento comovido a respeito da série de reportagens que produziu. “Quero corrigir uma quase injustiça, porque esta série não pertence a uma mão, pertence a um esorço de um jornal que tem uma linha de combate à intolerância religiosa, que começou antes de mim. Talvez não acreditemos nas mesmas coisas, mas é possível sim dialogar. O que conheci, queria muito que o Brasil conhecesse e reconhcesse: a beleza de uma cultura que tem muito a ensinar ao país. O Brasil tem muito que aprender com a cultura negra – disse.
Maurício Pestana, da Revista Raça, foi o outro homenageado pelo trabalho desenvolvido pela Revista nos 14 anos de existência da publicação.
Eu me levanto
O momento de maior emoção da noite, porém, foi protagonizado pelo ator Milton Gonçalves, que ao ser chamado para receber a homenagem como personalidade, leu o poema “Ainda assim, eu me levanto” (Still I Rise) da poeta negra norte-americana, Maya Angelou.
“Independentemente de qual seja o prêmio, me sinto muito feliz só de ser escolhido para receber essa homenagem. Não temos mais tempo de lamentar o passado para não encarar o presente. É tempo de construção”, afirmou.
“Se somos mais da metade da população brasileira, não temos que esperar esmolas. Temos que ser pelo menos metades das Câmaras Municipais, das Assembléias Estaduais e do Congresso Nacional. Se somos mais da metade da população brasileira, não temos que esperar esmolas”, concluiu Milton, sendo aplaudido de pé pelos presentes.
Também foram homeneagados – na cerimônia conduzida pelo humorista Sérgio Loroza e pela atriz Valquíria Ribeiro – o padre Geraldo José Natalino, o Padre Gegê, e o professor e delegado Henrique Pessoa.
Prêmio Camélia
Promovido pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas do Rio (CEAP), o Prêmio Camélia da Liberdade também premiou o Centro Universitário Estadual dça Zona Oeste/Sudeste do Rio (UEZO), cujo troféu foi entregue pelo imortal Arnaldo Neskier, a Universidade Federal do Rio do Sul e a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, por adotarem políticas afirmativas.
Segundo o secretário executivo do CEAP, e idealizador do Prêmio, Ivanir dos Santos, o Prêmio tem ajudo a promover mudanças. “Queríamos colocar uma questão justa, mas de forma simpática. O Prêmio Camélia não é um prêmio para dar para quem quer, mas para quem merece”, afirmou.
30 anos de carreira
A cantora Sandra de Sá foi outra personalidade homenageada pelos 30 anos de carreira. Enquanto cantava sucessos como “Bye, bye tristeza”, fotos das várias fases da carreira do “Rei do Pop”, Michael Jackson, morto no ano passado, apareciam no telão.
A cantora Eliana Pittman que entregou o prêmio a empresa TAM destacou. “É muito importante fazer festas como essas para mostrar os valores dos negros para os próprios negros. E a homenagem ao Milton é mais do que merecida, pois é um homem que sempre saiu em defesa da igualdade racial”, declarou.
A cantora salientou a importância dos negros usarem o poder de consumo como instrumento de pressão pelas ações afirmativas. Ao entregar o prêmio a representante da TAM, que foi homenageada por ter uma política de ações afirmativas que reserva 10% das vagas para afrodescendentes, comunicou: “Agora só viajo TAM”.
No final, o líder religioso e secretário executivo do CEAP, Ivanir dos Santos, homenagou lideranças das religiões de matriz africana, como Mãe Agripina D’Xangô e Ya Davina D’Omulú, e o Grupo Fundo de Quintal, já na madrugada desta sexta-feira transformou a festa numa imensa roda de samba.

Da Redacao