Partiu para uma espécie de retaliação, tão desprovida de sentido quanto de bom senso. Em tom de queixa publicizou no veículo que controla “a íntegra das resposta que não foram divulgadas no referido site” [Afropress], omitindo deliberadamente dois pontos fundamentais:
1- não informou que a entrevista foi pedida em agosto e sua resposta começou a chegar em 29 de setembro e terminou em 14 de outubro o que, por óbvio, fez com que os temas abordados perdessem a atualidade;
2 – não desmentiu uma única vírgula que seja das informações que divulgamos.
No longo período de ausência de respostas limitou-se a justificar que estava na África, em viagem, o que, diante da atitude recente, soa a pretexto: séculos de colonialismo não privaram a África de computadores e do acesso à Internet.
Postar a entrevista como fez, sem contextualizá-la, reiteramos, é um ato de retaliação e apenas cumpre o objetivo de desviar as atenções do que é principal: a avaliação do Plano, os critérios para definição de quem são os representantes da sociedade civil no seu acompanhamento e monitoramento.
Foi precisamente pela intenção de não polemizar, mas apenas informar que optamos por transformar a entrevista em matéria, contextualizando as informações, inclusive com informes da última reunião do início de dezembro, fazendo um balanço do Plano com as informações disponíveis. Não fazemos publicidade ou propaganda, mas jornalismo. Tivemos o cuidado de reproduzir, inclusive com aspas, declarações do entrevistado. Não foi o suficiente.
Ao que parece o diretor executivo do Instituto Mídia Étnica ignora dois aspectos que não lhe poderiam ser estranhos como homem de comunicação como se apresenta: o tratamento editorial de qualquer informação é uma prerrogativa do editor do veículo que o edita; 2 – concedida a entrevista, o tratamento que a mesma receberá – o destaque, o espaço na página, ou até mesmo se será ou não publicada -, é também prerrogativa de quem edita.
Publicar a entrevista como fez, sem autorização do veículo a quem concedeu – e ainda com a intenção subliminar de retaliação – não é apenas pouco profissional, uma deselegância, grosseria gratuita. Pessoa educada e, normalmente gentil nas relações que sempre manteve com Afropress e com o seu editor, PR, ao fazê-lo, ficou na fronteira do desvio ético – se é que não a rompeu.
Pode ser sintoma avançado de despreparo ou deslumbramento precoces – ambos incompatíveis com alguém de quem se espera equilíbrio, discernimento e, acima de tudo, ética nas relações interpessoais e profissionais.
O desconforto do diretor executivo do Mídia Étnica só pode ter, portanto, uma explicação: a notícia de que sua entidade foi a beneficiária do projeto de US$ 27,5 mil da Embaixada americana e que o total de US$ 55 mil só foi dividido com a ponto focal representante dos EUA, Lorelei Williams, pelo fato de o mesmo ter, inicialmente, recusado a proposta de integrar um Comitê para gerir os recursos com os jornalistas que estiveram em Atlanta, inclusive esta Afropress.
E aqui, PR – além da deselegância – comete uma impropriedade que precisa ser reparada, em nome da verdade e da correção.
Primeiro: os recursos eram, sim, integralmente para entidades brasileiras e fomos – este editor, inclusive – convidados a uma reunião em Brasília em que estiveram presentes representantes da Embaixada e da SEPPIR, para que assumíssemos a responsabilidade pela sua gestão.
Nós, da Afropress, propusemos que o próprio Instituto Mídia Étnica fosse a “entidade guarda-chuva” e se encarregasse de constituir o Comitê de gestão. Entendíamos que o referido Comitê, por razões óbvias, deveria ser integrado pelos jornalistas que estiveram em Atlanta, sem prejuízo da participação de outras entidades que aderissem ao projeto ao longo de sua execução.
Reiteramos: foi o diretor executivo do Mídia Étnica quem, inexplicavelmente, recusou-se, num primeiro momento a fazê-lo, alegando não estarem presentes o que ele chama de “um conjunto de organizações de comunicação gestores do projeto e não apenas uma ONG”.
Diante da recusa de Paulo Rogério, chegamos a apresentar projeto nesse sentido à Embaixada americana.
Por pura boa fé, não imaginávamos o que pretendia até concluirmos que, na verdade, era apenas uma manobra para “forçar” a Embaixada – diante da decisão de repassar o recurso e premida pela urgência de prazos – a encontrar um critério que fosse, ao mesmo tempo, inquestionável (como o de dividir os recursos com os pontos focais), e também tornasse a sua entidade beneficiária, já que era o único ponto focal presente à reunião.
É digno de nota o argumento usado pelo diretor do Mídia Étnica para justificar o compartilhamento de recursos: “Certamente nossos colegas afro-americanos sofrem da mesma dificuldade de captação de recursos e estão compartilhando do mesmo sentimento que temos aqui no Brasil de que esse Plano possa ter êxito. Além disso, com a gestão compartilhada desse recurso, aumentaremos a transparência do processo e maior publicização das ações”, afirmou.
Como se vê o ufanismo da propaganda de que somos a 8ª economia no mundo, ignorando as nossas profundas desigualdades sociorraciais, já chegou a certos setores do Movimento Negro, e daqui a pouco – a levar à sério o desvairio – o que deveremos é repassar os recursos que nos faltam para o apoio a instituições de Bangladesh, Índia e Paquistão, nos associando aos esforços dos nossos irmãos norte-americanos.
Patético, para dizer o mínimo.
Curioso também é que Paulo Rogério rejeitou a proposta de Afropress em defesa de entidades que não estiveram Atlanta, algumas desativadas e outras sem qualquer trabalho jornalístico – ao contrário, contumazes reprodutoras, inclusive, desta Afropress, cujas matérias sistematicamente pirateiam -, além de outras, empresas estabelecidas no mercado editorial das grandes revistas.
Esqueceu, por exemplo, a Afrobrasnews, da Faculdade Zumbi dos Palmares, e que fez parte da delegação de jornalistas presentes em Atlanta, em nenhum momento lembrada. Como se vê, são dois pesos, duas medidas e a velha lógica: “aos amigos tudo – mesmo aos ausentes; aos inimigos – bem os inimigos, ou não tão amigos, bem, esses não contam”.
Reiteramos que consideramos positivo o Plano JAPER – esforço dos dois países no sentido da troca de experiências que contribuam para botar abaixo a cultura da discriminação racial há séculos enraizada, porém, para que atinja os objetivos pretendidos é necessário que sejam superados certos aspectos responsáveis pelo atraso em que nos mantemos: as idiossincrasias pessoais prevalecendo sobre o interesse público e coletivo; o “compadrismo”, o “clubismo” dos eternos beneficiários da política do “farinha pouca meu pirão primeiro”.
Essa tem sido a tônica de boa parte “das tais organizações negras” a que PR faz referência, e essa lógica, quase sempre, ignora quem trabalha e premia “os mesmos” com “viagens-passeio” e outras benesses simbólicas.
É fundamental também que na implementação das medidas do Plano se compreenda o Brasil como um todo – inclusive a Bahia – o que não tem ocorrido, como se pode verificar. O Plano é Brasil/EUA não é Bahia/EUA como parece ser a pretensão de alguns. Precisa, portanto, contemplar os 26 Estados brasileiros e o Distrito Federal.
Fora disso, corre-se o risco se ver um Plano gestado e inspirado em um novo modelo de relações bilaterais – em que as autoridades americanas parecem intuir um importante aspecto para sua diplomacia nas relações Norte/Sul, na medida em que levam em conta o fato de o Brasil ser o maior país negro do mundo fora da África – desvirtuado, pelo lado brasileiro, numa ação entre amigos. Poucos amigos.
Observação: O espaço de Afropress está à disposição do diretor executivo do Instituto Mídia Étnica, caso queira oferecer a sua versão, bastando que ofereça também a garantia da contrapartida no veículo que controla.