Manhattan/Nova York – O novo presidente da Fundação Palmares, o ator, diretor e produtor cultural Hilton Cobra, o Cobrinha,  que até esta terça-feira (19/03) cumpriu  agenda de visita a museus norte-americanos, em companhia da ministra da Cultura, Marta Suplicy, disse que o foco do Museu da Memória dos Afrodescendentes que sera edificado em Brasília será “contar a história do negro e da escravidão brasileira”.

“O que de fato aconteceu com a escravidão brasileira? O que foi a escravidão no Brasil?. Este é o foco principal do conceito do Museu. Daí a troca de experiencias visitando os museus aqui no EUA, o MoMa, o Smithsonian, O Holocausto, O Schomburg, que sem duvida nenhnuma, são uma grande fonte de inspiração por causa da sua documentação sobre a história afro-americana. A idéia do Museu no Brasil é usar a tecnologia avançada, com poucos artefatos, mas que possam contextualizar e dialogar. Esta é a ideia até o momento”, afirmou.

O Museu deverá se chamar Memória & Cultura e será erguido num terreno na Asa Norte, area nobre de Brasília, doado pelo Governo do Distrito Federal, quando da visita do líder sul-africano, o ex-presidente Nelson Mandela, nos anos 90. Foi o próprio Mandela quem lançou a pedra fundamental.

Na entrevista ao correspondente de Afropress em Nova York, Edson Cadette, Cobrinha que assumiu a Palmares há menos de 15 dias, disse em resposta a uma pergunta feita por Cadette, que essa será a primeira vez em 10 anos de história da SEPPIR e 25 da Palmares, que a Secretaria e a autarquia trabalharão afinadas. “Não quero fazer crítica alguma a  negócio de antecessor. A ministra Luiza Bairros é minha amiga por mais de 30 anos. Quero dizer é que, pela primeira vez, (eu não queria dizer, mas você me forçou) pela primeira vez a SEPPIR e a Palmares trabalharão em parceria plena e de fato”, acrescentou.

Ele garantiu não ter ainda escolhido nomes da equipe de gestão, nem se manterá os atuais  membros e os chefes das representações da Palmares nos Estados. Também não definiu nomes que se encarregarão de concretizar a proposta do Museu. “O que me solicitou a ministra foi que eu relacionasse uma série de nomes em áreas estratégicas, como Museologia, Antropologia, Sociologia, e apresentasse a ela para que pudéssemos ter uma reunião para decidir a formação desta equipe”, assinalou.

Veja, na íntegra, a entrevista de Cobrinha ao correspondente de Afropress, Edson Cadette.

Afropress –  Qual foi o motivo de sua viagem aos EUA?

Hilton Cobra – Troca de experiências. O Ministério de Cultura, por meio da ministra Marta Suplicy, e eu que acabo de entrar na Palmares, estamos querendo de fato construir o Museu que, provavelmente, será chamado “Memória & Cultura”, dedicado a história do negro, em um terreno que foe cedido para este fim, há mais de 20 anos. O foco deste Museu é exatamente contar a história do negro dentro da escravidão brasileira. O que de fato aconteceu com a escravidão brasileira? Como é que foi a escravidão no Brasil? Este é o foco principal do conceito do Museu. Aí a troca de experiências visitando os museus aqui, nos EUA, o MoMa, o Smithsonian, o Holocausto, o Schomburg que, sem dúvida nenhuma, é uma grande fonte de inspiração por causa da sua documentação sobre a história afro-americana. A idéia do museu no Brasil é usar a tecnologia avançada. Com poucos artefatos, mas que possam contextualizar e dialogar. Esta é a idéia até o momento.

Afropress – Você já tem em mente a equipe que vai  assessorá-lo? Você ja escolheu os representantes da Fundação Palmares no Rio, São Paulo etc?.

HC – Não. O que me solicitou a Ministra foi que eu relacionasse uma série de nomes  em áreas estratégicas, como Museologia, Antropologia, Sociologia, e apresentasse a ela para que pudéssemos ter uma reunião para decidir a formação desta equipe. Sabendo que não é uma equipe grande. Ela  será do tamanho que deve ser para, em primeiro, lugar estabelecer qual será o conceito deste museu. Isto tem que ser feito o mais rápido possível porque nós temos menos de 2 anos. A idéia é dar um pontapé inicial, mas que seja irreversível para que este museu seja realizado.

Afropress   Você esta dizendo então que fica à frente da Fundação Palmares como presidente durante dois anos?

HC – Sim, porque o fim do Governo é 2014. Eu não posso pensar em um ano, em janeiro de 2015. O que nos resta, de fato, são estes um ano e dez meses. O tempo é curto e nós temos muito trabalho pela frente para tocarmos este museu.

Afropress:  Qual a importância deste museu? E por que ele será localizado em Brasilia?

HC – Primeiro, a importância deste museu, por exemplo, é que eu, particularmente, não conheço nenhum museu que conte, de fato, a escravidão em solo brasileiro. Sua importância já parte disto. E contar o fato, não torná-lo artístico. Contar o fato como está no Museu do Holocausto, em Washington. Ali conta-se o fato de verdade. É isto. E claro, há outras  coisas importantes. A presença do negro no solo brasileiro, a culinária, vestimenta, samba, o corpo, a música etc. Isto de alguma forma ajuda a contar a história. Agora, por que Brasilia?. Por que é interessante Brasilia? Está perto do poder, entendeu? O museu afro-americano que está sendo construido em Washington está praticamente do lado da Casa Branca. E nós estamos ali muito perto do Congresso, muito perto do Palácio do Planalto. Ficaria ali no Lago Norte. Isto foi na época quando o Mandela esteve no Brasil. A pedra fundamental foi lançada por ele. Nada foi construido. Acabou-se perdendo o terreno. A Ministra Marta conseguiu reaver o terreno e a gente vai conseguir colocar este museu para frente.

Afropress – Fale um pouco do Hilton Cobra. Quem é Hilton Cobra?

HC –  Ator. Essencialmente ator. Tudo que eu faço na minha vida parte do meu lado ator. De fato, na Palmares eu só tenho oito dias uteis. Tive que viajar com a Marta. Estou cheio de idéias. Eu quero fazer o melhor possível dentro da Palmares. Uma das coisas que eu acho importante é esta  criação do museu, e a melhoria na qualidade do trabalho da Palmares. Estou lá, trabalho numa área que exige profissionalismo, que é a área de arte, do teatro. Eu já fui gestor por oito anos no Centro Cultural José Bonifácio (Rio de Janeiro).  Nós temos que profissionalizar a Fundação Palmares, detectar tudo o que foi feito nestes 25 anos de Palmares, tocar projetos antigos, como este próprio museu que é uma idéia antiga. E tantas outras coisas que os antecessores fizeram. Captar isto, prospectar isto, e tornar muito mais amplo para todo mundo.

Aumentar aquele  orçamento. Eu tenho dito: a agenda da arte da cultura negra está no travesseiro da ministra Marta. Vamos entrar, vamos fazer. Eu estou aqui para fazer. Com o curto tempo que eu tenho, certeza mais que absoluta de que eu tenho aquela equipe junto comigo para tocar o que tem que ser tocado.

Este 2013, você sabe, que é importante – 10 anos da Lei 10.639, a Década Internacional dos Povos Afrodescendentes, 25 anos da Fundação Palmares, o inicio da gestão Hilton Cobra.  Enfim, estou entrando ali querendo fazer o melhor possível para que esta Fundação possa, de fato, atender as demandas da arte e da cultura negra no Brasil.

Afropress – Você acredita que  o problema do racismo brasileiro é uma pedra para o não desenvolvimento destes projetos que você acabou de citar?

HC –  Se é uma pedra, a gente tem que dinamitá-la, entendeu? Esta pedra está comecando a ser dinamitada. Agora precisa realmente que a gente negra brasileira que representa 52%, entendeu? Vá junto, venha junto, cobre as coisas, entendeu? Para  que junto a gente possa realizar. Se tem pedra nesse caminho tem que ser dinamitada. Dinamitar com trabalho. Dinamitar com força, entendeu?

Afropres  Qual é a opinião  Hilton Cobra sobre a SEPPIR?

HC –  A SEPPIR? Ah, outra coisa que eu esqueci – 10 anos de SEPPIR. Não quero fazer crítica alguma a negócio de antecessor. A ministra Luiza Bairros é minha amiga por mais de 30 anos. Quero dizer, e pela primeira vez,(eu não queria dizer, mas você me forçou), pela primeira vez a SEPPIR e a Palmares trabalharão em parceria plena e de fato. O que é que tem na Palmares? O que é que tem na Palmares que é social, que é de prerrogativa da SEPPIR tem que ser discutido. A SEPPIR tem que realizar. O que há de cultura, que é prerrogativa da Fundação Palmares, aí a Fundacao Palmares é que tem que tocar. Isto tudo se torna pleno, é parceira.

Afropress – Como a Fundação Palmares pode atingir a população negra? Qual é o plano? Como você vê a Fundação Palmares realmente atingindo a população, passando as informações e fazendo com que as pessoas saibam o que é a Fundação Palmares?

HC – Sim, Como? Para isso, primeiro, precisa trabalhar a estrutura daquela Fundação. Profissionalizar aquela Fundação. Tentar, por todos os meios possíveis ampliar aquele orçamento. Creio que aí é um passo absolutamente importante. As demandas estão chegando. Temos que atingir o Brasil todo. É com trabalho que a gente vai atingir isto. Com perseverança. Não quero nem dizer com luta. Não quero luta. Eu quero trabalho, entendeu? Eu não luto, eu trabalho. E aí, eu acho que alguns detalhes, entrar em rede, entendeu? Tudo isto tem de ser feito num programa desta pedra que já esta instituida, entendeu? A gente tá crescendo durante esta década. Aproximar a Palmares das comunidades quilombolas, de fato. Levar a cultura para as comunidades quilombolas. Por enquanto nós estamos administrando conflitos. É de interesse nosso que se resolvam os problemas das comunidades quilombolas em todos aspectos. Embora as Palmares não seja responsável por titulações etc. ela é responsável pela certificação. E apoio jurídico quando necessário. Botar cultura ali dentro. Ver quais são as problemáticas destas comunidades tradicionais, terreiros religiosos, entendeu? O que a gente pode ajudar. Nós temos que começar a separar arte e cultura. Arte é uma coisa, cultura é outra. A arte existe porque existe a cultura. Os artistas bebem na cultura para poderem transformar seus trabalhos em arte.

Esta questão dos editais, que foram lançados no dia 20 de Novembro, que foi uma iniciativa da ministra Marta, mas é bom dizer que durante anos e anos nós estamos lutando para que empresas brasileiras, e os próprios órgãos federais, estaduais e municipais que eles soltem as verbas para que os artistas possam fazer seus programas.

A sua arte, sua dança, seu espetáculo, seu teatro, sua música, seu cinema, suas artes plásticas etc. Então, nesse sentido há uma porta aberta para estas empresas. Tem que ser algo irreversível. Não pode a empresa dá um dinheiro hoje e depois amanhã não dá. Tem que ser irreversível. Então vamos aproveitar esta década para poder aumentar as verbas artísticas. Estou louco para ver a exposição do Basquiat (Jean-Michel Basquiat, na galeria Gogosian). Você ja viu? Quero sair daqui com o Basquiat na minha cabeça, na minha alma.

Afropress: O que você está levando  para o Brasil das suas visitas aos museus norte-americanos?

HC – A experiência deles. Tem muita gente com muita experiência em museologia no Brasil. A ministra chegou. Vou ter que terminar com você. Mas há nomes que vocês conhecem que serão chamados a conversar, a opinar. A idéia é não fazer um negócio tão fechado. É o Brasil entrando.

Afropress: Faça as suas considerações para os leitores da Afropress.

HC – É a seguinte:  ajude sim, contribua sim, para que a Palmares possa se profissionalizar, para ela crescer para atender estas demandas nossas.

Afropress: Em nome da Afropress eu agradeço.

HC – Obrigado.

Edson Cadette