S. Paulo – Com a aprovação de documento com compromissos de cooperação entre o Brasil e países africanos terminou ontem, sexta-feira, 14/10, no Sesc, Vila Mariana, o “Encontro Internacional África-Brasil Igualdade Racial: um desafio para a mídia”, iniciativa do Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de S. Paulo, SESC-SP e Instituto Internacional de Jornalismo e Comunicação de Genebra, Suíça.
Durante três dias, 25 convidados de 16 países africanos e 50 especialistas brasileiros debateram para cerca de 600 inscritos de todo o país, em mesas redondas e painéis, temas relacionados a Comunicação, Cinema, Rádio e Mídia em geral e trocaram experiências sobre formas de cooperação para a promoção da igualdade racial.
Durante o evento foram realizadas oficinas de cobertura jornalística multimidiática por jovens que participam de projetos, capacitados e coordenados pelo NCE – Núcleo de Comunicação e Educação da ECA/USP e pelo Núcleo de Educação do Museu Afro-Brasil, entre os quais alunos das Escolas Abrahão de Moraes e Carlos Pasquale, Colégio São Luis, e integrantes do projeto Educomrádio.centro-oeste, de Mato Grosso. Também participaram jovens dos programas multimidiáticos da FUNDHAS, de São José dos Campos, e alunos do programa de educomunicação do sistema de ensino da Prefeitura de Francisco Morato, SP.
Os estudantes produziram materiais em vários suportes midiáticos, especialmente a linguagem radiofônica e o uso do texto digital, divulgando-os através dos sites do SESC, do NCE e do Colégio São Luís e abriram um diálogo sobre o tema com adolescentes e jovens de outros lugares do Brasil e do mundo através da web-rádio. O acesso a esta produção é possível nos sites www.usp.br/nce e www.saoluis.org e www.sescsp.org.br/africabrasil.
No período da manhã do último dia do Encontro, o presidente da Fundação Palmares, Ubiratan Araújo, Mônica Oliveira, do Centro Nordestino de Animação Popular (CENAP) e diretora regional da ABONG, Luis Carlos dos Santos, do Museu Afro Brasil e Dojival Vieira, jornalista responsável pela Afropress, debateram o tema “Políticas de Ações Afirmativas”, tendo como moderador o professor Ismar de Oliveira Soares, do Instituto Internacional de Jornalismo e Comunicação de Genebra e Coordenador Geral do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.
O presidente da Fundação Palmares, Ubiratan Castro definiu as políticas afirmativas no Brasil, como uma resposta a situação de desigualdade e acrescentou que são instrumentos que se justificam pela situação de diferença em que vive cada grupo. “O racismo definiu e continua definindo o lugar das pessoas na sociedade”, afirmou. Ubiratan lembrou que tais políticas fazem parte da tradição brasileira, porém, que são estranhadas apenas quando se trata de corrigir as distorções que historicamente afetam a população negra.
Mônica Oliveira lembrou que o racismo é estruturante da desigualdade social brasileira e que as ações afirmativas constituem uma resposta para enfrentar o problema. Já Luis Carlos, recordou a lenda de Tarzan e personagens como o Fantasma para apontar como, ao longo do tempo, a elite branca racista foi construindo no imaginário popular uma imagem depreciada dos negros. Ele denunciou a situação em que se encontra o Museu Afro Brasil que, inaugurado no final da gestão passada, enfrenta dificuldades por falta de recursos na atual gestão.
Dojival, que representou a professora Elisa Lucas, presidente do Conselho da Comunidade Negra do Estado de S. Paulo, falou da experiência da Afropress e lembrou que a grande Imprensa continua ignorando a existência da questão racial no Brasil. “Para a Mídia nós continuamos invisíveis. Jornais como a Folha de S. Paulo e o Globo, que se dizem plurais falam das cotas e das ações afirmativas para combatê-las sob o argumento da defesa da meritocracia”, afirmou.
No período da tarde, a última Mesa Redonda debateu Propostas de Cooperação entre Brasil e África levando em consideração que, apesar dos vínculos culturais e históricos que os unem, o Brasil e a África inserem-se em uma ordem comunicativa que, ainda hoje, privilegia as relações entre o Norte/Sul (metrópoles X ex-colônias), mantendo em segundo plano as mútuas relações de solidariedade e cooperação.
Participaram da Mesa Munguele Kiyungu Jean Baptiste, Congo, Presidente da Associação Família AMANI (“Paz”), entidade que reúne os imigrantes africanos em São Paulo, o Ministro Fernando Jacques de Magalhães Pimenta, Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) e Douglas Martins de Souza, Secretário Adjunto da SEPPIR – Secretaria Especial de Promoção de Políticas de Igualdade Racial.

Da Redacao