S. Paulo – Mais de 106 mil índios freqüentam escolas e creches nas áreas urbanas do país, segundo dados do Censo Demográfico 2000. Esse grupo convive diariamente com o desrespeito e a ignorância de um sistema educacional que não forma professores para abordar o papel do indígena na atual sociedade brasileira. É para essa questão que o coordenador da Pastoral Indigenista em São Paulo, Benedito Prezia, chama a atenção.
Autor de vários livros paradidáticos sobre história indígena, Prezia lembra que a escola percebe a existência do índio apenas na data oficial. “A questão indígena é refém, aqui no Brasil, na escola, do dia 19 de abril.” Segundo ele, isso decorre do despreparo na capacitação de educadores e serve de reforço para conceitos ultrapassados e estereótipos. “A questão ficou no século XIX, no índio do José de Alencar.”
Para os índios moradores dos grandes centros urbanos preservar a identidade cultural nesse ambiente é um desafio. “Alguns indígenas, quando vão à escola, ouvem que não são indígenas” relata Prezia. A estratégia dos índios urbanos, neste caso, é elaborar trabalhos educacionais coordenados por eles mesmos.
Mobilização
Exemplos bem sucedidos dessa iniciativa são os Centros de Educação e Cultura Indígena (CECI) das três aldeias Guarani existentes na grande São Paulo. Construídos em 2004, os CECIs de Tekoa Pyaú, no Jaraguá e Krukutu e Tenonde Porá, em Parelheiros, são espaços de educação e cultura indígena, cujo propósito é fortalecer as raízes e a autonomia do povo Guarani.
Frutos da mobilização das lideranças junto à Secretaria Municipal de Educação, os CECIs representam significativa conquista dos indígenas urbanos. “A questão indígena vai muito além da cultural. Deve ter organização política.” Pondera Prezia. Além de atividades culturais abertas para índios e não-índios, os centros abrigam curso de alfabetização de adultos, formação de professores indígenas e escola de educação infantil, com aulas no idioma Guarani. Administrados pelos próprios indígenas, os CECIs recebem suporte técnico e financeiro da prefeitura.
Para Jovelino, um dos monitores do CECI Jaraguá, os centros representam possível resposta para uma inquietação recorrente dos indígenas moradores das grandes cidades. “De que forma fazer as crianças verem nossa cultura?”

Da Redacao