Rio – A designação de “Acarajé” pela Polícia Federal para a operação que prendeu João Santana, o marqueteiro das campanhas do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff, está provocando o protesto de entidades negras para quem o nome da operação é “um total desrespeito religioso a um elemento sagrado do Candomblé, bem como a toda a tradição e história dessa religião no Brasil”.

“Afirmamos que Orixá e o povo de santo nada tem com a roubalheira que assola o país. O que repudiamos é ver nossa religiosidade vinculada a uma operação para prender bandidos. Isso, para nós e toda nossa comunidade religiosa, é inaceitável”, reagiu o jornalista Márcio Alexandre Martins Gualberto, coordenador nacional do Coletivo de Entidades Negras (CEN).

A 23ª fase da Operação Lava Jato da PF foi desencadeada na segunda-feira (23/02) e nela foram presos por determinação do juiz Sergio Moro, além de Santana (foto), sua mulher, Mônica. A prisão do marqueteiro é vista como um golpe duríssimo no PT.

O marqueteiro – suspeito de receber US$ 7,5 bilhões em contas ocultas no exterior, que teriam sido depositados pela Odebrecht com recursos provenientes da corrupção na Petrobrás – não apenas foi o responsável pela campanha da presidente, como é tido como um dos seus principais conselheiros, uma espécie de "ministro sem pasta".

Na Nota divulgada pelo Coletivo de Entidades Negras, seus dirigentes dizem que “o acarajé é alimento sagrado para as pessoas que, em todo o país cultuam os Orixás”. “Há pouco tempo, na Bahia, o acarajé foi objeto de disputa jurídica entre o povo de santo e os evangélico-pentecostais que queriam rebatizá-lo de bolinho de Jesus para, assim, poder comercializá-lo. O povo de santo venceu a pendenga apresentando a sacralidade do alimento que é intimamente relacionado à Orixá Oya”, afirma Martins Gualberto.

O dirigente enfatizou que é inaceitável “ver nossa religiosidade vinculada a uma operação para prender bandidos”.

Veja, na íntegra, a Nota do Coletivo de Entidades Negras (CEN)

NOTA DE REPÚDIO AO NOME "OPERAÇÃO ACARAJÉ" DA POLÍCIA FEDERAL

O Coletivo de Entidades Negras (CEN), organização nacional do Movimento Negro que tem, entre outros temas, a defesa das religiões de matrizes africanas, vem a público apresentar seus mais veementes protestos e repúdio à operação da Polícia Federal batizada de Operação Acarajé. Nada justifica a escolha deste nome e exigimos sua imediata alteração.

O acarajé é alimento sagrado para as pessoas que, em todo o país cultuam os Orixás. Há pouco tempo, na Bahia, o acarajé foi objeto de disputa jurídica entre o povo de santo e os evangélico-pentecostais que queriam rebatizá-lo de bolinho de Jesus para, assim, poder comercializá-lo.

O povo de santo venceu a pendenga apresentando a sacralidade do alimento que é intimamente relacionado à Orixá Oya. Nosso repúdio vem no sentido do total desrespeito religioso a um elemento sagrado do Candomblé, desrespeitando assim, de forma acintosa, toda a tradição e história dessa religião no Brasil.

Afirmamos que Orixá e o povo de santo nada tem com a roubalheira que assola o país. O que repudiamos é ver nossa religiosidade vinculada a uma operação para prender bandidos. Isso, para nós e toda nossa comunidade religiosa, é inaceitável.

Coordenação Nacional do CEN

Da Redacao