A luta dos negros nos Estados Unidos, nos anos 1950 e 1960, que deu origem a toda uma revolta social e política explosiva, que culminou com as mudanças jurídicas e constitucionais de direitos civis, também foi uma luta contra a imagem do negro no cinema e na televisão norte-americana. Quem teve a oportunidade de assistir ao filme “Bambuzi”, de Spike Lee, sabe do que estou falando. Ali está bem colocado como o negro e a sua imagem eram postos no espectro de domínio branco no audiovisual e o menosprezo ideológico e racista a uma grande parcela dos fundadores da sociedade americana. Isso sem contar os índios e suas sagas negativas em películas, cujos heróis eram os desbravadores do velho oeste que se perpetuaram nas interpretações de John Wayne em Hollywood e nas histórias distorcidas de Buffallo Bill e do General Custer e a Sétima Cavalaria, só para ficarmos com mais famosos.
A máquina Global que domina o audiovisual do Brasil faz a mesma coisa com os negros/as brasileiros/as. É a nossa “hollywood” abacaxi, que perpetua o domínio racial e de classe e que distorce a História do país de uma maneira vergonhosa e que projeta a imagem dos negros/as de uma forma servil e ideologicamente comprometida com a demência racista que vigora no país. Estamos já cansados/as disso. Por isso me causa preocupação que alguns militantes negros sugerem que a ação iniciada por Alzira Rufino, pode beirar a censura contra uma “obra de arte” como a minissérie JK. Que é isso? É o medo de enfrentar a tal máquina global e seus “não sei quantos” advogados e estruturas? Que é isso?
Como disse anteriormente, existe uma diferença entre censura e reivindicação pelos direitos civis de setores oprimidos de uma sociedade desigual como a nossa. A imagem da mulher negra brasileira, digna e bem colocada, vale mais do que qualquer minissérie ou filme racista. E qualquer ação política perpetrada contra o racismo, que nos massacra cotidianamente no Brasil, seja de quem for, é a lógica mais evidente do nosso movimento. E que a cada dia deverá aumentar de tom e exigências pela dignidade da nossa imagem e da nossa história e presença no país. Chega de conchavos com quem quer que seja.
Como bem diria Mãe Estella de Oxossi, do Axé Apo Afonjá: “Nossa hora é agora!”. Nossas imagens estão em jogo. E isso não é censurar, pois não somos a ditadura. Nós sofremos é com as ditaduras audiovisuais dominantes no país, seja no cinema, televisão, jornais, teatro, etc. E a TV Globo é o espectro mais evidente desse racismo e exclusivismo racial audiovisual.

Adauto de Souza Santos (Ras Adauto)