Essa supraministra chama-se Maria Antónia Barreto, professora do Instituto Politécnico de Leiria e, pelo que pude descobrir – pois eu era naturalmente uma perfeita ignorante da situação para não saber isso! -, é uma profundíssima conhecedora da problemática da Educação nesses territórios que são ex-colónias de Portugal.
Mais conhecedora, naturalmente, do que os inúmeros ineptos ministros desses territórios nesses 34 anos pois esse conhecimento terá começado em 1978, como se ficou a saber. Eu explico o contexto dessa inusitada revelação.
Soube do lançamento de um estudo intitulado Entre o SABER e o FAZER: A Educação na Cooperação Portuguesa Para o Desenvolvimento, realizado por Patrícia Magalhães Ferreira, do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI), e promovido pela Coligação Portuguesa da Campanha Global pela Educação, com o apoio do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD).
Como o tema me interessava imenso – sobretudo na sua associação Educação/ Cooperação, embora me interessasse mais o binómio Educação/Intercâmbio, arranjei tempo para ir. E fiz bem: a autora foi clara na apresentação dos objectivos a que se propunha e das metas atingidas e certeira nas observações sobre dificuldades, desafios e êxitos e na projecção do futuro – que mais tarde a comentadora, a tal supraministra, consideraria utopia… Mas isso não é da minha conta.
Veio, pois, a seguir o comentário. E quando eu esperava ouvir comentários ao estudo ou sobre a cooperação portuguesa no âmbito da educação, a comentadora começou a discorrer sobre o que deveriam ser os propósitos da educação nos cinco países, as razões das dificuldades da Cooperação portuguesa no terreno (sempre com a melhor da intenções), o que está mal e o que deve ser feito, as dificuldades dos interlocutores locais (pois então?) a contrastarem com o empenho e a vontade dos jovens portugueses recém-saídos da universidade e sem experiência nenhuma (o reconhecimento dessa lacuna nem sequer é meu, é da própria, o que faz elevar ainda mais o trabalho desses novos e inexperientes cooperantes), chegando ao ponto de afirmar a necessidade, nesses países do “reforço na supervisão do sistema” (o que isto quer dizer, ou quem faria essa supervisão nem quis pesquisar para não ter de ouvir o que não quero ouvir).
Mas fiquei a saber que nesses países – ex-colónias de Portugal, repito -, falta, na cooperação, supervisão do sistema! O comentário vai mais longe ao afirmar, obviamente sem qualquer intenção de ofender os africanos presentes (conforme se adiantou a comentadora) que dá a impressão de que naqueles gabinetes (do Ministério da Educação, entenda-se) eles não sabem bem o que querem, dá a impressão que se opta pelo projecto conveniente, enfim, percebem?
Eu não percebi. O que percebi foi um profundo desrespeito pelos países – que obviamente têm vindo a cometer muitos erros na Educação e em outros sectores – mas que dito em tais termos por alguém com responsabilidades representativas (na medida em que as deslocações dessa senhora se fizeram ou se fazem no âmbito da Cooperação Portuguesa), para além revelar um ranço preconceituoso, revela ainda a incapacidade de uma relação horizontal com os agentes dos novos países, mesmo que tecnicamente menos capacitados.
É caso para se perguntar: quem pensa essa senhora que é? Supervisora dos ministros de Educação dos Cinco?!
RDP-África, 01 de Março de 2012
* O título original do artigo é “Entre a cooperação e a solidariedade: o paternalismo”.

Inocência Mata