Marina é evangélica (membro da igreja Assembléia de Deus), mulher e negra. No entanto, o que marca a figura de Marina é sua fragilidade física, seu jeito afável e, ao mesmo tempo, sua firmeza em defender suas convicções.
As convicções de Marina, no entanto, são firmes quando se tratam da defesa do meio ambiente. De resto, vemos uma marina claudicante. Quando perguntada sobre aborto ela diz que quem deve decidir é um plesbiscito; quando provocada sobre as cotas, vemos uma defesa evasiva; quando confrontada com a questão da homossexualidade, ela prefere se afastar, como foi o caso em Minas, quando recusou-se sequer a segurar a bandeira do Movimento LGBT.
Marina não tem grandes chances de se eleger. Mas com seus 12% de intenções de voto ela dará ao PV uma dimensão que este partido, em mais de 30 anos de existência, nunca alcançou no Brasil.
Com todos os defeitos e qualidades, sem dúvida alguma é um grande avanço que o PV dê legenda a Marina e banque sua candidatura à Presidência da República. Poderiamos dizer que o PV é um partido de vanguarda onde temas além do ambientalismo têm o mesmo tratamento e que a questão étnico-racial (tão próxima aos temas do meio-ambiente, do desenvolvimento sustentável entre outros) ganharia o mesmo status, mas não é isso que vemos.
O mesmo PV que festeja Marina se nega peremptoriamente a dar legenda para que João Jorge (fundador do Olodum), seja candidato ao Senado pela Bahia. Segundo informações que nos chegam, João, que tem muito mais visibilidade e chances reais, está sendo preterido por um político conservador que em tudo se diferencia dos ideiais verdes que tanto encantam a classe média Brasil afora. A pergunta é: por que o PV não quer João Jorge candidato?
A resposta talvez resida no fato de que João Jorge, ao contrário de Marina, represente um projeto político do Movimento Negro, ao passo que Marina, quando muito, representa um projeto político do movimento ambiental. E aí um setor não está nem um pouco disposto a abrir mão para outro.
A simples possibilidade de candidatura de João Jorge não só unifica o Movimento Negro baiano e anima o Movimento Negro nacional, como também traz para 2010 o cenário eleitoral de 2012, colocando-o como um nome forte para disputar a prefeitura soteropolitana e, talvez, pela primeira vez em 510 anos fazer com que Salvador tenha um prefeito negro eleito pelo povo. E esta possibilidade assusta as elites negras e verdes da Bahia e do Brasil como um todo.
Todos os partidos brasileiros hoje têm negros em suas fileiras. Alguns com mais ou menos destaque. Mas, efetivamente, poucos são aqueles e aquelas que, de fato, alinham-se com a agenda do Movimento Negro. E para aqueles e aquelas que torcem o nariz para o Movimento Negro é sempre importante dizer que este movimento é exitoso, vitorioso, uma vez que é ele quem coloca a questão étnico-racial como agenda política em nosso país, seja através da discussão das cotas, da intolerância religiosa, da cultura, da estética entre outros.
Portanto, não basta, como quer Marina e seus assessores, se dizer negra, é necessário também que se idenfique com esta agenda negra e isso João faz há quase 40 anos, desde que fundou o Olodum.
A agenda do Movimento Negro é uma agenda rebelde. Ela rompe com as convenções da sociedade brasileira e tira e o negro e a negra “do seu lugar”. Saímos do cantinho para disputar a liderança, e isto é inaceitável para aqueles que se acostumaram a ver os negros apenas como apoio e quando não servem mais são descartados, como roupa surrada.
Está aí o triste exemplo da ex-senadora Benedita da Silva que de tanto se colocar servil aos quadros dirigentes petistas foi agora relegada a um segundo plano tendo, praticamente, sua carreira política destruída por aqueles a quem ela tantas vezes disse sim senhor.
O que ocorre hoje na Bahia é sintomatico para todos nós que operamos a política e não podemos, portanto, tratar o caso do PV baiano como algo isolado. O que acontecer em Salvador com relação à candidatura do João Jorge repercutirá no país inteiro e o PV em algum momento será chamado a prestar contas de sua decisão.
Afinal, como bem lembra Januário Garcia sobre as lideranças verdes: “esqueceram rapidamente que quando o Gabeira, Sirkis, Minc e outros verdes fundaram o PV, a primeira coisa que fizeram foi se alinhar com o MN no Rio de Janeiro para desfraldar suas bandeiras e colocar seus
discursos nas nossas manifestações para serem conhecidos, chegaram com aquele papo de que morando fora do Brasil puderam perceber o racismo, e hoje nos tratam assim. Agora eu sinto na pele aquela historia do indio que disse: “quando eles chegaram nós tinhamos a terra e eles
tinham a Bíblia, hoje eles têm a terra e nós ficamos com a Bíblia.”
*O título original do artigo é “Entre a rebeldia e a servidão – que tipo de negro interessa aos partidos políticos?”

Marcio Alexandre M. Gualberto