Chegados aqui para o trabalho escravo, os africanos eram classificados não por etnias e sim por regiões de embarque ou apresamento, o que já representava uma divisão, com indivíduos pertencentes a grupos étnicos diversificadas e muitas vezes antagônicas recebendo denominações arbitrários, como “minas”, “benguelas”, “ambacas” etc., em detrimento de suas orgulhosas tradições clânicas e ancestrais, todos misturados no mesmo balaio supostamente distintivo, apenas pela coincidência do porto de embarque.
Depois, eram categorizados por local de nascimento. Os nascidos do outro lado do Atlântico eram naturalmente africanos, “de nação”, sendo não raro inferiorizados em relação aos “crioulos”, nascidos em solo americano e, assim, supostamente mais afeitos ao trabalho, por razões ecológicas, de aclimatação. Dividia-se também a massa escrava em “ladinos” e “boçais”, os primeiros, em geral crioulos, já dominando de uma certa forma, a língua do colonizador, enquanto que os outros, como suposto sintoma de apoucamento mental, permaneciam falando o que se considerava algaravias, caçanjes, “dialetos” – como aliás, até hoje, popularmente, no Brasil se adjetiva qualquer língua africana, mesmo as veiculares, de larga circulação e com milhões de falantes, como o suaíle e o hauçá.
Numa outra ponta do novelo e estendendo sobre o assunto o amplo lençol das relações jurídicas, distinguiam-se também as vítimas diretas ou indiretas da escravidão em escravos, libertos e livres – sem que a condição de liberto ou livre representasse muita coisa em termos de direitos de cidadania, haja vista o caso dos affranchis, nas colônias francesas, e dos apprentices, nas colônias inglesas, submetidos a uma espécie de “estágio” até serem considerados “aptos para a liberdade”.
Uma última categorização era feita a partir da cor da pele, o que distinguia, no Brasil, os “pretos”, dos “mulatos” e dos “cabras”. E esta foi a classificação, baseada unicamente na fenotipia e basicamente na cor da pele – num momento em que o Brasil procurava a todo custo, principalmente na aparência externa, desafricanizar-se – que o escravismo deixou como herança à decantada democracia racial brasileira.
A antagonização entre “pretos” e “pardos” já tinha sido utilizada com relativo sucesso pelos franceses na Revolução Haitiana, na virada para o século 19. E a desafricanização da população não branca era o grande objetivo dessa estratégia.
Inculcando na mente dos indivíduos a falsa premissa de que todo africano é, em princípio, um ser inferior, o racismo divide e domina. E foi isso que fez uma certa a ciência negando a as origens núbias (negras) do Egito faraônico ou não acreditando nelas; ou estudando a África só partir do advento do tráfico atlântico e não de sua rica Antigüidade e de sua pujante Idade Média; ou ocultando a influente presença negra da península Ibérica desde o século 15, o que repercutiu fortemente, até mesmo do ponto de vista biológico, na constituição da população brasileira, caribenha e centro-sulamericana.
Além disso, quando se esconde a ascendência africana de um grande personagem do passado, a pretexto de “limpar” sua biografia e preservá-lo da pecha de inferior, como ainda se faz no Brasil, sonega-se um tipo de informação que pode ser muito útil à emocionalidade e à construção da auto-estima do indivíduo afro-brasileiro, principalmente a daquele ainda em formação.
Foi por isso que, na prática diária, para tornar visível a importante participação da matriz africana na formação da sociedade brasileira e na civilização universal, e para constituir um corpo coeso na luta pelos direitos civis dos descendentes de africanos, o movimento social dos negros, no Brasil, cunhou o termo “afro-descendente”, englobando “pretos”, “pardos” e outras designações para as pessoas outrora chamadas “de cor”, numa única adjetivação: “negro”. Assim, nós , por exemplo, em nosso trabalho, definimos como “negro” todo descendente de negro-africanos, em qualquer grau de mestiçagem, desde que essa origem possa ser identificada historicamente e, no caso de pessoas vivas, seja reconhecida ou auto-declarada pela pessoa objeto da classificação, como é o nosso caso particular.
Pensando e agindo assim, nós, embora de pele menos pigmentada que muitos dos nossos familiares (mesmo porque o tempo, ironicamente, se encarrega de clarear os mulatos: de Machado de Assis a Dorival Caymmi, passando por Sylvio Caldas e muitos outros ), sentimo-nos profundamente chocados e ofendidos com a afirmação do jornalista Ali Kamel, veiculada no fim de semana de 19-20 de agosto, segundo a qual “os negros usam os pardos para engordar os números da miséria mas depois os afastam dos benefícios”.
Mais uma vez o jovem jornalista e agora escritor volta ao passado mais obscurantista para justificar seus argumentos supostamente modernos. Em sua cruzada contra as tentativas de ações e políticas públicas que estabeleçam a tão sonhada igualdade entre negros e não negros (inclusive descendentes de espontâneos imigrantes levantinos, como ele) no Brasil, Kamel procura jogar os negros de pele mais clara, (por ele derrogatoriamente chamados “pardos”) como nós, contra os mais pigmentados, como alguns de nossos familiares e amigos, militantes da mesma causa. Exatamente como ensinou Maquiavel; como fizeram os europeus na África, do século 15 ao 20. Lamentavelmente.

Nei Lopes