Não questionávamos o direito constitucional da citada senhora à defesa, e sim a postura incoerente e contraditória do seu advogado, que por décadas portou-se como autoridade e liderança das comunidades negras de Ribeirão Preto e, de repente, numa atitude vil e oportunista, típica dos capitães-do-mato de ontem e de hoje, voltou-se contra os seus, renegando a história de luta do povo negro e aliando-se aos “senhores” e ao sistema racista.
Na época escrevemos: “Como o Doutor Bento eles (os capitães-do-mato) são muitos, e estão espalhados pelo país, vorazes como corvos, indiferentes ao drama vivido por seu povo, sem os quais jamais teriam chegado onde estão. Eles militaram no Movimento Negro, cantaram a sua raça, assumiram todo o seu passado, e por isso foram reconhecidos e projetaram-se como intelectuais e/ou profissionais negros. Hoje, fica explícito que seu único objetivo era o êxito individual. Colocaram-se ao lado do dominador, servilmente e cinicamente, transformando-se então, com conhecimento de causa, no mais eficiente dos cúmplices do sistema racista. Como os capitães-do-mato, que em busca das migalhas de reconhecimento que os senhores de escravos lhes dariam por sua competência em capturar os heróis da liberdade, negam os seus ancestrais, a sua herança histórica e o seu povo, para enveredar-se na lucrativa missão dos traidores. Com isso, insultam a dignidade dos afro-brasileiros de todo o país”.
Seis anos depois, ei-lo de volta, mais uma vez na trincheira dos “senhores” e na defesa ferrenha do sistema racista. Em entrevistas a um dos mais importantes veículos de comunicação de Ribeirão Preto e região, o Jornal “A Cidade”, nos dias 18 e 25 de Novembro de 2007, voltou a posicionar-se contra os interesses do povo negro, condenando os parcos avanços conquistados com muita luta nos últimos anos.
Sendo ele um negro que contrariou as estatísticas e rompeu com o bloqueio do sistema racista, tornando-se socialmente uma exceção, tem a pachorra de colocar-se como se fosse a regra. Covardemente mede a população negra pela régua do racismo à brasileira, que por diferentes mecanismos cerceia os nossos direitos políticos, econômicos, sociais e culturais, mas nega a existência do racismo como instrumento de opressão e dominação, atribuindo nosso lugar de subcidadania na sociedade brasileira à uma suposta “irresponsabilidade” das vítimas.
Perguntado sobre o “dia reservado aos negros”, ignorou a oportunidade de explicitar que todos os dias são dias dos negros, são dias de lutar por um Brasil sem racismo, pelo direito à dignidade, ao trabalho, à saúde e a uma educação de qualidade. Quanto ao justo reconhecimento a Zumbi dos Palmares, primeiro herói negro alçado ao panteão nacional e homenageado com o feriado do dia 20 de novembro em nosso município e em centenas de outros pelo Brasil afora, considerou como “…folguedo, folga. Holiday!”, reproduzindo sem qualquer pudor a idéia de que a secular luta do povo negro neste país não passa de folclore e oportunismo e que a nossa cultura seria apenas alienação e fuga da realidade. Como porta voz do sistema racista, na impossibilidade de barrar os avanços dos Movimentos Negros, tenta ridicularizar e desqualificar nossas práticas políticas, iniciadas desde que nossos primeiros ancestrais foram trazidos para o Brasil na condição de escravos e que garantiram a nossa sobrevivência à escravidão e à opressão racista. Ao ter a oportunidade de denunciar a violência policial que está exterminando os jovens negros nas periferias das cidades, preferiu responsabilizar a vítima por sua própria tragédia, até minimizando a gravidade do problema.
Sobre as “ações alternativas”, ou seriam “ações afirmativas”?, limitou-se a expressar a sua opinião contrária às cotas, essa pequena gota no oceano das políticas reparatórias necessárias para reverter o quadro das desigualdades raciais existentes no país. Ações afirmativas são políticas de reparação, já empreendidas com sucesso em vários países do mundo, com o objetivo de reverter prejuízos construídos historicamente contra uma parcela da população. Ora, que outra parcela da população brasileira foi tão prejudicada quanto os negros na história do país? Arrancados da África, nossos ancestrais construíram o Brasil, produziram o açúcar, o algodão e o café que fizeram a riqueza dos senhores. Construíram os palácios e os templos. Lutaram, se aquilombaram e destruíram o escravismo colonial. Mas a nova ordem estabelecida pelos ex-senhores de escravos manteve a exclusão dos negros. No próximo ano completaremos 120 anos da Abolição, ainda sem direito à plena cidadania.
Este mesmo senhor, Dr. Luiz Carlos Bento, capitão-do-mato declarado, foi homenageado pela Câmara dos Vereadores numa sessão solene realizada no dia 23/11, como “representante da raça negra” (resolução nº 124, de 05/11/2007), recebendo um diploma de honra ao mérito “em reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à comunidade ribeirãopretana”. Nesse caso, não podemos deixar de questionar que parcela da comunidade ribeirãopretana tem sido beneficiada com seus “serviços”. Esse ato demonstra que, para os nossos “criteriosos” vereadores o simples fato de possuir a pele negra é característica suficiente para ser homenageado como representante do povo negro, mesmo que a pessoa em questão se posicione contra os interesses desta população. Esperamos que tenham o mesmo empenho, quando tiverem que aprovar as políticas públicas contra o racismo e para a promoção da igualdade racial em Ribeirão Preto.
*Assinam o texto as seguintes pessoas e entidades:
Centro Cultural Orunmilá
MST
Instituto Memórias Vivas
União das Entidades Carnavalescas de Ribeirão Preto
Escola de Samba Bambas
Escola de Samba Tradição do Ipiranga
Adria Ferreira

Silvany Euclênio