Belo Horizonte – A Escola de Empreendimento Solidário do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (CENARAB), em Belo Horizonte, corre o risco de encerrar suas atividades porque o dinheiro do convênio assinado há quatro meses, não foi repassado pela Casa Civil à Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), a exemplo do que aconteceu com outras emendas parlamentares destinadas à população negra.
O CENARAB reúne sacerdotes e sacerdotisas do candomblé e foi fundado em 1991 para combater a intolerância religiosa e defender o respeito à religiosidade de matriz africana. O convênio, que possibilitaria o início da primeira turma de 150 alunos (a previsão é de 650 alunos durante o ano) foi assinado no dia 20 de dezembro do ano passado.
O dinheiro é fruto de uma emenda de R$ 500 mil, apresentada pelo deputado Virgílio Guimarães, do PT mineiro, e resultado de uma parceria do CENARAB com a Associação Religiosa e Cultural de Cultos Afro-brasileiros Ilê de Keto Axé Alafin odé.
Segundo a coordenadora geral do CENARAB, Celia Gonçalves Souza, a Macota Celinha, caso o dinheiro não seja liberado nos próximos dias, o ano estará perdido e a Escola – que oferece cursos de Introdução à Informática, Educação de Jovens e Adultos (EJA), Roupas e Acessórios Afro, Bordado em Richelieu, História da África, Máscaras e Arte Negra, Economia Solidária e Beleza Negra – terá de encerrar as atividades.
“Não temos como manter a estrutura que hoje dispomos. São dois andares de equipamentos e máquinas. Não posso manter um aluguel sem ter recursos. Tem pessoas que acreditaram e confiaram na gente, emprestando seus nomes, com as quais não podemos faltar. E aí não nos restará muita coisa, somente dizer para nossos alunos que acabou. Na verdade ainda vivemos num país que não são todos os que querem que podem estudar”, afirmou.
Prejuízo
O início das aulas deveria ter acontecido em fevereiro, e de acordo com a coordenadora do CENARAB “a escola é a única no Brasil, voltada para o povo de Santo, a oferecer essa variedade de cursos”.
“Temos 850 famílias cadastradas no Fome Zero (via Terreiros). Temos uma infra estrutura de dois andares, auditório, muitas máquinas, computadores. Estou sendo despejada e não tenho onde guardar as coisas. Ninguém vive de sonho e eu estou encerrando as atividades, pois devo aluguel quatro meses e não tenho como pagar. E o pior: não temos nenhuma resposta oficial nem da SEPPIR, nem da Casa Civil. Ninguém sabe nada, tá todo mundo calado”, acrescentou.
A Escola funciona em um espaço amplo na Rua da Bahia, no centro de Belo Horizonte, e conta com biblioteca afro, sala de vídeo e cozinha. Em novembro foram iniciadas as atividades da primeira turma de Introdução à História da África.
“Nossa idéia era combater o racismo, a intolerância religiosa dando condições das próprias pessoas se defenderem. Hoje reunimos num único espaço condições de dar vários cursos de formação. Escola é só uma forma de denominar nosso espaço, que vem sendo construído coletivamente. É um lugar bonito, onde as pessoas se encontram, trocam experiências, se formam. Mas acima de tudo são elas mesmas se preparando para combater o racismo”, afirmou.
Segundo ela, além dos prejuízos para os alunos, as contas estão vencendo e as despesas com a manutenção da estrutura se acumulam. “Não podemos esperar muito mais não. Os juros são diários, precisamos pagar luz, condomínio e outras coisas mais”, frisa.
Fim de um sonho
Para Macota Celinha (Macota é um título sacerdotal no candomblé), o encerramento das atividades da Escola do CENARAB representará o fim de um sonho de muita gente. “É uma experiência muito rica, as pessoas chegam tímidas, sem muita conversa e sem saber de suas capacidades e possibilidades. Normalmente vem fazer um curso e acabam fazendo vários. Tem pessoas que participam de todas as oficinas, quase moram aqui. Aqui elas podem ler na biblioteca, assistir um filme do Joel Zito, entrar na internet. Tudo novidade para quem nada tem. E aí acabam fazendo a EJA, acabam ainda que timidamente falando que não sabem ler ou escrever corretamente. É muito legal isso, descobrir o prazer do povo de santo com as letras”, contou.
O pioneirismo, segundo ela, tornou o espaço objeto de estudos e teses acadêmicas. “Hoje tem gente fazendo tese de doutorado, cujo objeto de estudo é nossa experiência. Chama a atenção da Academia o fato de tanta gente deixar de frequentar a escola (EJA) perto de suas casas e virem para cá, e de também termos, no debate da pluralidade e da diversidade, alunos evangélicos, católicos e de outras religiões, que optam por estudar e ser alfabetizados com uma proposta de matriz africana. Não escondemos o que somos e nem para o que viemos”, finaliza.
A coordenadora do CENARAB, responsável por recepcionar a então candidata e atual presidente Dilma Rousseff, durante a campanha, no Encontro de Negros e Negras do PT, em Brasília, porém, ainda não perdeu as esperanças que o dinheiro da emenda saia.
“Sou uma mulher do vento e do fogo e eles tudo renovam, e enquanto houver fôlego vou lutar e lutar muito para que isso não aconteça. Aqui em nossa escola 87% do nosso público é de mulheres em busca de liberdade e afirmação social. Nós podemos fazer a diferença. Nós podemos formar homens e mulheres livres, capazes de se juntar as entidades negras para defender nossos direitos”, concluiu.

Da Redacao