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A comunidade negra brasileira viveu momentos de muita expectativa e esperanças em vários Estados, a partir da escolha de nomes oriundos da raça negra nas convenções partidárias, para disputar cargos proporcionais em diversas unidades da Federação ou majoritários. Assim ocorreu no Rio Grande do Sul e no Amapá, nas eleições deste domingo, encerradas no instante em que me aboleto diante do computador, às 19 horas, para acompanhar a abertura das urnas visando terminar a expectativa e ansiedade que me acompanharam nos últimos 90 dias em que observei a distância ou pessoalmente em algumas capitais brasileiras, o trabalho desenvolvido por alguns candidatos (as) da comunidade em busca de uma cadeira no Congresso Nacional.
Durante todo este trimestre em função de observações realizadas por onde transitei não pude deixar de alertar em meus escritos (é só reler), o quanto estava havendo de arrogância durante a campanha, principalmente em São Paulo, aliada à falta de respeito com alguns dos eleitores e cabos eleitorais que procuraram os escritórios políticos dos candidatos, não só da parte deles (as), mas também de “assessores e maçanetas”, que ficaram de salto muito alto com a pretensa convicção de que a eleição já era “macuco no emborná”, me deixando com a triste certeza e o pensamento de que não se podia esperar dessas urnas nada que signifique avanço para a comunidade negra, em termos de representação no parlamento.
A função da imprensa é informar e não direcionar as pessoas a pensarem, como queriam alguns candidatos a cargos públicos, que estava tudo andando as mil maravilhas, se esquecendo de que nomeação para ocupar um cargo é uma coisa, dependente de simpatia ou apadrinhamento, mas buscar um cargo público de representação política, depende única e exclusivamente do eleitor que dá o voto para o candidato e deve ser muito bem respeitado.
Por isto, não deixei de alertar pessoalmente ou via escritos, sobre os rumos errados de algumas campanhas eleitorais voltadas para a nossa comunidade.
O despertamento político da comunidade negra a partir dos anos 60, principalmente em São Paulo, e, posteriormente, com exemplos de ocupação de espaços desde Eduardo de Oliveira, vereador paulistano, Esmeraldo Tarquínio, vereador santista, deputado estadual e prefeito eleito da maior cidade portuária do país, Adalberto Camargo, deputado federal eleito e reeleito ocupando o cargo durante quatro mandatos consecutivos, Theodosina Ribeiro, vereadora paulistana e deputada estadual, que serviu de exemplo para a mulher negra em todo o Brasil, fazendo com que as nossas irmãs abandonassem as cozinhas ou as primárias salas de aulas e descessem para o campo político, teve seu valor histórico que os “acadêmicos e pretensos estudiosos” de hoje teimam em não reconhecer, ao contrário, sendo os primeiros a tentar fazer com que os nossos vultos de diversas áreas de autuação nos últimos 50 anos não sejam lembrados e cultuados, passando a juventude um triste exemplo de falta de respeito, inveja e maledicência, lugar comum dos que não tem a dignidade de procurar ser parceiro dos que possam passar alguma coisa de bom que aprenderam no triste caminho da vida comum.
Já se faz o dia seguinte, segunda-feira 2 de outubro e o final dos resultados das urnas em todo o país vai mostrando que mais uma vez ficaremos atrás da história, perdendo espaços conquistados, nada acrescentando em termos políticos, restando-nos lembrar do pensamento da mulher negra, guerreira e batalhadora vereadora paulistana Claudete Alves: “Em São Paulo nós não temos Movimento Negro. Nós temos negros em movimento”.
E cada um acrescento, movimentando-se com arrogância, tentando pisar no semelhante, para buscar as migalhas que o Poder oferece.
É muito pouco.
Para os arrogantes fica o pensamento de Chico Buarque de Hollanda, traduzido em uma das mais belas letras de fé no futuro:”Apesar de você amanhã há de ser outro dia…”
Que até 2008 haja respeito e humildade para com o seu semelhante, por parte dos que desejam um mandato parlamentar através do voto direto e secreto, dependente da vontade do eleitor.
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QUEM SE ATREVE
Qual dos dois candidatos terá a coragem de abordar durante o período eleitoral do 2º turno, os assuntos que dizem respeito aos interesses específicos da maioria da comunidade negra brasileira?
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O TEMPO PASSOU
Para Guilherme Afif Domingos e sua entourage marketeira fica o lembrete: a ausência do segundo suplente de sua chapa como candidato ao Senado, o negro professor Natanael Miranda, durante o horário político gratuito, fez com que você ficasse mais distante do vitorioso Eduardo Matarazzo.
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RELEMBRANDO
Para os novatos na leitura deste Espaço Político/Anote e Confira, nunca é demais rememorar. Não sou filiado a qualquer partido político e muito menos tenho compromisso com qualquer candidato a cargo eletivo, dependendo a minha sobrevivência dos meus trabalhos profissionais, distantes de qualquer órgão público ou empresa de economia mista.
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O eleitor brasileiro até pode estar na contramão da história política, mas é bom não esquecer que diante da urna, a maioria está de farol aceso, deixando um lembrete para os prepotentes candidatos: sua saída do cenário político eleitoral não deixará a menor saudade.
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Antonio Lúcio