Afropress – O Jornal Folha de S. Paulo manipulou a apresentação da pesquisa Datafolha, pela forma como apresentou o assunto na edição de 23 de julho p. passado?
Wânia– Sim, em minha opinião, sim a FSP manipulou os resultados da enquete na medida em que não mencionou, por exemplo, que ela estava relacionada a uma sondagem de intenção de voto. Para organizações do movimento negro, essas informações são importantes, assim como acredito que sejam importantes aos candidatos aos candidatos, de todos os partidos, saber o que o eleitorado pensa sobre esse assunto. Não incluí-lo em sua matéria não é um tratamento justo à opinião pública nacional.
Afropress – Em que pontos e quais os números que revelam essa manipulação?
Wânia – Entre o grupo de intelectuais contrários às cotas existe uma forte tendência em afirmar que as cotas e a declaração de pertencimento a grupos étnico/raciais levará à divisão da nação brasileira. Muito bem, mas isso não é o que pensa, exatamente, brancos, afro-descendentes, indígenas e população de origem asiática. Para começar, o Instituto Datafolha perguntou essa característica étnico/cultural aos seus entrevistados, esses responderam, e brancos, afro-descendentes, indígenas e de origem asiática responderam favoravelmente às cotas nas universidades e, mais importante, no mercado de trabalho. Neste caso, as cotas em empresas públicas e privadas. Se eles fossem, de fato, contrários ou
crentes na divisão da nação, teriam se manifestado de forma completamente
oposta e isso não aconteceu.
Afropress – O que de fato dizem os números do Datafolha?
Wânia– A investigação do Instituto é ampla e traz informações cruzadas por uma série de características relacionadas à população brasileira. Temos informações sobre como pensam os católicos e os evangélicos, sobre o que pensa os nordestinos e os moradores da região sudeste. Ou seja, essas são informações importantíssimas para a agenda de promoção da população afro-descendente e para o debate por segmento da população. Eu acredito que as pessoas e instituições que querem, realmente, ajudar-nos em um projeto de mudança de mentalidade, e de cultura, devem considerar que esse assunto pertence à população brasileira com todos esses seus recortes. Isso é uma vitória de ativistas e das organizações negras que, a despeito do massacre sob o qual vivem cotidianamente, têm o mérito de levar à sociedade brasileira a reconhecer que algo precisa ser feito em prol dos direitos dessa parcela da população brasileira –
os afro-descendentes. Isso é uma vitória nossa, portanto, devemos ir fundo nos resultados da pesquisa e, por ela, demonstrar que não estamos querendo dividir o país, ao contrário, queremos um país de oportunidades bem distribuídas e justas. Nós fizemos com o nosso sangue, com o sangue de nossos de nossos anscestrais, as fronteiras deste país. Esse país é nosso, também e para valer.
Afropress – O conhecimento dos números da pesquisa explica a súbita mudança de opinião do Presidente a República, uma vez que seu Governo, através de ministros como Tarso Genro e o próprio Fernando Haddad, da Educação, haviam trocado cotas raciais por “cotas sociais’?
Wânia– Eu prefiro não comentar a opinião dos ministros. A opinião deles, neste contexto, não me parece importante. Quanto a declaração do Presidente Lula, esta, de fato, é mais importante ao contexto. A minha hipótese é a de que ele leu ou foi informado sobre os dados mais profundos da pesquisa. Essa é a minha hipótese. Ele disse o que nós temos dito. Ele falou da incrível segregação racial no mercado de trabalho.
Isso é decorrência de nossa baixa inserção nos bancos das universidades públicas e privadas? Sim, mas não só. Gerência de banco, sabe-se, é, também, resultado de processos de capacitação e oportunidades realizadas internamente. Se aos negros é negada essas possibilidades e oportunidades a conclusão óbvia é esta mencionada pelo Presidente. As corporações precisam reciclar as práticas e promover mudanças de padrão e comportamento. Isso também precisa ser feito por instituições públicas. Enfim, o que eu quero também afirmar é que temos, sim, pessoas com habilitação profissional que ficam na porta de entrada das instituições e pessoa que, ultrapassando a porta de entrada, não tem ascensão. Isso é um desperdício para o país. A minha esperança é a de que o Presidente esteja começando a reconhecer isso como um desperdício para o país, que ele
esteja começando a reconhecer que o preconceito a que ele se refere é, no
fundo no fundo, custo – custo social, um passivo absolutamente desnecessário.