O autor, Yedo Ferreira, liderança do Movimento Negro Unificado, do Rio de Janeiro, começa por dividir o mundo e os negros em dois lados: os que estão “em Congresso”, aqueles pertencentes às organizações que lideram as articulações pelo Congresso de Negros e Negras do Brasil, e “os que não estão em Congresso”, ou seja: “os que se colocaram às margens do Congresso”, a quem atribui o grave defeito humano da “soberba e da indiferença”. A indiferença – pontifica o senhor Ferreira – “mais pela falta de compromisso com a Causa da massa negra da população”.
Auto-investido do melhor espírito de novo “Guia genial dos Povos”, e na ânsia incontida por dar lições, a nós outros negros pobres mortais “às margens do Congresso”, ensina: “Mas o orgulho em demasia e a vaidade extremada são, juntos ou separados, os grandes causadores do atraso político por ausência de formação política, com reflexo em visão política limitada e estágio de nível político baixo”.
O senhor Hoxha, ou melhor, Ferreira, claro, não deixa de sair em defesa dos seus discípulos atingidos pela incompreensão, como é o caso do coordenador de sua organização em S. Paulo, o senhor Reginaldo Bispo, na sua desastrada e arrogante idéia de propor a retirada do Estatuto da Igualdade Racial da tramitação por considerar ter o mesmo “perdido o prazo de validade” e que pressionar o Congresso seja “açodado”: “A verdade é que a posição de Reginaldo Bispo – decreta Ferreira – está correta e, sobretudo, coerente quando propõe que devemos solicitar a Câmara Federal a retirada da pauta de votação do Estatuto de Promoção da Igualdade Racial que num dia infeliz brotou dos miolos do senador Paulo Paim”.
E avança no seu ímpeto doutrinador, dedo em riste, acusando os negros e negras que defendem o Estatuto de “defensores desta Lei Áurea do terceiro milênio” de lhes faltar “a diferença que há entre o ser humano e os demais animais na natureza – o raciocínio”.
Por mais que se considere absurdas tais ponderações, o senhor Ferreira, como se pode ver, tem discípulos. É o próprio Bispo, coordenador do MNU em S. Paulo, quem o chama de “camarada e guru”, o que dispensa comentários adicionais. Cada um tem o “guru ou camarada” que escolhe. Ou merece. Nada temos a ver com isso. Não é da nossa conta.
Entretanto, a nós – a quem foi reservado “estar às margens do Congresso” pelo guia genial dos negros brasileiros” – só nos resta tirar as conclusões inevitáveis de todo esse arrazoado delirante e sem nexo:
1- que o processo de falência de um certo estilo de liderança negra que se ampara na muleta de práticas ideológicas condenadas ao museu da história, já não é possível esconder;
2 – que a liderança surgida a partir de 1.978, portanto há quase 30 anos, e que foi durante anos referência para gerações de jovens negros e anti-racistas, já não se sustenta de pé, por absoluta falta do que dizer;
3 – que a falta de sintonia com as necessidades da população negra e do estágio de luta que travamos numa sociedade onde se pratica um tipo de capitalismo dos mais perversos e um racismo dos mais cínicos, por Justiça, Igualdade, Liberdade, e Cidadania, já é visível demais para ser ignorada;
4 – que nenhum Congresso de Negros e Negras, por mais grandiloqüentes que sejam as palavras, tornará possível unidade alguma – muito menos pela via da imposição de quem não tem legitimidade nem delegação para isso. Líderes lideram, não governam por decretos;
5 – que determinadas lideranças prestariam melhor serviço à Causa do Povo Negro, se parassem para escutar o seu próprio silêncio de propostas e se recolhessem ao espaço reservado às homenagens dos que, em algum momento, tiveram algo a dizer na luta por uma sociedade em que – a pretexto do combate às desigualdades – não se caia jamais na tentação de acabar com a supremacia branca para afirmar qualquer outro tipo de supremacia baseada na raça;
6 – que já não é mais possível ignorar que um movimento social não pode nem deve ser caudatário de políticas de Estado e muito menos se pautar pelos humores de governos, sejam quais forem, sob pena de, não apenas rebaixarem os horizontes de suas demandas, como também se sujeitarem a um processo de erosão política e ideológica irreversíveis, como parece ser o caso.
Desnecessário dizer, por óbvio, que um Congresso sob esse tipo de liderança, não apenas não constitui espaço de unidade.
Nós, da Afropress, já alertamos para isso e consideramos que ainda há tempo para que as lideranças mais responsáveis do Movimento Negro Brasileiro – independente de posições político-ideológicas e de partidos – reajam e garantam que o Congresso de Negros e Negras, seja um espaço plural para o debate de idéias, capazes de lançar as bases, por meio do diálogo, da construção de programas mínimos de luta de norte à sul do país. Nossa unidade, como demonstra o Fórum da Igualdade Racial, criado em S. Paulo, pelo Movimento Brasil Afirmativo, Rede Educafro e Instituto do Negro Padre Batista, entre outras entidades, só pode se dar, verdadeiramente, na ação.
Do contrário estamos autorizados a concluir que o centro da preocupação dessa mentalidade “em Congresso” é, simplesmente, a criação de espaços para legitimação de lideranças que nada mais têm a dizer, para que continuem falando por nós, os que estamos às margens” e aprendemos – ainda bem – a não nos pautar por decretos.