Racismo é a ideologia que tem como hipótese geral a idéia de que as populações brancas são biologicamente superiores às populações negras. Originada no século XIX, essa hipótese geral se desdobrou em outras hipóteses especificas, que fizeram referência a alguns outros aspectos, como o intelecto, a moral, o comportamento social e a estética de brancos e negros. As conclusões tiradas dessas “pesquisas” não contrariaram a hipótese geral sobre o racismo, aliás, tiveram-na como norte a qual obrigatoriamente deveriam alcançar.
Em relação à estética, a conclusão a que chegaram é que o modelo de beleza superior é aquele representado por aqueles que possuem o fenótipo branco – cabelos lisos, nariz afilado, pele clara, lábios finos – tendo como modelo de perfeição estética, além das características listadas anteriormente, os cabelos de cor loira e os olhos azuis. Desnecessário dizer que, aqueles que não se encaixavam nesse modelo eram considerados “inferiores esteticamente” ou “feios”.
Do mesmo modo que as idéias racistas sobre a moralidade, a inteligência e o comportamento social dos negros se disseminaram na sociedade – quem nunca ouviu opiniões preconceituosas sobre a baixa capacidade intelectual e a propensão dos negros ao crime? – as idéias sobre a estética do negro não foram exceção, aliás, é uma das discriminações mais explicitas na sociedade brasileira, sociedade essa que faz todo o esforço possível em esconder a realidade das relações raciais brasileiras debaixo do manto do mito da democracia racial.
A preferência por aqueles que possuem os traços fenotípicos brancos é notada em diversos setores da sociedade, tendo como destaque a mídia e o mundo da moda. Dentro desse contexto, aqueles possuidores dos traços fenotípicos de outras populações – amarelos, indígenas e negros, são sub-representados e até mesmo excluídos em favor de uma estética branca, considerada como a “mais bela”.
Um exemplo dessa preferência é o dos programas infantis. Quem não se lembra da Xuxa e de suas Paquitas? Ou da Eliana e Angélica? Nessa onda de apresentadoras, não houve nenhuma negra, no máximo uma branca de cabelos negros – Mara Maravilha. Em uma pesquisa sobre alunos negros dos cursos de pedagogia, da qual fui sujeito de pesquisa, muitas das entrevistas mulheres, no afã de parecer com as paquitas, colocavam uma camisa ou uma blusa na cabeça para emular os longos cabelos loiros das assistentes da apresentadora Xuxa. Caso clássico de violência simbólica contra as nossas crianças, que na falta de modelos negros na televisão – nesse caso, de uma paquita negra – passam por um mecanismo de dupla rejeição: como indivíduos e como negras.
Outro exemplo é o caso das transmissões de futebol. Quando clubes da cidade de São Paulo jogam contra times da Região Sul, ocorre um fenômeno que não vejo quando essas mesmas equipes jogam em outros estados do país: é um elogio ostensivo dos narradores e comentaristas às belas mulheres da Região Sul, onde, segundo eles, se encontra a maior concentração de mulheres bonitas nos estádios brasileiros. E para confirmar essa observação, as mulheres focalizadas pelas câmeras são aquelas que se encaixam na representação social de mulher sulista: de pele bem clara, de olhos claros e de cabelos longos. Coincidentemente, o Sul é a região onde a concentração de imigrantes europeus e de seus descendentes é a mais elevada do país, e onde a concentração de negros é diminuta. O que não justifica essa atitude preconceituosa, pois eles nunca focalizam as belas mulheres negras do sul e nem as belas mulheres negras dos outros recantos do país, que com certeza também vão aos estádios de futebol.
O que por um lado pode ser visto como avanço, por outro é a confirmação da preferência racial que as televisões brasileiras tem por pessoas brancas. Falo do caso da inclusão de apresentadoras com sotaque distinto do eixo Rio – São Paulo, como a jornalista Renata Fann e da apresentadora Luize Altenhofen, que apresentam programas sobre esportes na TV Bandeirantes, e da apresentadora Ana Hickman, que trabalha na TV Record. Elas não abriram mão do sotaque gaúcho ao apresentarem seus programas, significando uma valorização da diversidade regional brasileira. Por outro lado, as três são brancas e loiras, o que sinaliza uma preferência das televisões pelas pessoas com o fenótipo branco, e atualmente combinado a isso, originárias da Região Sul. De modo algum quero questionar o talento dessas mulheres, mas se elas fossem negras elas estariam nos programas televisivos? Se nos ativermos ao retrospecto segregacionista da TV brasileira, podemos dizer com absoluta certeza que não.
No cotidiano, essa pigmentocracia, que considera a estética branca como superior e a estética negra como inferior é constantemente praticada pelas pessoas. A avaliação da beleza de uma pessoa normalmente leva em conta o modelo branco de beleza e, quanto mais próximo desse modelo, mas bela a pessoa é. E na disputa entre uma pessoa branca e uma pessoa negra em que a questão da estética é um critério importante, normalmente a pessoa portadora dos traços fenotípicos negros acaba sendo preterida em favor do branco.
A polemica sobre a São Paulo Fashion Week é exatamente isso. Não há nada de novo, ao contrario, esse é um dos espaços onde a preferência pela estética branca é velada , mas paradoxalmente evidente. A constatação de que os negros trabalham no apoio desse evento, e não no desfile, é a velha divisão representada pela Casa Grande e Senzala e pela sociedade de castas da época da escravidão. Por ser negro, existe um limite onde eles podem atuar – antes eram nos campos cortando cana e colhendo café, nunca como proprietários de alguma plantação. Hoje, no caso do mundo da moda, é no corte e na costura, e raramente (ou nunca) na passarela.

Juliano da Silva Tobias