Brasília – O estudante Marcelo Valle Silveira Mello, 22 anos, do Curso de Letras da UnB, acusado pelo Ministério Público pela prática de crime de racismo na Internet, foi interrogado na tarde desta quarta-feira, 09/08, pela juíza Geilza Fátima Cavalcanti Diniz, da 6ª Vara Criminal de Brasília, e confessou ter mantido mensagens racistas na Rede, em uma comunidade que discutia cotas para negros nas Universidades. Alegou, porém, ter agido por “brincadeira”.
Acompanhado pelo advogado João Carlos Machado Baumotte, Silveira Mello, estava nervoso. Tremia e roía as unhas sem parar, tomou cinco copos de água e por três vezes o advogado teve que intervir para pedir calma e que respondesse as perguntas olhando para a juíza. Até segunda-feira, 14/08, o advogado deve apresentar a defesa prévia e arrolar as testemunhas.
Ao ser questionado pelo advogado processualista Renato Borges Rezende, constituído pela ONG ABC sem Racismo, admitiu também que “amigos” atacaram a Afropress, retirando a página do ar. No entanto, voltou atrás ao que já havia confessado ao Ministério Público, quando assumiu que fora o autor dos ataques, usando o pseudônimo “Br0k3d – o justiceiro”.
O advogado requereu e a juíza admitiu a ABC sem Racismo como assistente de acusação – por ser detentora dos direitos do projeto Afropress – e o jornalista Dojival Vieira, como testemunha de acusação no processo.
O interrogatório do estudante – o primeiro acusado pela prática de racismo na Rede a sentar no banco dos réus – tomou praticamente toda a tarde, com a sala de audiências repleta de jornalistas de rádio e TV.
Mesmo dizendo não ter sido o autor dos ataques alegando que confessara a autoria anteriormente por estar “muito chapado”, Silveira Mello admitiu que amigos o fizeram para agradá-lo. Acrescentou que atua na área da administração de sistemas e que tem conhecimentos de como invadir um site.
Segundo o advogado da ONG ABC sem Racismo, além de confessar os crimes, o acusado não foi bem sucedido ao alegar o incidente de insanidade mental, que adiou por sete meses o interrogatório anteriormente marcado para janeiro. O laudo do Instituto Médico Legal de Brasília, já concluído e anexado ao processo, não o incapacita a responder ao processo. “A conclusão do Laudo é que ele é dono das suas faculdades mentais. De insano ele não tem nada”, afirmou.
Para Borges Rezende, Silveira Mello tornou-se, a partir do interrogatório, réu confesso. “Ele confessou ter redigido as declarações racistas. Afirmou com todas as letras. Não negou nenhum dos adjetivos usados para atacar negros. O que faz é tentar passar a imagem de desequilíbrio, mas fica difícil, usando eventuais problemas mentais como atenuantes. Agora, alguém que tem dois cursos superiores (o estudante cursa Ciências da Computação, na Católica de Brasília). Alegar insanidade é um contra-senso”, frisou.
O advogado acha que o depoimento “não foi bom” mesmo quando Silveira Mello afirmou que “achava tratar-se de uma brincadeira”. “Ora, se vamos admitir que uma pessoa, por brincadeira, nos ataque na rua e nada lhe aconteça, onde vamos parar? Por ter consciência do que fez, deve ser punido, mesmo porque foi uma postura consciente, continuada. Não foi única”, concluiu Borges Rezende.

Da Redacao