O documento, do qual o parágrafo acima foi extraído, é composto de 19 páginas, com 27 citações e é assinado por entidades que compõem o Fórum Mestiço de Políticas Públicas. Chama-se CARTA ABERTA DO FÓRUM MESTIÇO DE POLÍTICAS PÚBLICAS À CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB), e ao mesmo tempo em que propugna pelo reconhecimento de uma Amazônia pluriétnica, parece indicar que seu objetivo é também resgatar as origem européia com uma “pitada” indígena dos brasileiros dos 9 estados amazônicos. Pelo menos esta é a impressão que me dá o parágrafo abaixo:
A presença da Igreja Católica na Amazônia confunde-se com a presença dos europeus nesta região; presença tão antiga e influente que, em virtude dos limites desta Carta, nos deteremos em lembrar que implicou em compor fundamentalmente a cultura das populações locais, particularmente a das populações mestiças amazônicas. Essa presença implicou grandes sacrifícios de religiosos e leigos católicos cujo ardor evangelístico levou a muitos a tornarem-se mártires de sua fé. A fé católica, porém, firmou-se antes de tudo pelas uniões entre nossos ancestrais europeus católicos e nossos ancestrais nativos “gentios”, dos quais nasceram não só uma população miscigenada, mas uma nova identidade e um senso próprio de pertencimento, pois em miscigenação o todo não é simplesmente a soma das partes. A valorização dessa origem têm muitos testemunhos, que vão além das obras do mestiço maranhense Gonçalves Dias e do brasão do Município de Manaus, e se expressa marcantemente na cultura do caboclo amazônida, à qual a Missa Cabocla vem se somar. Nós mestiços não renegamos nossos ancestrais e valorizamos nossos parentes. (os grifos são meus)
Logo a seguir os bem intencionados signatários da Carta repisam o argumento usado atualmente, com uma reincidência preocupante, sobre a somatória de pretos e pardos feita pelo Censo apontando a raça predominante dos brasileiros: a negra.
“(…) A CNBB, porém, adotou como suas as demandas de ramos revisionistas do movimento negro que identificam pardos como negros e vêem na mestiçagem e na identidade mestiça um obstáculo (…)”
Em determinado ponto do documento, apontam os autores para a possibilidade de confronto entre o movimento mestiço (sic) e esses ramos revisionistas (sic) do movimento negro que consideram que a categoria parda é prevalentemente a afrodescendente, propondo, em seguida, uma nova abordagem da questão étnica brasileira, ao mesmo tempo em que sugerem que as atuais políticas públicas para afrodescendentes excluem os mestiços (sic) e citam expressamente a questão 56 da declaração de Durban em defesa dos seus argumentos:
“Reconhecemos, em muitos países, a existência de uma população mestiça, de origens étnicas e raciais diversas, e sua valiosa contribuição para a promoção da tolerância e respeito nestas sociedades, e condenamos a discriminação de que são vítimas, especialmente porque a natureza sutil desta discriminação pode fazer com que seja negada a sua existência”, Declaração de Durban, Questões gerais, 56.”
Não citaram, porém, da mesma Declaração, a questão 103, que além de reafirmar o combate à intolerância, nomina, sem subterfúgios, os africanos, os afrodescendentes, os asiáticos e os povos indígenas, usados à exaustão e de forma bastante confusa no documento do Fórum.
“103. Reconhecemos as conseqüências das formas passadas e contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata como graves desafios à paz e à segurança mundial, à dignidade humana, à realização dos direitos humanos e às liberdades fundamentais de muitas pessoas em todo o mundo, em particular, dos africanos, afrodescendentes, dos povos de origem asiática e dos povos indígenas; (Declaração de Durban)”
Lembro de uma conferência do professor Hélio Santos, onde, ao responder a um participante, disse com ênfase: “Sim, há os pobres. Mas eu estou falando dos negros pobres…”, acrescentando que toda vez que neste país se propõe políticas para afrodescendentes, alguém contrapõe argumentos que buscam minimizar a força e os danos do nosso racismo.
Mas, a leitura da Carta seria curiosa, não fosse o parágrafo abaixo, onde o Fórum Mestiço afirma na defesa da mestiçagem como a verdadeira brasilidade:
(…) A identidade mestiça e cabocla, assim, leva milhões de brasileiros a não se reconhecerem como um outro, mas sim como parte de uma sociedade em que a identidade humana prevaleceu sobre a identidade racial ou étnica; admitir isso não significa negar a existência de idéias e atos racistas neste país – nossa própria experiência como movimento mestiço nos deu a oportunidade de testemunhar isso, mas sabemos que nossos perseguidores não são regra, são exceção. A idéia de fracionar a nação brasileira não é nova e sua origem não é um mistério, embora muitos, talvez a maioria dos que a defendem, a desconheçam,(…)
E citam a seguir longo trecho de artigo do antropólogo Antonio Risério e sua alegoria do “neonegro”, para reforçar a tese de que somos “um único povo brasileiro” e que a negação deste poético povo uno é o ninho do ovo da serpente!
De volta ao começo, ao declarar que o texto tem 19 páginas e 27 citações, não o fiz por pernosticismo. É importante a teia de citações, que vai de Gilberto Freyre e sua exaltação ao cafuzo, passa por Darcy Ribeiro, esculhamba Florestan Fernandes, para dar uma aparente consistência àquela que parece ser a idéia central do documento:
“(…) A questão mestiça, porém, tendo características próprias, e ao lado de identidades tipicamente mestiças (como a mulata e a cafuza), inclui pessoas que não se identificam, nem desejam identificar-se, com qualquer grupo étnico ou racial específico, as quais vêem no movimento um instrumento a favor do seu direito de ver respeitada sua indefinição ou negação étnica e/ou racial, vendo a si mesmos simplesmente como brasileiros (…)”
E aqui se conclui: se for pra ser neguinho, defenda-se a amplitude da nossa ancestralidade! Ou, parodiando o poeta Camões, tão caro às nossas origens lusitanas: “… Para tão longo ódio, tão curta a vida”

Maria Adelina Braglia