É óbvio que o título deste meu artigo ressoa aquela peça de propaganda eleitoral protagonizada há mais de uma década, referindo-se à atmosfera de perigo que foi imputada ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, pejorativamente intitulado como “sapo barbudo”.

Em 2014, principalmente durante o segundo turno das eleições para a Presidência da República, o mesmo tipo de ameaça de natureza marqueteira, com um tom enviesado para os olhos azuis dos demônios da hoje chamada “elite branca”, foi apropriada pela campanha da presidenta reeleita.

Nesse intervalo, entre a Era FHC, que principiou políticas de ação afirmativa para a população negra, apesar da ignorância de muitos e má-fé de outros, a respeito deste particular; a Era Lula, que aprofundou tais iniciativas, com ênfase na promoção da igualdade racial; e a primeira gestão da Era Dilma, que as expandiu em alguns aspectos, a luta antirracista tem seguido como uma frente própria dos movimentos sociais distantes do financiamento público.

Não gosto do uso frequente do termo “cooptação”, prefiro afirmar, mesmo que soe gongórica, que um número deveras relevante de ativistas e organizações aderiu ao discurso eleitoreiro de que “fora do governo petista não há salvação”, o que certamente formou a opinião de muita gente sinceramente engajada na superação da desigualdade racial e no enfrentamento ao racismo no Brasil.

O tom maliciosamente maniqueísta da máquina de propaganda que enfeitou a Presidenta enquanto enfeiou seus concorrentes Marina e Aécio, em particular, também foi hábil em iludir uma parcela relevante, e de boa vontade, de antirracistas que passaram a defender a gestão que aí está com unhas, dentes e um coração valente. Como se não existisse um mundo à frente da esquerda e da direita.

Pois bem, passado o 2º turno e mal começando o 2º mandato, a realidade se faz presente, mesmo que, apesar da crise política e econômica instaladas, com indícios, nas ruas e nas redes, de um abalo social que impede diálogos, ainda há os que repitam a cantilena de que “está tudo bem”, bem ao estilo dos personagens daquele filme do Arnaldo Jabor. Assista.

Por outro lado, há os que reconhecem o caos em que vivemos.

“Ela vai dizer que a culpa é do PT”, pensaram alguns, jocosamente. Não, queridos, a culpa é de vocês. É de todos, que não podemos escapar da alcunha de cúmplices do sistema político que vigora, de suas lógicas predatórias, hereditárias, perversas tal qual a sociedade racista e sexista (entre outros adjetivos negativos) que a gerou.

Todos nós que somos excluídos sabemos que nos subalternizam, há os que silenciam para sobreviver ao dia-a-dia e os que vão à luta, mesmo sob o risco real de morte, até porque já somos mortos de qualquer forma mesmo, obedientes ou reclamões.

Alguns deles reconhecem seus privilégios e se juntam a nós que denunciamos o horror que prossegue depois do carnaval nesta “maravilha de cenário”.

Entretanto, não posso parar de chamar sua atenção para as artimanhas da opressão. Algo que perdura há séculos, como o racismo, ou há milênios, como o sexismo (do qual uma de suas expressões é o machismo), não pode ser tão burro assim quanto vários de seus críticos julgam. Não pode ser um atributo apenas deste ou daquele partido, somente deste ou daquele governo.

O jogo do qual participamos, de uma maneira ou de outra, é profundamente perverso. Você tem razão quanto tem medo do tamanho do desafio, isso mostra que você está consciente do risco real que corre. Eu tenho medo. Mas se o medo me paralisasse eu estaria morta há um bom tempo, e nem sei se enterrada.

O medo, esse mecanismo que fez parte primordial de nossa evolução como seres humanos (vou repetir um clichê), protege-nos em diversos momentos, pode ser, inclusive, um bom patuá para nós neste que passamos. É preciso reagir a ele.

Atenção. Fique alerta. Cuidado ao repetir os “memes” e robôs que falseiam a dimensão dos protestos de milhões e dos erros governamentais que vêm acontecendo, os quais não são frutos de aventadas possibilidades, mas são fatos em curso.

Quanto tempo eles durarão, eu não sei. Quanto tempo os seus protagonistas permanecerão atuando, eu não sei. Quanto tempo nós continuaremos tendo de gritar, eu sei que será muito. Eu posso apontar para três quadros:

Primeiro: não nos basta pagar para assistir o desenrolar dessa peça, como se fôssemos observadores distantes do conflito. O antiquíssimo dizer que “eles que são brancos que se entendam” não é suficiente para os tempos que correm. Somos tão atores desta representação quanto eles, apesar da precariedade dos papéis que teimam em nos atribuir;

Segundo: não é suficiente invadir o palco, continuariam televisionando a encenação, o racismo repudiado nas bocas, porém correndo nas veias, nestes tempos de hiper-realidade, onde o Grande Irmão saiu das páginas e foi morto, para renascer multiplicado, na forma de celebridades;

Terceiro: o caminho que nos resta é o de reinventar estratégias e parcerias, remontando protagonismos incessantemente apagados; lembrando, ou avisando aos que não sabem, que para quaisquer governos é muito mais cômodo promover políticas de igualdade racial do que políticas antirracistas: estas não necessariamente são iguais àquelas; e aprofundando a ressignificação da militância, ou do ativismo, como preferirem, nos tempos em que vivemos.

Jaqueline Gomes de Jesus