S. Paulo – A jornalista, cantora e apresentadora Adyel Silva, 51 anos, (foto) que, durante quase um ano, conduziu o principal programa feminino da TV da Gente, denuncia, em entrevista a Afropress, que a emissora é um sonho que virou pesadelo. “Sinto por todos nós que acreditamos”, afirmou.
Na entrevista, Adyel, que é filha de Adhemar Ferreira da Silva, o primeiro campeão olímpico a ganhar Ouro para o Brasil em salto triplo, conta detalhes dos bastidores; o papel da vice-presidente da TV, Conceição Lourenço, por quem disse ter sido humilhada mais de uma vez; a cirurgia plástica que teve de fazer por orientação da direção da TV; e o episódio em que o apresentador Nei Gonçalves Dias chamou o ator Lázaro Ramos de “aquele crioulo safado”, sem ser sequer advertido.
O empresário e cantor José Neto de Paula, Netinho, dono da TV da Gente, foi procurado por Afropress para falar sobre a situação da emissora, porém, não atendeu aos pedidos de entrevista. A jornalista Conceição Lourenço, vice-presidente, procurada por telefone, também não respondeu aos recados deixados em sua secretária eletrônica. O apresentador Nei Gonçalves Dias não foi localizado por Afropress.
Leia a entrevista da apresentadora Adyel Silva.
Afropress – Por que você foi dispensada do quadro de apresentadores da TV da Gente?
Adyel Silva – Dia 10 de agosto de 2006 – o fato. A pauta era “Namoro Após os Filhos” e convidado para ser entrevistado, o psicólogo Sebastião Alves de Souza. Os minutos passando e não atingíamos o ponto x… Fui mais direta e coloquei a questão dos filhos que vêem seus pais como assexuados.”Pais não trepam, né ?”, e, sem querer, dei para a mesma pessoa que me telefonou no dia do meu aniversário me convidando para trabalhar na TV, (a jornalista Conceição Lourenço) a faca para ela cortar o meu queijo no dia seguinte..
Dia 11 de agosto de 2006 – o pato. Fui retirada do estúdio faltando cinco minutos para o início da transmissão. Numa atitude cruel, perversa, me fizeram sair de casa para trabalhar . Me deixaram ser maquiada, vestida, penteada sabendo que eu não mais faria o programa. Sabiam todos da decisão que tinha sido tomada no dia anterior. Crueldade coletiva mesmo.
Tomei um chá de cadeira de duas horas , vestida com o figurino do dia, maquiada, penteada, calçada, até que soubesse porque me tiraram do estúdio faltando os cinco minutos. Me humilharam, as pessoas que passavam pela recepção da TV, até então, meus colegas, já não me olhavam …um horror…
A alegação foi eu ter usado a palavra “trepar”… “Trepar foi um pouco demais…se você tivesse usado “transar” teria sido diferente. Inclusive a TV pode ser retirada do ar por causa da sua atitude… “. Foi o que me disse a vice-presidente na hora da dispensa. Que piada!!!
Afropress – Como é que foi o episódio em que o apresentador Nei Gonçalves Dias chamou, no ar, o ator Lázaro Ramos de “crioulo safado”?
Adyel – Pois é…um horror, um choque. Naquele dia, uma das pautas era sobre crianças hiperativas .Para isso, a produção do programa trouxe uma educadora, catedrática da USP e um neurologista.
Infelizmente não encontrei o espelho do programa para lembrar de seus nomes. O programa, ao vivo, foi ao ar no dia 29 de junho. Eu conduzia a entrevista sozinha quando o senhor Nei Gonçalves se sentou no sofá ao lado do neurologista. E explicou, a todos, os motivos de tanta criança “hiperativa”, no conceito dele :- os pais presenteiam seus rebentos com jogos eletrônicos que vão se sofisticando dependendo da faixa etária até o dia que as próprias crianças escolhem o que assistir na televisão.
Nesse ponto, a direção já tinha se encarregado da música do tipo “o mundo vai acabar” para ilustrar melhor o que viria pela frente. Aí, sem mais, o senhor Nei disse que as crianças, lá pelos 6/7 anos de idade, sintonizavam uma tal novela em que “aquele crioulo safado do Lázaro Ramos” ensina coisas erradas para as crianças. Fiquei pasma….Ele não usou nem “Foguinho”, nem “a personagem feita pelo ator Lázaro Ramos …”. Não é novo em Tv para não saber diferenciar as coisas. Ética não existe, né ?
Afropress – Antes da sua demissão você foi suspensa, não foi?
Adyel – Nesse mesmo programa, a última pauta era com as Mães da Sé . Eu, esperando terminar a pauta sobre Beleza conduzida pela outra apresentadora , fiquei conversando com as senhoras Ivanise Esperidião da Silva e Vera Lúcia Gonçalves que tiveram seus filhos arrancados de suas vidas …O contraste da pauta que estava rolando com essa verdade cruel me fez pensar, rapidamente, em tantas coisas, tantos privilégios…um deles, o de ter criado meu filho e de tê-lo ao meu lado por todos esses anos, com tudo o que implica ser mãe…carinhos, broncas, sustos, respostas enviesadas, risos, felicidade.
Um bolo amargo foi subindo dentro de mim, parou por um instante na garganta porque no subconsciente eu sabia que estava ali exercendo uma função e que não poderia falhar. Mas falhei…chorei descontroladamente. Saí do estúdio consciente que os outros três apresentadores poderiam conduzir a pauta – só um deles sem o diploma de jornalista ou registro para exercer a função. Não queria fazer sensacionalismo com o meu choro.
No dia seguinte, maquiagem, cabelo, figurino, sapato. Pronta para entrar no ar. Faltavam uns 20 minutos quando a secretária da Conceição (Conceição Lourenço) me entrega um papel que eu deveria ler e assinar. Era uma suspensão. Deveria ir embora e só voltar na segunda-feira para atividade normal. Nunca tomei uma suspensão na escola…vim tomar suspensão depois de velha. Castigo por não ter controlado minha emoção.
É de praxe, em televisão, que a suspensão aconteça depois de duas advertências. Já fui logo para o pelourinho levar chibatada. Tive meu salário, que já era baixo, descontado.
Ah, quer saber o que aconteceu com o Nei? Nada. Fez normalmente o programa de sexta-feira, dia 30.
Afropress – Você teve algum encontro com o Netinho ou com a Conceição Lourenço para tratar dos problemas que vinha enfrentando?
Adyel – Tive, sim, dias antes da minha degola dentro da TV. Foi quando, entre outras coisas, ao ouvir o meu relato sobre o episódio “crioulogate”, Netinho respondeu que cabia a mim, âncora principal do programa, ter chamado a atenção do colega Nei.
Por muito menos me chamaram de petulante…imagina se eu iria desempenhar o papel da direção do programa, da vice-presidência e/ou da presidência?
A reunião, pedida por mim com o Neto, teve a presença da Conceição que, desde muito, vinha claramente fazendo campanha contra mim. Parece que ela insistiu muito quando soube que o Netinho me atenderia e quis envenenar a minha situação na tv dizendo que ninguém me suportava, que eram recorrentes as reclamações a meu respeito, inclusive citando nomes…Todos desmentiram. Vai saber, né? Todos defendiam seus empregos e eu era um peso leve dentro da emissora e visivelmente mais leve a cada dia.
Afropress – Como foi a história das cirurgias plásticas que você foi orientada a fazer?
Adyel – Soube que tinha sido escolhida logo nos primeiros dias de novembro quando fui chamada para uma reunião com a Conceição e a diretora Janete Moraes. As duas me contaram que o Netinho tinha voltado de Paris naquela manhã, só então assistido aos testes e decidido por mim.
Me mostraram trechos do meu teste e me perguntaram como eu me via na tela, numa atitude clara que tinha alguma coisa que elas gostariam de mudar…comentei dos meus olhos. Bingo! “Você faria uma cirurgia plástica imediatamente, para entrar no ar com uma cara mais leve, mais bonita?” E lá fui eu fazer a cirurgia.
Quando a TV inaugurou eu parecia um sapo-boi, com a cara inchada, pronta pra explodir a qualquer momento. Um primeiro cirurgião que a TV arrumou emperrou e, entusiasmada, acabei pedindo esse favor para meu querido amigo doutor Eduardo Dantas, que não cobrou nada da TV.
Acabei eu mandando flores e uma cesta cheia de coisas gostosas para o médico e pessoal da clínica. Gentileza….nem isso fizeram. Saiu do meu parco salário, aliás do primeiro que recebi em final de dezembro. O contrato não levou em consideração que já em outubro eu estava lá, inclusive levando anestesia geral.
Uma segunda cirurgia foi feita em maio de 2006, aproveitando o período inativo entre a
a saída da NDC e o início das transmissões no novo endereço, no prédio que a Globo ocupava antes do atual endereço. Cansada de ouvir insinuações do tipo que era difícil me vestir porque estava assim e assado (agora barriguda), voltei ao meu médico amigo. Dessa vez, disposta a pagar (o único favor que pedi para ele foi pela causa da TV). Pagaria em seis vezes e faria para o bem geral da nação da TV da Gente. E assim fiz uma plástica de abdômen. Punk, recuperação nada fácil, tive complicações, quase entrei em choque.
Hoje, recuperada, sem barriga, ainda não terminei de pagar o médico…que vergonha…
Afropress – Fale um pouco da sua experiência como apresentadora negra da TV da Gente.
Adyel – Ser a apresentadora de um programa de televisão no Brasil. Eis aí um sonho que nunca havia sonhado porque, apesar de ter tido uma vida com um certo privilégio em termos de negros brasileiros, nunca ousei sonhar. Recebemos mensagens subliminares desde antes de nascermos do tipo “isso não é para você”, “se enxergue e saiba qual é o seu lugar” , “porta da frente nem pensar” , “quem ela pensa que é ., “seu cabelo é ruim”, “sua bunda é grande ” , “sua beiçuda”..
Fui manequim durante 10 anos de minha vida entre os anos 70 e 80. Sei muito bem o que nós, manequins negras passamos…sei o que os meios de comunicação pensavam a respeito da nossa imagem. Éramos “exóticas” , uma maneira de classificar os nossos traços – estranhos. Piada, né, depois de quase 500 anos nessa terra do pau-brasil.
Não sou acomodada, não se trata disso mas , quem tem o poder de decidir o que é bacana prá ancorar TV? Além de negra, tenho 51 anos de idade e o corpinho de manequim já foi. Fora dos padrões do que se vê em qualquer canal de tv brazuca, né? Portanto, quando recebi o telefonema da Conceição Lourenço me convidando pra ancorar um programa feminino numa TV dirigida por negros, que seria inaugurada em breve, sorri. Topei. Sou movida a desafios, essa é a minha personalidade. Foi assim que me descobri cantora.
Afropress – Quando é que aconteceu o convite?
Adyel – O telefonema aconteceu no dia 18 de agosto. Era o dia do meu aniversário. Poderia ter presente melhor? Aí, um longo silêncio que só suportei porque me envolvi totalmente com tintas e pincéis e mudei as cores de portas e paredes da minha casa. Em meados de outubro, a tv reaparece num outro telefonema. Era de novo a mesma senhora, perguntando se eu poderia me submeter a um teste porque outros nomes tinham surgido nesse meio tempo. E por que não, claro que sim. Vamos ao teste…Dirigido pela contratada para a direção do feminino (Janete Moraes), fiz o teste. Saí chateada pela minha ingenuidade. Fiz o teste com uma blusa de mangas curtas e ainda antes de começar pude ouvir a diretora num comentário que todos que estavam com o ponto puderam ouvir – “Genteeeeee…olha o braço!!”, numa referência aos meus braços não malhados, nem plastificados. Nunca saberei se a diretora não desligou o meu ponto de propósito para tirar o meu sorriso do caminho ou se foi acidental. Isso derruba qualquer ser humano…princípio da rejeição.
De qualquer maneira acabei sendo a opção do dono da TV , o Netinho de Paula. Soube da escolha nos primeiros dias de novembro numa reunião com Conceição e a diretora “Genteeeeeeee….olha o braço”. As duas me contaram que Netinho tinha voltado de Paris naquela manhã e só então assistido aos testes.
Na verdade, eu estava numa alegria que não era só minha…era de todos os meus ancestrais. Meus e de todos os negros desse país que morreram, principalmente de diabetes e hipertensão, não por acaso. Tantos nãos….
Era uma alegria minha e ancestral porque se desenhava um futuro de mais oportunidades numa conseqüência lógica, porque nos reconheceríamos numa tela de tv, porque estaríamos numa vitrine mostrando capacidade, inteligência, cultura, simpatia para ocuparmos espaço em televisão .
Nem me importei com a minha carreira musical que teria uma parada natural. O “Encontro da Gente”, o feminino que eu ancorei, inicialmente ia ao ar das 10 às 13 horas, de segunda à sexta, ao vivo.Com o carão inchado por causa da cirurgia, tinha que acordar por volta das 5 da manhã, não tomar água depois das 20h para não inchar ainda mais e, claro, dormir cedo. Saí do cenário musical , voltando só em junho, num projeto do Centro Cultural Banco do Brasil, cuja curadoria era de Johnny Alf.
Afropress – Fale um pouco da sua história, o fato de ser filha do campeão Ademar Ferreira da Silva, a expectativa de retomada da carreira, depois da experiência com a TV da Gente.
Adyel – Meu pai, bi-campeão olímpico em Salto triplo, Adhemar, e minha mãe, Elza, foram pais maravilhosos, foram duas árvores muito fortes que geraram frutos fortes, dignos, éticos. E, é isso que pretendo passar para meu único filho, o Diego, estudante de Rádio e Tv.
Meus pais me deram a chance de muito cedo viajar e experimentar novas culturas, abrindo minha mente, minha visão de mundo. Aos 10 anos de idade falava fluente o inglês e estudava numa escola internacional ao lado de crianças de quase todos os continentes. Pierre Verger me ensinava, sentadinha em seu colo, palavras em francês.
Ser filha do Adhemar, na verdade, mais fechou portas do que abriu. Aprendi, nessa experiência com a TV da Gente, como é que isso pode acontecer….Um convite para ancorar outro programa numa outra emissora? Mais fácil ganhar na mega-sena, né?
Afropress – Como é que você vê hoje o Projeto TV da Gente? Quais as suas expectativas?
Adyel – Eu vejo com muita tristeza o Projeto TV da Gente porque ao que parece está em estado de coma. Sinto por todos nós que acreditamos, pelas famílias que ficaram à míngua.
Sinto pelos meus ancestrais. Sinto pelo sonho que virou pesadelo. Sinto pela falta de respeito. Sinto pela falta de carinho. Sinto pela falta de ética. Sinto pela falta de visão.
Sinto pelos valores trocados. Sinto pela confiança depositada. Sinto porque os algozes tem a mesma cor de pele que eu….
Ao ser desligada da Tv em agosto, ainda recebi dois salários e meio ou seja, agosto, setembro e metade de outubro. Não cumpriram todo o contrato e nenhum distrato foi assinado. E ainda, a pedido, escrevi o projeto de um esboço que eu mostrara ao Senhor Neto na ocasião da reunião. Teriam 45 dias para me dar uma posição…nem resposta, nem o projeto de volta. Nada.
O Senhor Neto não sabe da minha história. Na reunião ele me disse, influenciado pela Conceição, que eu era muito rebelde e que tinha que aprender muito, como ele aprendera anos antes. Que eu era nova na profissão etc…
Quem é
Adyel é jornalista, cantora e apresentadora de TV. Já fez mini-série (A Escrava Anastácia- TV Manchete); fez cinema (O Efeito Ilha de Luis Alberto Pereira, o Gal);fez publicidade para tv equatoriana durante 8 anos (a Blanquita do Deja). Os primeiros comerciais foram dirigidos por Ugo Georgetti ( Boleiros, Sábado, A Festa). Depois, tive a chance de viajar muitas vezes para filmar no Peru, no Equador e no Chile.
Fez Ra-Tin-Bum (TV Cultura) , O Menino, A Favela e as Tampas de Panela, curta-metragem dirigido pelo Cao Hamburguer, premiado pela BBC no Festival Open a Door; dirigida por José Possi Neto, participou de Emoções Baratas, ao lado de Misty, Hearthbreakers e dançarinos de peso como Ruy Moreira, ex-Grupo Corpo.
Com direção de José Maurício Machline participou de Cristal, outro musical e que homenageava compositores e vozes negras desse país; Fez a primeira personagem feminina de O País dos Elefantes ao lado de Antônio Fagundes, o protagonista.
Seu CD, feita com produção executiva própria, Adyel Chic da Silva , lançado em 2003, teve indicação ao Grammy latino na categoria Melhor CD de MPB e recebi o Prêmio Rival-Br, como Revelação.

Da Redacao