Brasília – O ex-ministro da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR), Elói Ferreira de Araújo, atual presidente da Fundação Cultural Palmares, expressou a solidariedade ao músico negro Raphael Lopes, 24 anos, alvo de ofensas racistas num show de stand-up, numa casa noturna de S. Paulo.
” Força, e saiba que você não está só. O pior de todos os medos é a gente pensar que está só numa batalha. Nós não estamos sós, estamos juntos. Você está junto com 52% da população brasileira. Então, tenha força. E saiba que seu gesto de se defender não foi um ação individual. É um gesto de defender-se contra o racismo e você tem a solidariedade de toda a nação brasileira, com certeza”, afirmou.
Segundo o ex-ministro a atitude dos humoristas Felipe Hamachi, Danilo Gentili e Marcelo Marrom, que participaram da agressão racista contra o músico é, simplesmente, criminosa. “Me parece que conduta criminosa tem de ser tratada na Delegacia policial, com o competente Inquérito Policial, com a competente ação penal e, por conseguinte, deixar para o Judiciário condenar esses malfeitores”, acrescentou, pedindo punição na forma da Lei.
Elói prometeu levar o caso ao Conselho de Curadores da Fundação – que é ligada ao Ministério da Cultura – para que seus membros se manifestem, e disse que, ao considerar crime o que ocorreu, não está fazendo nenhuma constatação de valor moral ou ético. “Trata-se de ofensa à dignidade humana, uma ofensa que busca desqualificar, é uma ofensa racista na sua mais legítima expressão”, sublinhou.
Veja, na íntegra, a entrevista concedida ao jornalista Dojival Vieira, editor de Afropress
Afropress – Como o senhor vê esse humor que utiliza o negro como alvo, negros, mulheres, portadores de deficiência, e esse caso específico de S. Paulo, que teve uma grande repercussão na mídia, do músico negro comparado a um macaco por parte de um desses tais supostos humoristas.
Elói Ferreira de Araújo – A Lei 7.716/89, a Lei Caó, que define as sanções aos crimes de racismo, ela é específica, é clara, da dimensão da conduta criminosa. E a conduta criminosa, ela será criminosa sendo cometida a quatro paredes com a presença de pessoas ou fora de quatro paredes.
Esse tipo de comportamento criminoso tem de ser combatido duramente. Senão vejamos: se alguém estupra uma moça ou uma criança, ou um bebê, a quatro paredes, porque fechou a porta todos saberiam que ali poderiam ser estuprados? Ou se entra ali e consomem drogas, aí justifica porque estão à portas fechadas? Estão pretendendo fazer isso, não é?
Ou se cometem uma ofensa racista como essa, como é o caso, que se acham no direito de cometer porque estão à portas fechadas. Me parece que conduta criminosa tem de ser tratada na Delegacia policial, com o competente Inquérito Policial, com a competente ação penal e, por conseguinte, deixar para o Judiciário condenar esses malfeitores.
Porque não há possibilidade de deixar prosperar. Se o silêncio nos acolher, temos de ter a voz das ruas para poder gritar. Racismo não, racismo é crime, punição para esses criminosos.
Afropress – O que a Fundação Palmares pode ajudar nesse processo de esclarecer a sociedade brasileira de que não se pode confundir o humor – que necessariamente requer talento, requer criatividade – com a apologia do crime. Como é que a Fundação Palmares, pode ajudar nesse sentido.
Elói – Da mesma forma que temos tido uma parceria muito interessante com a Defensoria Pública da União, uma das iniciativas que nos ocorre é de fazer a comunicação para a Defensoria, ao Ministério Público Federal. É preciso que haja uma vigilância intensa e sempre a toda e qualquer ação criminosa que se cometa. Então, uma das iniciativas é essa.
Agora, penso também, que no âmbito da Fundação Cultural Palmares, da promoção, da cultura afro-brasileira, da defesa da identidade nacional, buscar, além dos fóruns competentes para poder tratar esse tipo de conduta, no âmbito do Conselho de Curadores da Fundação Palmares trazer o tema para que o Conselho de Curadores também se manifeste e repudie esse tipo de conduta como todos os brasileiros que tem compromisso com a construção de um Brasil mais igual, mais justo e mais fraterno farão e já estão fazendo.
Afropress – Pretende-se apresentar esse tipo de manifestação como arte; como é que o senhor entende isso?
Elói – Crime. Crime se difere de arte. Crime se difere de cultura. Isso é crime, está tipificado. E não se trata de uma constatação de valor moral, de valor ético. É de ofender a dignidade humana. E a ofensa à dignidade humana, uma ofensa que busca desqualificar, ofender a auto-estima, é ofensa racista na sua mais legítima expressão, se se pode chamar de expressão legítima o racismo. O racismo tem uma expressão e essa é uma das expressões que quer aplastar a possibilidade da população negra se emancipar, que é aplastar a auto-estima da população negra, por isso busca ofender a auto-estima porque sabe que não basta para gente ter a barriga cheia ou ter universidade. Como reagir a uma ofensa tão forte. É preciso ir até o fim. É preciso que esses malfeitores sejam punidos e que isso não se espalhe.
Persegui-los. Aonde eles podem cometer esses crimes tem de ter uma autoridade policial. Talvez seja até uma iniciativa a de requerer a autoridade policial que, já sabedora dessas condutas, que vão acontecer nesses lugares que para lá elas se dirijam e aguardem a chegada.
Afropress – Como Presidente da Fundação Palmares, o que senhor diria ao músico negro Raphael Lopes que, trabalhando, foi, de forma torpe comparado a um macaco e exposto ao escárnio de quase 250 pessoas nessa casa (Kitsch Club, de S. Paulo) e que ficou completamente sem ação. O que o senhor teria a dizer prá ele?
Elói – Força, e saiba que você não está só. O pior de todos os medos é agente pensar que está só numa batalha. Nós não estamos sós, estamos juntos. Você está junto com 52% da população brasileira. Então, tenha força. E saiba que teu gesto de se defender não foi um ação individual. É um gesto de defender-se contra o racismo e você tem a solidariedade de toda a nação brasileira, com certeza.
O que está aí fora é exceção, é minoria, que quer ofender e que vai ser punido, com certeza com o rigor da Lei. É isso que agente deseja.
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Da Redacao