Salvador – O sociólogo Ailton Ferreira, Secretário Municipal de Reparação de Salvador (SEMUR), deixou o cargo, substituído pela ex-Reitora da Universidade da Bahia ((UNEB), Ivete Sacramento, nomeada pelo novo prefeito ACM Neto, que assumiu dia 1º deste mês.

Ailton disse que saiu com a sensação de missão cumprida e com gestão aprovada pelo Movimento Negro e não está pessimista em relação a gestão da ex-Reitora da UNEB à frente da Secretaria. Acha que o novo Governo “buscará eficácia administrativa e resultados com padrões empresariais”. “Creio que a agenda afirmativa está se consolidando, e um gestor antenado e que tem uma visão de futuro político, como o jovem prefeito eleito, ACM Neto, não vacilará em atender as demandas da comunidade negra. Sou otimista”, afirmou.

Sociólogo, com pós Graduação em Gestão de 3º Setor com ênfase para entidades do Movimento Negro, pós-graduação em Cultura, Cidadania e Mobilização Social pela UNEB, ele está concluindo o Curso de pós-Gestão em Direitos Humanos pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

Na entrevista que concedeu ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, Ferreira destacou que “a decisão do STF sobre as cotas e as medidas do Governo Federal criaram um caldo cultural muito positivo para as mudanças”. Leia, na íntegra, a entrevista.

Afropress – Na verdade, a Secretaria Municipal da Reparação foi a pioneira no Brasil, porque o que tínhamos e ainda temos são coordenadorias, assessorias, sem estrutura nem orçamento. Me fale um pouco da estrutura que foi colocada à sua disposição.

Ailton Ferreira – O Conselho Municipal da Comunidade Negra, formado por militantes da sociedade civil e representantes do Governo, que não tinha uma sala, recebeu uma sala com computador, móveis, arcondicionado e uma servidora de carreira para auxiliá-lo. O procurador do Município que despachava os processos em sua casa, passou a ter uma sala na Secretaria para despachar; todas as salas receberam ar condicionado e telefone sem fio; instalamos uma central telefônica com dois telefonistas e instalamos um setor de protocolo. Parece mentira, mas nem isso tínhamos. Os pisos quebrados e as salas sem divisórias foram reformados. Tanto que quando o atual prefeito eleito visitou as instalações na semana passada, elogiou, dizendo ser uma das melhores que encontrou. Dignidade para quem faz reparação, deve começar em casa.

Afropress – Me fale um pouco mais do orçamento e da estrutura da SEMUR.

AF – Quando entramos em 2009, o orçamento era de 1,25 milhões e não constava do PPa a promoção da igualdade. Incluímos a promoção da igualdade no PPA, isso é gestão, diferente da militância. Temos que ter a paixão do militante e a cabeça de gestor. No ano seguinte dobramos o orçamento para 2,5 milhões e, no ano seguinte, avançamos até chegar a mais de 4 milhões. É muito pouco para as demandas, mas foi o que conseguimos avançar.

Afropress – Qual a expectativa que o senhor tem do trato dessa questão sob um Governo de ACM Neto, ainda que tenha como vice a professora Célia Sacramento e como Secretária a professora Ivete.

Ailton Ferreira – É duro inverter a lógica perversa de um Estado que não foi construído para nós negros e negras. Então, a primeira tarefa é inverter essa lógica que racializou a sociedade e a hierarquizou entre pretos e brancos, primeira classe e segunda e terceira classes.

O Brasil não foi concebido para todo o seu povo e uma Secretaria como a nossa não veio nas embarcações dos navegadores portugueses, são construções do nosso povo, do Movimento Negro Brasileiro. Tem gente que ainda vê com estranheza, secretarias que promovam a igualdade, porque essas pessoas não veem a desigualdade; para elas é normal não ter vagas nos hospitais e faltar saneamento básico para algumas populações, o que não pode é faltar avião nos aeroportos.

Aí vira crise e bomba no Fantástico global. O Brasil normalizou anormalidades para alguns grupos humanos. Negro de terno e gravata dirigindo não é normal no Brasil

Afropress – O senhor está onde agora, ou seja, está assumindo algum cargo público?

AF – No momento estou em casa descansando, após oito anos sem férias, avaliando propostas para cargos públicos em outros órgãos e estruturando o Instituto da Reparação que vamos lançar em breve com sede em Salvador.

Afropress – Quais foram as principais realizações da sua gestão à frente da SEMUR?

AF – Na nossa gestão fortalecemos o Programa de Combate ao Racismo Institucional realizando oficinas nos órgãos municipais e criando o GT com a participação de servidores de todas as Secretarias publicadas no Diário Oficial.

Levamos os servidores da Prefeitura para conhecer os Terreiros de Candomblé da cidade. Incrível: servidores há 30 anos na Prefeitura que nunca tinham entrado num terreiro. O agente de combate da dengue que não entra no terreiro para fazer a prevenção por puro preconceito, precarizando os serviços e expondo as pessoas à doença.

Realizamos workshops com mais de 500 professores da rede municipal sobre a Lei 10.639 e os temas afins. Buscamos o apoio de educadores e intelectuais evangélicos para convencer outros evangélicos de que a Lei não ensina macumba e sim respeito à nossa cultura. Realizamos seminários com os servidores da Prefeitura trazendo todas as lideranças do Movimento Negro, de todos os partidos políticos e religiões e orientações para dizer a Prefeitura e a Secretaria da Reparação que desejavam.

Legitimamos a nossa ação pautando a Secretaria pelas vozes das ruas, do Movimento, sempre colocando a premissa fundamental de que sem o Movimento Negro não teríamos uma secretaria e nem eu seria secretário sem o Movimento Negro.

Consolidamos o Observatório da Discriminação Racial, da Violência contra a Mulher e LGBT, como o produto mais visível da Secretaria, presente em centenas de sites do mundo e respeitado pela opinião pública, fazendo da Reparação a Secretaria mais presente na mídia durante o carnaval, depois dos órgãos responsáveis pelo carnaval da Bahia.

Consolidamos a Feira do Empreendedor Afrodescendente e pautamos a inclusão empresarial negra a partir das expectativas geradas pela Copa do Mundo. Participamos do JAPER [Acordo Brasil/EUA para a superação da Discriminação Racial] com empresários negros da Bahia e, em São Paulo, na Federação do Comércio, junto com a FIESP, FEBRABAN, SEBRAE etc. Discutimos a inclusão empresarial negra.

Não basta empregos, queremos dirigir os negócios. Criamos em Salvador um GT de empresários negros e levamos a cultura empreendedora para os bairros da periferia como forma de estimular os nossos jovens negros a serem donos do próprio negócio. Afinal , fomos treinados a ficar quietos, na nossa.

Instalamos no centro de Salvador uma Unidade Permanente do Observatório para funcionar todos os dias do ano. Criamos o Troféu Dra. Edialeda Salgado, primeira mulher negra a ser secretária de estado, com o qual homenageamos as mulheres negras no dia 25 de Julho.

Apoiamos todas as iniciativas das organizações negras independente das filiações partidárias e fizemos parcerias com os parlamentares negros, independente dos seus partidos políticos.

Realizamos em todos os finais de ano, um almoço, de adesão livre, onde cada pessoa paga a sua conta, para anualmente prestar contas das atividades e entregar cópias de relatórios para as lideranças negras, esses almoços deram em média cem pessoas por edição. Uma forma de garantir a participação popular na gestão e subordinar a Secretaria ao Movimento Social. Fazer a diferença de uma secretaria que tem de quebrar paradigmas.

Consolidamos o Selo da Diversidade, uma certificação para empresas e organizações que empregam negros e negras em seus postos de trabalho, gerando ocupação e renda.

Criamos o SEMUR nos bairros em parceria com uma rádio AM de grande audiência no Estado da Bahia, levando essas falas e o discurso da Igualdade para os bairros periféricos, onde somente chega a violência e o rabecão oficiais

Criamos o Projeto "Essa pode ser a sua história". Nesse projeto apresentamos nos grandes shoppings centers da cidade painéis com fotografias e biografias de negros intelectuais, doutores e mestres e empresários de sucesso, que venceram através da educação dando-lhes visibilidade. Esses painéis são também expostos nas escolas públicas dos bairros populares para os alunos se verem numa outra perspectiva, que não as normalmente oferecidas pela mídia e pela catástrofe urbana.

Afropress – Qual a expectativa que você tem em relação aos novos gestores sob o Governo de ACM Neto?

AF – Ivete e Célia [não são parentes] são professoras e educadoras com histórias próximas. Ivete tem mais caminhada no Movimento Negro. O DEM foi contra as cotas, mas o PSDB com Fernando Henrique Cardoso, iniciou um bom diálogo com as questões raciais, assumiu o racismo brasileiro e criou o GT com a participação de negros para cuidar da agenda afirmativa.

O prefeito eleito foi muito pressionado durante a campanha por conta das posições do DEM. Mas quando ele escolheu Célia Sacramento como vice, de alguma forma pautou a questão. O PT logo também escolheu Olívia Santana para vice na chapa e polarizaram as discussões.

O novo governo buscará a eficácia administrativa e resultados com padrões empresariais. Quanto às questões raciais, não podemos esquecer que estamos em plena década do Afrodescendente e que tem uma agenda mundial de promoção da igualdade, os movimentos negros no mundo inteiro.

A decisão do STF sobre as cotas e as medidas do Governo federal criaram o caldo cultural muito positivo para as mudanças, a posse de Joaquim Barbosa no STF é a foto do Brasil sem fotoshop, o Brasil real.

Quero dizer que sou otimista com relação a uma gestão em Salvador, pois não há possibilidades de retrocesso. Creio que a agenda afirmativa está se consolidando, e um gestor antenado e que tem uma visão de futuro político, como o jovem prefeito eleito, ACM Neto, não vacilará em atender as demandas da comunidade negra. Sou otimista.

O Movimento Negro mais uma vez e de forma generosa oferece ao Brasil uma agenda para o País melhorar, para os negros e para os brancos. As cotas para negros democratizaram as universidades e ampliaram as vagas para todas as pessoas. Não somos o problema, somos a solução, somente as pessoas muito obtusas não perceberam isso.

Afropress – O senhor quer fazer mais alguma consideração para a matéria? Fique à vontade.

AF – Apenas lhe agradecer pela cobertura e apoio dados durante esse período, me colocar à disposição sempre, e lembrar que ainda estamos vivendo racismo. Está chegando o carnaval e com ele as desigualdades do ano inteiro explodem em meio a alegria. As mãos que brincam de catar latinhas de cerveja entre as pernas dos foliões, ainda são mãos negras de crianças magras e mulheres negras, algumas grávidas. As mãos que brincam de vender cervejas, água, as mãos que lavas as ruas e os carros, as mãos presas nas algemas da polícia, ainda são negras que brincam lutando contra as armadilhas.

As mãos que seguram as cordas dos blocos de carnaval e que brincam de preparar os trios – elétricos para a festa, também são negras. Enquanto outras pessoas, brancas, brincam de ir dentro do bloco com a latinha cheia nas mãos.

Uns brincam de brincar e pular e outros "brincam" de trabalhar e ralar. Para o País e mundo, através da mídia convencional, todos estão brincando no carnaval da Bahia.

Depois do carnaval, alguns estarão viajando bem mais ricos e outros retornarão para a bacia de roupa e para o trabalho doméstico. Aquele músico do bairro que fez a música do gueto, ouve a sua música pelo som potente do trio-elétrico, mas não pode curtir dentro daquele bloco, a música nasce negra e vai embranquecendo pela força da indústra cultural, e lá no alto do altar do carnaval, a cara é quase sempre branca.

Os afoxés e blocos afros ainda ralam muito para desfilarem e não tem às vezes nem cobertura televisiva. Somente a TV Educativa, a TV pública transmite o carnaval afro, as demais TV´s somente falam do Ilê, Olodum, Filhos de Gandhi e outros poucos.

Os camarotes ainda são brancos, com exceção dos seguranças de paletó e das mulheres negras uniformizadas que tomam conta dos banheiros. Não quero entristecer, mas é somente a verdade.

Quando secretário, muitas vezes troquei sorrisos com o irmão garçom e a irmã da copa e da cozinha dos camarotes. Era eu o único mais próximo naquele ambiente tão europeu. Mas as pessoas não notam, somente a gente que sente e sabe desse gostinho, desse sorriso que conspira, desse abraço que nos une, e por isso, vale a pena lutar a vida toda. Um abraço e axé!

Da Redacao