A idéia também foi feliz por ter proporcionado espaço aberto não só aos leitores como aos candidatos negros e antirracistas. É que em razão dessa postura democrática, estamos tendo a oportunidade de conhecer as propostas desses postulantes às Casas Legislativas e ao Senado; e também o privilégio de nos interarmos das reflexões dos leitores a respeito das respectivas propostas.
Mas também vejo que a iniciativa da AFROPRESS tem tudo para trazer conseqüências sociais positivas para além do momento político. É que como muitas pessoas ainda não acreditam que sob os negros incide racismo e preconceito em dose cavalar, os argumentos apresentados por todos – leitores e candidatos – poderão servir de base para a construção de um novo raciocínio referente às relações raciais no Brasil.
Então, por tudo isso, penso que a iniciativa desta Agência de Notícias merece figurar nos anais do jornalismo brasileiro. E penso, ainda, que todos que aqui se manifestaram deram absoluta mostra de exercício de cidadania. Há nisso, com efeito, um indicador de que sabemos exatamente quem somos, e aonde desejamos e podemos chegar.
Linhas gerais
Ao conhecer as propostas dos candidatos que por aqui passaram percebi que há pontos comuns entre elas. Em linhas gerais, sinalizam combate ao racismo, ao preconceito, à discriminação. Repúdio ao desrespeito religioso e aos estereótipos. Preocupações para com a saúde, a educação e, em especial, para com a violência que escandalosamente tem incidido sobre os jovens negros. E em quase todas as propostas também notei a presença de um conjunto de ações que visam permitir maior participação dos nossos em diferentes momentos e situações sociais.
Naturalmente, essas propostas são parte integrante das nossas bandeiras eternas, bandeiras essas que sempre tiveram a propriedade de irem do particular ao geral. Em outras palavras, tencionam não só dar continuidade ao nosso histórico de luta como esclarecer a todos quanto a necessidade e a importância de se ter sociedade igualitária em deveres, mas também em direitos e oportunidades.
Então, por manterem viva e rediviva essas bandeiras, por disponibilizarem tempo e talento em prol dessas nossas causas, todos os candidatos que por aqui passaram – e também os que por aqui não passaram, mas que desde sempre demonstram efetivo comprometimento para com a igualdade entre os seres humanos – merecem os nossos aplausos. E esses aplausos serão ainda mais intensos se os comprometimentos se mantiverem para além do período eleitoral.
Sendo assim, desejo ao futuro parlamentar negro (a) do estado de São Paulo e dos demais estados brasileiros, felicidades em seus intentos. E se me é dado o direito de aconselhar, aconselho que tenham como fonte de inspiração diária aqueles nossos irmãos que antes de nós fizeram sua parte na nossa história com idealismo e competência, legando-nos inúmeras lições de vida útil.
Mas dentre as propostas conhecidas, uma delas me chamou especial atenção por trazer a combinação das nossas bandeiras eternas com novas bandeiras. E também pela sensibilidade de se preocupar com o segmento que tudo indica encontra-se esquecido pelos atuais políticos, pelos poderes públicos e pela sociedade: os idosos negros.
Idosos negros
Salvo engano de minha parte, o público idoso negro, parece não figurar no campo perceptual nem dos poderes públicos, nem dos atuais políticos e nem da sociedade. Esse desrespeito absoluto que remonta ao período escravista tem permitido que essa subdivisão do segmento negro seja vítima do racismo e do preconceito em dose dupla: por serem idosos e por serem negros.
E essas práticas discriminatórias ganham extensão e profundidade quando o idoso negro – masculino ou feminino – apresenta baixa escolaridade, baixo poder aquisitivo, falta de qualificação profissional. Quando doentes, e quando vivem solitários involuntariamente.
Tudo isso combinado credencia esses brasileiros a disputarem o primeiro lugar no pódio dos excluídos deste país, sem que isso cause constrangimentos em autoridades ou mesmo preocupações em quase ninguém.
Mas eis que determinado candidato mostrou-se ciente e sensível a essa realidade, o que pode ser constatado em sua carta-aberta – momento em que justificou a sua candidatura e ainda apresentou suas intenções caso venha a ser eleito.
Em sua carta-aberta, o candidato me pareceu não só idealista como também positivista em relação ao segmento em questão. Idealista, porque elaborou estratagemas para promover a inclusão social também dos negros e negras com idade igual ou superior a sessenta anos. E positivista, porque reconhece as potencialidades, as necessidades, além das subjetividades e das especificidades desse público.
Vejo, então, que ainda que esse candidato não seja eleito, a sua preocupação para com os idosos negros já provocou certa circunspeção de muitos em relação àqueles. É já permitiu deduzir que a atual situação vivida por muitos desses idosos também é fruto da denominada abolição inacabada.
Por tudo isso, penso estar diante de uma candidatura sinceramente interessada também nas questões que dizem respeito aos idosos negros. E por conta desse interesse, ela traz propostas pedagógicas que interessam diretamente aos nossos mais velhos, mas que não é menos interessante para os negros não idosos.
Afinal, como bem disse Kofi Anan – ex-Secretário das Nações Unidas – o tema velhice interessa a todos, posto que também envelheceremos, isto é, se tivermos esse privilégio.
Declaração
O candidato que escolhi para me representar na Assembléia Legislativa do estado de São Paulo é um guerreiro negro de nascença, razão pela qual possui a “estranha mania de ter fé na vida”. E por ter essa estranha mania, sempre foi um sonhador no bom sentido, isto é, criatura que sonha com a igualdade no seu aspecto amplo e irrestrito, com a fraternidade, com a solidariedade, com a equidade, enfim, com o país que desejamos e que podemos, sim, vir a ter.
Se no conjunto são 54 anos de exercício dos predicados que caracterizam um homem de bem, há 32 anos vem se dedicando a diferentes causas sociais, em especial, às que dizem respeito aos negros. E tanto em relação às nossas causas quanto em relação a diferentes causas contemporâneas, sempre esteve na vanguarda ora comandando ora apoiando, mas sempre combatendo.
É certo que não deposito sobre ele a responsabilidade de resolver 100% das questões que dizem respeito a nós. Mas estou convencida de que não lhe faltará entusiasmo e competência para enfrentar com galhardia e na linha de frente as dificuldades que por certo existirão. É que, como disse, trata-se de um guerreiro de nascença.
Então, por tudo isso, meu voto será para aquele cujas propostas apresentadas me convenceram não só pela coerência e consistência dos argumentos como também pelo caráter inovador e pedagógico.
Sim, votarei em Dojival Vieira.

Sônia Ribeiro