A adesão de personalidades como o cineasta Joel Zito Araújo, do jornalista Marcos Romão, de Carlos Medeiros, do Rio, de Flávio Passos, da Bahia, e de tantas outras lideranças negras respeitáveis, não lhe retiram o caráter do que realmente é: um factóide.
É um factóide porque inútil. A ministra já está confirmada no cargo para o segundo mandato. Por duas razões: primeiro, porque a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial é vista na Esplanada como tendo importância próxima de zero por Lula e pelo próprio PT; segundo, porque não há ninguém interessado no cargo pelo seu absoluto esvaziamento. Tem recursos limitados e apenas 43 cargos de confiança para nomear (DAS – Diretorias de Assessoramento Superior), conforme noticiou esta Afropress, já devidamente preenchidos por militantes do PT e do PC do B.
Aliás, Matilde só não apareceu na foto do novo ministério porque, por recomendação do próprio Lula, viajou para o Senegal para assistir a posse do novo presidente daquele país – uma viagem, recomendada pelos estrategistas do Planalto para tirá-la do foco da mídia que amplificou suas declarações até não poder mais.
É um factóide que serve a certos setores oportunistas – que silenciam quando não deviam, e falam pelos cotovelos quando lhes convém – interessados neste momento em ficar bem na foto com a ministra; expressão acabada de uma visão corporativa e despolitizada de um certo ativismo, útil a variados interesses – de chances a apoio em projetos financiados pelas estatais a convites para viagens à Brasília para participar de conferências e seminários que terminam com a mesma conclusão: realizar outros, sem nenhuma ação ou eficácia para quem de fato precisa de políticas públicas – a maioria da população negra.
A ministra Matilde sabe, ou pelo menos devia saber, que errou. Não pelo que disse – o óbvio. Mas, pelo que não disse. Ao afirmar ser natural que negros não gostem de brancos por conta dos 350 anos de escravismo, acrescentou zero ao debate qualificado. Deu pretexto para uma opinião pública que reproduz o racismo por ignorância e por nossa ineficácia, e para os ideólogos neo-racistas que querem manter a ferro e fogo o mito/mentira da democracia racial. Eles existem e atendem pelos nomes, neste momento, de Ali Kamel, Peter Fry, Demétrio Magnoli , Manolo Florentino, e Ivone Maggie – os quatro cavaleiros e a dama do apocalipse do Brasil sem a democracia racial que eles pregam, mais por crença, do que por convicção.
Têm prestígio acadêmico em variados círculos e poderosas tribunas como a Rede Globo, a Folha de S. Paulo, O Globo, os principais veículos da mídia no país. É um poder de fogo que não pode ser subestimado.
A ministra perdeu a oportunidade de não remeter para o campo das relações interpessoais uma questão que é social e política. Ao fazê-lo, despolitizou o debate, “reduziu o problema do racismo no Brasil ao domínio dos afetos sendo o tema mais complexo”, como bem disse Sueli Carneiro, em artigo postado nesta Afropress. Ora, brancos, negros, amarelos, indígenas, podem ou não gostar, conviver com quem quiserem, por diferentes razões. Mas, não é disso que se trata. O que não podem é praticar discriminação, porque isso é crime e, no caso do racismo, crime inafiançável e imprescritível de acordo com a Constituição.
Perdeu Matilde, portanto, uma excelente oportunidade não apenas para elevar o debate, como também para não armar os nossos inimigos, que não são poucos, ávidos por qualquer oportunidade para jogar uma cortina de fumaça sobre o que de fato interessa e areia nos olhos da população negra.
Ao despolitizar o debate e prestar um serviço aos nossos inimigos, também jogou no ar a idéia – igualmente falsa – de que a desconstrução do racismo no Brasil é um assunto só para negros. É falso. A menos que a ministra considere que não existem brancos anti-racistas, ou que os indígenas, não sejam nossos aliados – o que é contraditório com o discurso público que adota à frente da Seppir. Ou que advogue a idéia de um país binacional – de um lado negros, de outro os brancos, o que seria demonstração de miopia histórica, e não apenas equívoco ideológico.
Sim, temos – e não são poucos – aliados entre os brancos, entre os indígenas, entre os árabes, em todas as camadas da população, e devemos estar abertos à sua participação cada vez maior na tarefa comum de botar abaixo o edifício do racismo, a partir da ação social e política liderada e protagonizada pelo povo negro.
Ao invés de declarações vazias, que mais ajudam os nossos inimigos e dão ensejo para oportunismos de todo o tipo, a ministra prestaria um melhor serviço ao país e ao povo negro, se liderasse no interior do seu próprio governo a luta para que a sociedade brasileira entenda o porque, 119 anos após a Abolição:
– empregados negros continuam ganhando menos do que os brancos – até 50% menos, dependendo da região do país;
– há mais desempregados entre os negros do que entre os brancos nas várias várias regiões metropolitanas;
– negros têm 2,2 anos a menos de escolaridade média do que os brancos, desde 1.929;
a indigência é 70% negra, embora representemos 49% da população, segundo o último estudo da Fundação Seade, com base na PNAD 2005;
– porque as mulheres negras têm ainda maior desemprego e menor renda que os homens negros;
o esgoto e a água tratada vão menos a lares negros do que a lares brancos
– porque a expectativa de vida para negros é, em média, seis anos menor do que para brancos;
– porque, de acordo com Estudo da ONU, 70% dos jovens na faixa etária entre 15 e 24 anos, vítimas de homicídio no país, são negros.
Quanto às lideranças negras, também prestariam melhor serviço à luta pelo fim do racismo, por democracia e por justiça para o povo negro, há séculos submetido à condição de não cidadania, se, ao invés de gastar tempo e tinta para criar factóides, caíssem na real e se dessem conta de que no Brasil real, enquanto isso:
– estudantes africanos são vítimas de atentado monstruoso de óbvia conotação racista, sobre o qual essas mesmas lideranças silenciam e calam, quando não corroboram o esforço da reitoria, da polícia e da mídia, numa “Operação Abafa o Caso”, denunciada por esta Afropress, que provocou a reação até mesmo do Ministério Público de Brasília;
– que está para ser julgado o caso do primeiro acusado de prática de crime de racismo na rede mundial de computadores – o estudante Marcelo Vale Silveira Mello -, não por acaso também estudante da UnB;
– que está mofando em alguma gaveta da Universidade de Brasília, em mãos de uma Comissão de professores designados pelo Reitoria para investigar o caso do professor Paulo Kramer, de Ciências Polícias, acusado por alunos de racismo, por se referir aos negros de forma depreciativa, como “crioulada”;
– que todos os dias, pelo menos um jovem negro morre vítima da violência, seja da Polícia, seja do tráfico;
– que o educador Roberto Delanne está, há um ano desaparecido, sem qualquer explicação de autoridades do Estado do Rio de Janeiro;
– que o Estatuto da Igualdade Racial – que sintetiza as reivindicações históricas do Movimento Negro brasileiro – mofa desde 1.995 em alguma gaveta do Congresso;
– que todos os dias, em qualquer cidade deste país, grande ou pequena, média ou metrópole, negros e negras, homens, mulheres e crianças, são humilhados e vilipendiados pela desemprego, pela violência, pela exclusão.
Como se pode ver, não é por falta do que fazer….