No bate-papo descontraído com o jornalista e editor de Afropress, Dojival Vieira, Evaristo, que por 10 anos fez o Saci do Sítio do Pica-Pau Amarelo, considera que a polêmica em torno do livro "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, é positiva.

"Eu acho ótimo quando você consegue mexer com uma obra que fala daquilo que Monteiro [Lobato]…, à época era o que ele achava. Era o que o povo sempre pensou. E Monteiro não ia ser diferente. Só que agora ele está sendo questionado porque é diferente. E isso é bom prá gente. Você está sendo conduzido para uma situação e se colocando numa pauta da situação. Sabe o que eu fazia? [lembrando o personagem Saci do Sítio] Eu chamava a Dona Benta de Dona Coisa. Ele era duende, desrespeitava ela também", recorda.

A conversa, transformada em entrevista, aconteceu no hall do Hotel Saint Peter, em Brasília, durante a realização do Seminário Internacional "Herança, Identidade, Educação e Cultura: gestão de sítios históricos ligados ao tráfico negreiro e à escravidão", promovido pela Unesco e Fundação Palmares, no mês passado. Evaristo falou da sua infância pobre, de como virou o Saci, no Sítio do Pica-Pau Amarelo, de como a fama e o sucesso do personagem o levaram à França, e da paixão por cinema.

Ele também contou como acabou com uma reunião do Condomínio do prédio onde mora no Recreio dos Bandeirantes, no Rio, ao perceber que a reunião fora convocada por moradores incomodados pelo fato dele morar numa cobertura. "Num certo tempo da reunião eu pedi a palavra e disse: “olha eu tenho certeza que existe uma questão aqui, porque a cobertura que eu comprei é linear, mas com todos os compartimentos idênticos aos apartamentos que abaixo estão, que é a coluna do banheiro, que é a coluna da cozinha, só que eu moro em cima. Quero encerrar a reunião”.

Com contrato com a TV Globo até o final deste ano, Evaristo revelou um segredo pouco conhecido: ele também é jornalista formado pela Faculdade Centro Unificado Profissional, do Rio, desde o final de 1.979, graças a uma Bolsa de Estudos que recebeu da família Marinho, no segundo ano do Sítio do Pica-Pau. "A condição era que eu não podia repeti. E eu passei". Também gosta de poesia e se arrisca como no poema "O Coração", transcrito abaixo e dito de improviso, ao encerrar a entrevista.

Leia, na íntegra, a conversa-entrevista entre o editor de Afropress e Romeu Evaristo, o Angolano.

Afropress – Eu queria que você falasse um pouco da sua história de vida e como artista, é claro.

Romeu Evaristo – Olha só, é muito engraçado. A minha estória de vida pode ser resumida assim: eu fui um menino, minha vó era lavadeira. Aos 9 anos eu levava roupa para a Urca, que é um bairro lindíssimo do Rio de Janeiro até hoje, e eu começava a questioná-la porque eu passava pela estação…saia de Caxias na Baixada, passava por Vigário, Olaria, Bonsucesso e chegava a Leopoldina, que era uma estação inglesa, porque eu não morava mais perto. Ela me falou: "meu neto, era o único lugar que nós negros poderíamos comprar três ou quatro lotes na época. Porque aqui era caro". E quando eu voltava, eu levantava muito cedo, que eu voltava da Urca, eu sempre pedia um bolo a ela. A estação Leopoldina tinha uma delicatessen, que vendia essas coisas que criança gosta, balas etc. Eu pedi e ela falou uma coisa prá mim: "Meu neto, você tem de estudar, porque tem o seguinte…

Afropress – Como chamava ela?

Evaristo – Dona Eugênia Evaristo Antônio.

Afropress – Você foi criado por ela?

Evaristo – Ela me adorava. Eu morava com minha mãe, mas minha avó, eu acompanhava, né? Eu até sei porque essa relação dos bantus com a avó que é a última geração da terra. E ela falou assim prá mim: “vou comprar esse bolo prá você. Vovó vai comprar manteiga que você gosta quando chegar em Caxias… mas quando eles dizem que o dinheiro é o diabo, meu neto, sem dinheiro é o diabo três vezes”. Eu nunca mais esqueci disso.

Afropress – Quantos anos você tinha?

Evaristo – Eu tinha 9 anos. Ela tinha 60 anos.

Afropress – Ela é viva?

Evaristo – Não. Minha avó é falecida, mas eu tenho essa interligação sempre com minha ela. Ela viu minha mãe ouvir no rádio que precisava de um garoto prá ser boy na televisão. Na época era TV Educativa, em 1.973. Minha mãe falou assim: "vá lá". Eu gostava só de bola. Ela falou: "vá lá, tente começar sua vida estudando, trabalhando". Quando eu fui eu passei no teste para ser ator. Era um boy numa novela chamada João da Silva. 

Afropress – Da primeira vez?

Evaristo – Primeira vez, sem saber. Um teste com oitenta e poucos candidatos. Era um teste assim improvisado.

Afropress – Com 9 anos?

Evaristo – Não, eu já tinha 15 prá 16 anos.

Afropress – Mas, você tinha vontade de ser ator?

Evaristo – Eu fazia coisas no colégio. Eu nunca pensei que seria, essa coisa da vida, da natureza, conduzindo você ao que ela deseja. Eu acredito que seja issa a relação do homem e o artista. Quando eu cheguei na porta, me disseram: "aqui tem um teste para ser boy, mas não é prá ser boy da TV Educativa, vai ser boy de uma novela que vamos ter aqui". Eu tomei um susto.

Afropress – Como chamava a novela?

Evaristo – João da Silva, 1.973.

Afropress – Em plena ditadura?

Evaristo – Em plena ditadura. Quem mandavam eram os ditadores. O Governo era do Médici. Emílio Garrastazu Médici. E eu passei nesse teste para fazer uma novela didática, para ensinar. Um ano e pouco depois, quando eu vi, eu ganhava um dinheiro fortíssimo, oito meses a novela acabou. Falei: “vovó. Que emprego é esse que eu fico rico, fico pobre?” Dei um salto de qualidade, depois fiquei a zero. Aí eu fiz um curso de televisão e consegui ser operador de telecine. Tinha 17, 18 anos. Com dezoito, eu passei na faculdade, trabalhando, mas eu já gostava de ser ator. Você tem o gostinho. E o sítio era editado na TVE tchiriuuiruriru [imita o fundo musical do Sítio do Pica-Pau Amarelo]. Pô tenho a maior vontade de trabalhar aí. Você sabe que num belo dia, o falecido Cazé mandou um rapaz me chamar porque tinha me visto, porque o Saci que veio fazer não decorava. E precisava urgentemente, ele ser dublê meu, e eu não fiz teste, entrei no sítio e deu essa coisa aqui?. Só Deus sabe. Fiz o saci que explodiu.

Afropress – Ficou muito tempo, né?

Evaristo – Fiquei 10 anos fazendo o Saci.

Afropress – Você tem ideia de quantas gerações de crianças acompanharam o Sítio do Pica-Pau Amarelo na TV?.

Evaristo – Não tenho, não, mas foi o primeiro programa que a Unesco pegou e falou assim. E um Prêmio mundial. E a Unesco deu um prêmio agente de programa infantil, em 1.978.

Afropress – Aí a vida mudou, não é, obviamente?

Evaristo – Mudou, mudou tudo. Não foi fácil não. Um garoto da Baixada, ficar famoso. Fui chamado prá fazer uma série na França, que eles tinham me visto. Fui morar na França, fiquei um ano e oito meses em Paris. Rodei a Europa. Imagine um ano e oito meses, eu ter de voltar à Caxias, o choque cultural que eu tive.

Afropress – E as crianças, Romeu, como se relacionavam com você, te reconheciam? Como era isso?

Evaristo – Eu tive a coisa mais linda, que eu não podia ir [numa festa de fim de ano no Maracanã]. Era o dublê que ia, o dublê sem perna que veio da Bahia, ela iria fazer o sítio. Ele ficou meu dublê por isso.

Afropress – O que não decorava?

Evaristo – Era. O Genivaldo, Genivaldo dos Santos. Correndo era ele, da cintura prá cima era eu. E um dia, eu não podia ir ao Maracanã, que as crianças tinham aquela coisa de eu sem perna. Então, estava ouvindo no rádio: "entrou o Sítio do Pica-Pau Amarelo". Eu ouvi no rádio, eu escutava no rádio: "Saci!!!"! Eu, de casa, de fora, ouvindo. Meu Deus. É muita gratidão, você conseguir atingir…

Afropress – E depois você fez alguma novela?

Evaristo – Depois do Sítio eu fiz Sinhá Moça, a primeira versão.

Afropress – Qual o papel?

Evaristo – Eu fiz um escravo fujão. Depois eu fiz Hipertensão, na TV Globo. Fiz Araponga. Aí eu fui prá Manchete, fiz Chica da Silva, a novela que estourou, fiz o Damião. Aí voltei prá Globo, fui prá Zorra.

Afropress – Você sabe que o Jefferson De, nosso amigo, que é diretor negro dos mais importantes, premiado com Kikitos com o filme Broder no Festival de Gramado, tem um projeto de filmar Chica da Silva, uma grande produção. Você vai participar?

Evaristo – Ele já falou comigo, me prometeu em Portugal. Nós viemos do Senegal juntos: Falou: ”Romeu, tem um papel prá você na Chica”. Tomara Deus que Jefferson consiga.

Afropress – E aí Romeu como é que surge a tua veia de comediante?

Evaristo – A necessidade. Eu descobri como é que eu ia fazer. Eu tinha minha filha Dandara. Deus é tão generoso comigo…A meniina nasceu em 13 de maio de 1.988, parto normal, sexta-feira, 13, Abolição dos Escravos, 100 anos, única do ano, Nossa senhora de Fátima. Então, quando minha filha nasceu, eu tinha uma responsabilidade de educá-la. Eu não podia fazer uma novela de seis em seis anos, fazendo um escravo que eu não podia me manter, quando Chico Anísio viu que eu tinha uma veia humorística e me levou para Estados Anísios de Chico City. E eu percebi que, a partir dali, eu podia ficar anos fazendo humor, que era uma opção de artista, prá mim ter condição de sobrevivência e virei um humorista, que não sou.

Afropress – A tua caracterização do Angolano é maravilhosa. Com o Chico você ficou quanto tempo?

Evaristo – Com o Chico fiquei uns três anos. Eu fiz os Estados Anísios de Chico City.

Afropress – No Zorra você está…

Evaristo – Doze anos.

Afropress – Como surge o Angolano? 

Evaristo – O angolano eu vou contar como é que foi. Em 1.985, o Martinho [da Vila] me levou prá Angola. Quando cheguei a Angola, nós ficamos 18 dias, rodamos aquelas províncias todas. Na volta, eu vi, estava toque de recolher, país em guerra, eu fui tirar foto de um avião no aeroporto todo calcinado e nisso chegou um negão de dois metros e falou assim: “você é maluco? Você é angolano?. Daí-me rolo, pá? Daí-me rolo!!! [fala imitando o personagem].

Afropress – Que é rolo?

Evaristo – Rolo era o filme. Um dia trabalhando com o Tom Cavalcante, falei assim: “vou fazer hoje o Angolano. Eu sou o Angolano. Angolano, sou de Luanda!!" É isso aí. Por que o Angolano tem essa coisa , que vocês gostam?

Afropress – Porque, primeiro a sensação que agente tem é que você encarna, você entra no personagem de uma forma maravilhosa. É muito bem feita a caracterização e é muito engraçada também. Quais são os planos prá frente?

Evaristo – Olha só: o Fala Crioulo, que é uma peça do livro do Haroldo Costa, que nós vamos contar a nossa história no Teatro, do preconceito, da invisibilidade, da falta de cidadania… Mas, o coração sempre sorrindo, que é isso que nós precisamos.

Afropress – Você, além de ator, começa com o Sítio, depois faz esses trabalhos todos na Globo, hoje você incorporou, você assume-se como comediante, não é?

Evaristo – Assumo, mas sabe porque eu assumo porque o cinema … Eu acabei de fazer o filme Aro filho – o criador de multidões, em que eu falo um texto de Gilberto Freire. O cinema me coloca numa causa, muito mais intelectual do que a comédia que eu faço. Porque o cinema acredita que eu faço aquilo e acredita que eu faço isso aqui também.

Afropress – Você gosta de fazer cinema?

Evaristo – Eu adoro. Eu vou te falar com honestidade, quando a França me levou prá fazer cinema… Eu amo cinema. O processo artesanal do cinema me fascina. Você imagina um garoto com 16 anos ir para Paris, ir para Bordeaux, andar a Europa filmando. Tinha uma pessoa para tirar o sobretudo, isso fica na sua essência.

Afropress – Você fez o Saci durante 10 anos, como é que você vê essa polêmica em torno de Monteiro Lobato?

Evaristo – Eu acho ótimo quando você consegue mexer com uma obra que fala daquilo que Monteiro [Lobato], à época era o que ele achava. Era o que o povo sempre pensou. E Monteiro não ia ser diferente. Só que agora ele está sendo questionado porque é diferente. E isso é bom prá gente. Você está sendo conduzido para uma situação e se colocando numa pauta da situação. Sabe o que eu fazia: eu chamava de Dona Benta de Dona Coisa. Ele era duende, desrespeitava ela também.

Afropress – Essa consciência que você tem, ela sempre existiu, ou ela surgiu em função de alguma coisa específica. Como é que despertou isso?

Evaristo – Quando você começa a saber que você tem que ter espada de S. Jorge.

Afropress – E isso significa na prática o que?

Evaristo – Olhar prá frente e caminhar prá frente. Porque eles sempre acham que montar em você é andar com você. Não preciso disso. Eu sei andar, sei caminhar. Tenho meus desejos, minhas solidões, humanas. Então, me olhe.

Afropress – Em 2010, o IBGE depois de 1.872, o Brasil viveu até 2010, com a percepção de que era um país majoritariamente branco, passando pela política de branqueamento, pela ideia de que os negros em 2011 já não existiriam mais, e de repente vem o IBGE e diz que nós somos maioria no país. Qual é a realidade que você, como artista, vê hoje, essa maioria e a luta pela conquista dos espaços em todos os campos.

Evaristo – Me preocupa um pouco. O mapeamento do Rio, eu fui criado na Baixada, um reduto negro, um negro, Vigário Geral, Parada de Lucas… no que se aproxima da cidade é a camada branca; no que se aproxima da praia é a camada inglesa; no que se aproxima do morro é a camada negra; o que vem da periferia é a camada parada. O que aconteceu? Hoje a camada parda está tomando conta do entorno do RJ, que são os morros, que são os nordestinos, que é a Rocinha, o Vidigal, o Terreirão, entendeu?, que não tem negro. Onde os negros estão? Belfort Rocho… É essa visibilidade você tem de anunciar prá eles. Você tem que ensinar, porque senão o Rio é a orla em que estou inserido que é pouco. Eu sou uma azeitona preta e toda a orla é deles, que não é nossa, nós só servimos.

Afropress – Ou seja, as funções continuam as mesmas, nós continuamos nos papéis subalternos, serviçais, empregadas domésticas.

Evaristo – Claro, claro. E a camada parda vai passar a negra, hein? Por que? Você vem do norte e nordeste, a mistura. Você olha a criminalidade da televisão é parda.

Afropress – No teu histórico, na tua trajetória aconteceu algum episódio em que você tenha se dado conta: “esse espaço me está sendo vedado”.

Evaristo – Eu tenho uma passagem de muito valor em minha vida, porque em 1.993, eu comprei uma cobertura. Eu moro numa cobertura, no Recreio dos Bandeirantes, graças a Deus, eu não tenho o que reclamar, porque eu sei que é bom e gosto do que é bom. E eu lembro que na década de 90 eu comprei uma cobertura no Grajaú, um bairro militar, preconceituoso à beça, aí teve uma reunião para discutir a minha cobertura. E eu quieto, eu sabia que era uma questão racial. Como é que esse negro vai morar em cima? Aí, num certo momento da reunião eu pedi a palavra eu falei: "eu comprei essa cobertura de um donos do Hotel Guanabara, uma pessoa conhecida no Rio, na Presidente Vargas, me adorou e vendeu a cobertura. Aí, num certo tempo da reunião eu pedi a palavra e disse: “olha eu tenho certeza que existe uma questão aqui, porque a cobertura que eu comprei é linear, mas com todos os compartimentos idênticos aos apartamentos que abaixo estão, que é a coluna do banheiro, que é a coluna da cozinha, só que eu moro em cima. Quero encerrar a reunião”.

Afropress – Acabou a reunião?

Evaristo – Claro. Eu não discuti preconceito. Eu já comprei.

Afropress – E na televisão?

Evaristo – Desde o Sítio eu tenho uma imagem muito marcante na televisão. E a televisão tem uma coisa do que ela precisa: a televisão é um supermercado. Ela vende o que ela precisa. Como ela me vende quando ela precisa, eu também não posso falar mal dela. Mas, vou te falar a verdade: não é a televisão. São algumas pessoas que fazem televisão. A televisão é ótima. Dá espaço prá todo mundo. Mas, você sabe que num produto é eu que tomo conta, agente não tem maioria.

Afropress – Você acha que tá mudando?

Evaristo – Bastante.

Afropress – As novelas, os núcleos negros parecem marcianos, eles não tem família. Cadê a família desse pessoal, não tem filhos não tem pai, não tem mãe?

Evaristo – Nós sabemos que a rota do escravo é isso. Não deixam a gente formar a história. Eu estou te contando a minha estória que vai ser ótimo, era o que mais queria, você vai botar nessa mídia. Que é um processo excelente, porque aí você bate a verdade ou mentira. É verdade, e a verdade é pauta, bróder.

Afropress – Você sabe de uma coisa, rapaz, apesar do sucesso que você faz, você está na televisão desde os 15, 16 anos – 10 anos de Saci, 12 anos de Zorra é um quadro de sucesso no Zorra, não enjoa. O que tem de gente te imitando, virou um clássico, eu nunca vi uma matéria contigo…

Evaristo – O Angolano estourou, eles não deixaram… Claro, agora você falou no que eu queria, imagina o Romeu brasileiro representar com essência um africano. O Jô Soares não vai gostar de me vê, não vai gostar que eu fale isso. O Jô não me conhece? Claro que conhece.

Leia o poema de Romeu Evaristo

O Coração Quando eu caminho e vejo o céu/ Céu de Brasília/ Vejo o conjunto do universo educacional/ A juventude/ Quando eu penso que a negritude é a metade dessa Educação Que Deus ilumine todo o resto do mundo.

Da Redação