Afropress – A opção pela crônica é definitiva ou apenas uma pausa em seus escritos
mais sintonizados à luta pela igualdade racial e contra o racismo. Ou será uma forma nova de travar essa mesma luta?
Cidinha da Silva – Faço diversas coisas, escrever ficção é mais uma delas. Outro dia, a Conceição Evaristo me deu um conselho. Sugeriu que eu não me preocupe com o gênero literário, que escreva, reescreva os textos, reescreva-os outra vez e torne-os cada vez melhores. E assim tenho procedido. Penso que a literatura e a arte em geral ampliam as perspectivas da gente e também o alcance da nossa voz.
Afropress – As suas crônicas revelam um estilo de contadora de histórias. É herança
de Minas e dos antepassados?
Cidinha – Eu descobri que não sei contar histórias oralmente, mas quando escrevo, parece que sei. Talvez seja um jeito de compensar esse não saber. Não sou como a Paulina Chiziane, uma neta de contadora de histórias, tampouco reconheço esse dom na minha família. Tenho, sim, uma memória ancestral, da qual me valho. Muitos detalhes guardados nas reminiscências da boa observadora que sou. Isso, somado a muita leitura e ao trabalho técnico de composição dos textos, escritura e reescritura, resulta na criação de personagens, desenvolvimento do foco narrativo, na formatação do texto literário, enfim.
Afropress – Quais os desafios para o Movimento Negro hoje em S. Paulo e no Brasil?
Cidinha – A meu juízo, os desafios do Movimento Negro no Brasil de hoje passam pelos caminhos de transformação da maioria social que votou em Lula no primeiro turno, oriunda das regiões Norte, Nordeste e rincões do Sudeste e Centro Oeste, em maioria política, com poder de decisão. Aí viraremos a mesa do jogo. Devemos explicitar os conflitos raciais cada vez mais. Desnaturalizar as práticas discriminatórias e os lugares de subalternidade produzidos e cristalizados por elas. Fortalecer as organizações negras e assim, ampliar sua capacidade de diálogo, de reivindicação, de negociação política e transformação das assimetrias raciais que nos fundamentam como povo brasileiro. Precisamos aprovar o Estatuto da Igualdade Racial e garantir recursos nos orçamentos de governos para as políticas públicas de combate ao racismo e promoção da igualdade racial.
Afropress – Como você analisa a performance das candidaturas negras nas eleições de
1º outubro?
Cidinha – Parece ter havido uma retração da capacidade de conquistar representação no legislativo, por parte dos movimentos sociais. As mulheres, por exemplo, só não tiveram sua bancada diminuída, porque o Norte do Brasil surpreendeu com a eleição de 13 mulheres. Só o Amapá elegeu 4. São Paulo elegeu apenas 3. Dentre estas, Luíza Erundina é a única com fortes raízes plantadas no movimento social. Quanto às mulheres do Amapá, não conheço o perfil político das eleitas, vale a pena pesquisar. Verificou-se também a não-eleição de candidatos/as progressistas, mesmo aqueles que têm alta exposição na mídia, tais como a vereadora Soninha (cronista esportiva, dentre outras funções), candidata à Assembléia Legislativa em São Paulo. A votação recebida por ela, em todo o Estado, três anos após ter entrado para a Câmara Municipal, pós-mandato elogiado e pós-cobertura da Copa Mundo 2006, portanto, depois de altíssimo nível de exposição na mídia, significou quatro ou cinco mil votos a menos do que quando se candidatou à vereança. Gosto deste exemplo porque ele nos ajuda a perceber as coisas como elas são e a baixar a bola da nossa super expectativa em relação ao desempenho das candidaturas negras, estruturalmente fragilizadas pela falta de recursos financeiros e humanos, apoio institucional e inserção nos meios de comunicação.
Afropress – Você não acha que o Movimento Negro está precisando de lideranças políticas com capacidade de articular da Academia à periferia com um programa capaz de mobilizar todos os que lutam contra o racismo e pela igualdade?
Cidinha – Eu não concordo com o enunciado da pergunta, ou seja, temos as lideranças que merecemos e somos capazes de engendrar, ponto. Não acredito em lideranças messiânicas, salvadoras da pátria, avatares da transformação. Não acredito mesmo. Somos humanos, falíveis, nos deslumbramos com o brilho enganoso do poder, ou da aspiração ao poder, como quaisquer outros. Há setores negros, descolados do Movimento Negro tradicional, que têm mobilizado e articulado milhares de pessoas em torno de propostas de intervenção. O Movimento Hip Hop é o principal exemplo. Entretanto, no plebiscito de 2005, sobre a proibição do tráfico de armas e munições, grupos poderosos, como os Racionais MCs, não obtiveram sucesso para mobilizar os jovens pelo SIM à proibição da venda legal de armas e munições. Parece-me então, que a complexidade da questão é maior, ultrapassa a suposta inexistência de lideranças negras competentes.
Afropress – No ano passado houve a divisão das duas Marchas? Por que a dispersão
continua a ser a tônica?
Cidinha – Novamente, discordo do enunciado da pergunta. Houve uma Marcha Zumbi mais 10, a de 16 de novembro de 2005, que analisou os dez anos da Marcha Zumbi dos Palmares Contra o Racismo, Pela Cidadania e a Vida. Esta foi parte de um processo histórico anterior que a havia produzido a Marcha de 1995 e configurou a de 2005. A outra não foi Zumbi mais 10, simplesmente porque ela não aconteceu em 1995. Seus protagonistas, naquele ano, realizaram em São Paulo, um certo encontro Afro-Indígena das Américas, no Memorial da América Latina, em São Paulo, exatamente na data da Marcha Zumbi dos Palmares, realizada em Brasília. Por coerência histórica, aquele grupo deveria ter avaliado o que aconteceu dez anos depois do tal encontro Afro-Indígena idealizado por eles. Explicitei em detalhe estas idéias no texto “Chegou a hora e a onça bebeu água”, publicado na seção “colunistas”, deste Afropress.
Afropress – Apesar do avanço em relação às ações afirmativas e as cotas (30
universidades já adotaram) como você vê a ausência desse debate na campanha eleitoral deste ano?
Cidinha – Se voltarmos nossos olhares para a campanha presidencial de 2002, veremos que o debate só ocorreu graças ao deslize do candidato Ciro Gomes, em Brasília, quando negou a palavra a um jovem negro do grupo EnegreSer que queria lhe fazer uma pergunta sobre cotas. O então candidato afirmou que não lhe daria voz “só porque negro é lindo” e mais, disse que o racismo existia porque os negros tinham esse tipo de postura, de privilégio ou exceção, uma insanidade. Depois, no último debate do segundo turno (ou teria sido do primeiro, não me lembro), realizado na Rede Globo, perguntou-se aos candidatos a opinião de cada um sobre a adoção de cotas. Nas eleições anteriores o tema sequer foi ponto de pauta. A lógica que orienta a estruturação das pautas de campanha não mudou. O racismo estrutural ainda nos impede de figurar centralmente na discussão. Para eles, a temática racial ainda é periférica.
Afropress Por que não foi feita avaliação da Marcha Zumbi + 10 do ano passado?
Cidinha – Creio que talvez não tenha sido feita uma reunião de avaliação, como aconteceu com as reuniões preparatórias, com o deslocamento de pessoas para um mesmo lugar, etc. E aí, a mesma falta de apoio financeiro para a realização da Marcha se verificou outra vez. Entretanto, o processo vem sendo permanente avaliado, desdobramentos têm acontecido e, o principal veículo impulsionador desse processo é o jornal Irohin.
Afropress – O Movimento Brasil Afirmativo propõe a realização da Parada Negra em 20
de Novembro. O que você acha disso?
Cidinha – Acho importante e necessário que recuperemos uma tradição de manifestações públicas no 20 de novembro, e que isso tenha escala nacional.
Afropress – E a luta pela aprovação do Estatuto da Igualdade e do PL 73/99. Como
você vê a iniciativa de levar essa luta para as ruas, adotada pelo Movimento Brasil Afirmativo, como estratégia de pressão sobre o Congresso para aprovar o Estatuto e o PL 73/99?
Cidinha – Da mesma forma, importante e necessário. A mobilização da população negra que está fora das organizações negras configura-se como um grande desafio que, quando respondido, impactará positivamente a luta contra o racismo.

Cidinha da Silva