Afropress – Quais são os planos para sua gestão como presidente?
Zulu Araújo – A Fundação Palmares é a primeira instituição do aparelho de Estado brasileiro. Pretendemos que a Palmares se transforme num instrumento de implementação de políticas públicas na área da cultura, estabelecendo um diálogo amplo, aberto, sincero, com todos os setores da sociedade.
A comunidade negra brasileira conquistou um conjunto de vitórias importantes para a luta contra o racismo. Consolidamos algumas conquistas fundamentais. Precisamos agora concretizar isso, que já está consolidado, e pretendemos fazer isso por intermédio do diálogo com outros órgãos do Estado, Sindicatos de professores, com vistas a implementar a Lei 10.639 e, principalmente, com setores da sociedade. O conflito, o confronto ou mesmo a insurreição, não está no horizonte, hoje, no Brasil. Precisamos convencer, sensibilizar, e o instrumento é o diálogo.
Afropress – Quais os setores que você considera privilegiados nessa interlocução?
Zulu – Por exemplo, é preciso que a Fundação Palmares estabeleça um diálogo urgente com a Radiobrás, para que isso sirva de exemplo para a inclusão do negro na mídia do Brasil. Precisamos dialogar com os setores privados da mídia brasileira – a TV Globo, a TV Record, entre outras. Não queremos a nossa inclusão como favor ou de forma episódica, mas que isso faça parte de sua programação. Não devemos querer ditar como a mídia deva se comportar, mas exercer o diálogo.
Vamos também buscar um acordo com a as TVs públicas – TV Câmara e TV Senado, especialmente – para que o tema da cultura negra esteja presente na grade da programação em âmbito nacional. A Palmares venceu a etapa de ser a caixa de ressonância, deve estar preparada para ser interlocutora da comunidade negra, na área cultural, por meio do diálogo com todos os setores.
A palavra chave é: diálogo, ao lado da firmeza, da dedicação e da seriedade, que são uma obrigação.
Afropress – Que papel terá o IPHAN nesse diálogo?
Zulu – Se admitimos que a questão negra é algo transversal, isso precisa ser exercido. A Palmares é uma instituição pública do aparelho de Estado brasileiro. Devemos ter parcerias com o IPHAN, para a proteção do patrimônio histórico; com a Secad, com as comunidades tradicionais brasileira e de defesa das religiões de matriz africana, com as comunidades quilombolas. A cultura negra é hegemônica no Brasil pela riqueza, pela qualidade que ela possui. Mas é preciso estabelecer que a responsabilidade pelo fomento à cultura negra não é só da Palmares. Devemos avançar para que os editais para projetos para a Petrobrás, para a Caixa Econômica e para a Funarte, contemplem a preservação da cultura negra. Devemos fazer a defesa da cultura enquanto símbolo, a cultura enquanto economia, enquanto direito de cidadania.
Afropress – Dê um exemplo de como essa dimensão não vem sendo aproveitada.
Zulu – Por exemplo, o carnaval da Bahia. A apropriação econômica do carnaval da Bahia é de uma crueldade feroz. O que sobra para o povo negro são as cordas dos blocos e os isopores no meio da rua. Devemos ter uma presença inclusiva. O nosso caminho não é o gueto. Precisamos agregar valor à cultura negra e fazer com que ela circule com a mesma desenvoltura, sem preconceitos. Não devemos jamais esquecer que a Palmares é parte do aparelho de Estado brasileiro.
Afropress – E com relação às parcerias na Educação?
Zulu – Queremos dar continuidade à integração entre Educação e Cultura. Queremos trabalhar, aprimorar a integração, para a implementação da Lei 10.639, por exemplo. Queremos também dar continuidade à nossa relação com o continente africano. O Festival África/Brasil que já foi realizado deve ser ampliado para países como Mali, Nigéria, Burkina Fasso. O Festival de Cinema de Burkina Fasso, por exemplo, é um dos mais importantes do mundo e no Brasil ninguém conhece. Precisamos dar conseqüência ao fato de que o Brasil é a capital da Diáspora Negra no Mundo.
Afropress – Como parte de uma política de maior aproximação com o continente africano, que outras iniciativas você pretende tomar?
Zulu – Queremos implementar o Centro Internacional de Referência da Diáspora Negra. Várias Universidades brasileiras, e eu cito a Universidade Federal da Bahia, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Universidade Federal de Minas Gerais, entre outras, já tem acúmulo para isso. Queremos fazer isso de forma articulada, com uma compreensão contemporânea, moderna. Devemos nos esforçar para que seja realidade uma parceria entre o Ocidente e o continente africano, no sentido de evitar a reprodução de estereótipos, segundo os quais a África se resume à miséria, fome, Aids, guerra e corrupção. É preciso conhecer o que a África tem de moderno, de comtemporâneo e não esquecer que ela, como está, é também fruto de todo o processo colonial, do qual o ocidente se beneficiou.
Afropress – Qual o orçamento da Fundação Palmares para este ano?
Zulu – Esse ano teremos um orçamento de R$ 23 milhões. Isso ainda é pouco, mas representa um aumento de cerca de 120% em relação ao orçamento anterior. Quando chegamos o orçamento era de apenas R$ 6 milhões.
Quero destacar que, nesse período, aumentou a sensibilidade do Congresso em relação aos nossos problemas. A resposta que tivemos foi muito positiva, por parte do Congresso. Vários parlamentares apresentaram emendas em defesa da cultura negra.
Afropress – Como você responde a crítica feita por largos setores do Movimento Negro de que a Fundação Palmares está muito voltada para a Bahia?
Zulu – Primeiro, dizendo que essa crítica é real. Tem sentido. Mas, também é preciso que se diga que quando chegamos à Fundação Palmares, 75% do seu orçamento estava voltado para o sul/sudeste. Cito como exemplo, uma cidade de Minas, se não me engano, Uberaba, para a qual foram destinados cerca de 2/3 dos recursos do orçamento.
Houve uma inflexão para o nordeste, não apenas para a Bahia. É preciso que se lembre, que 42% da população negra brasileira está no nordeste.
Pretendemos retomar os contatos com o Rio e com S. Paulo. Teremos um diálogo especial e já estou pautado para reuniões com lideranças da comunidade negra em S. Paulo e no Rio, que são Estados que tem dimensões de país.
Afropress – Você pretende se compor com os dois candidatos que disputaram o cargo ( Hilton Cobra e Juarez Tadeu)?
Zulu – Com relação aos dois candidatos, busquei sempre esse contato, no período em que ambos se apresentaram pleiteando a presidência da Palmares, porém não tive sucesso. Vou retomar os esforços nessa direção. Tratarei a todos de forma republicana. Não haverá problemas. A nossa atividade será para todos.
Afropress – Qual é a estrutura da Fundação Palmares?
Zulu – A presidência e mais duas diretorias.
Afropress – Com relação às representações da Palmares?
Zulu – Nossa intenção é ampliar para, pelo menos, sete Estados brasileiros. O Rio e S. Paulo merecem uma representação. O Norte merece, o sul merece, o Rio Grande do Sul, especialmente, e também queremos ter uma representação na Serra da Barriga, no Estado de Alagoas. Se estamos querendo nos consolidar como uma instituição nacional, devemos ter presença pelo menos nas regiões.
Afropress – Como será a relação com a Seppir?
Zulu – A relação com a Seppir foi boa, mas não o suficiente. Queremos que ela seja mais articulada nesta gestão, fruto do nosso amadurecimento mútuo, resultando numa ação concatenada, acordada. O nosso papel, a nossa missão é trabalhar com a manifestação da cultura de origem negra, instrumento de sobrevivência e de resistência. Sem dúvida é possível com a Seppir avançar para uma maior sintonia entre a dimensão cultural com a dimensão cidadã.