Ipeúna/SP – Será enterrado neste domingo (02/06), às 10h, no Cemitério S. João Batista, o corpo do guardador de carros, Benedito Santana de Oliveira, 71 anos, espancado por neonazistas no início de abril. “Seo” Benedito morreu na manhã deste sábado, na casa onde morava em Ipeúna, cidade próxima à Rio Claro.

A família continua indignada e pedindo Justiça. Segundo um dos filhos, Donizete de Oliveira, o pai, bárbaramente espancado por Axel Leonardo Ramos, 21, e Hélcio Alves de Carvalho, 20 anos – ambos, segundo a Polícia integrantes de uma célula neonazista em Ponta Grossa, Paraná -, não reagia mais ao tratamento. Ele permaneceu primeiro 15 dias na UTI em estado de coma com traumatismo craniano por causa dos chutes (principalmente na cabeça), quando já se encontrava caído e desacordado, de acordo com testemunhas.

Posteriormente, teve de retornar permanecendo internado por mais 32 dias. Saiu para morrer em casa. “Deram alta porque já não tinha mais o que fazer. Ele estava sem reação”, afirmou o filho. O guardador de carros não falava e só conseguia se alimentar por uma sonda.

Indignação

A família, de acordo com Donizete, não se conforma com a morte do pai, atacado enquanto trabalhava de madrugada para complementar a renda. “Indignação com tudo o que aconteceu, desde a agressão até a falta de amparo, até para ser tratado precisamos comprar a sonda, porque a saúde pública não dá. Não tivemos assistência e as autoridades deveriam dar uma olhada para mais essa vítima da violência”, acrescentou.

De acordo com os guardas municipais que detiveram os criminosos no percurso até a delegacia, Hélcio e Axel faziam questão de afirmar que não gostavam de “preto e de pobre”, que “paulistas eram todos burros” e que “velhos, pretos e pobres tinham que morrer mesmo”.

Enquadramento

Finalmente, após a morte do guardador de carros, o delegado Mário Antonio de Oliveira, que preside o inquérito, admitiu que a acusação passará a homicídio doloso, quando há intenção de matar. As penas neste caso podem chegar a 30 anos de prisão pelo motivo fútil, a impossibilidade de defesa, a idade da vítima, e a motivação racial que os assassinos manifestaram.

Anteriormente, a Polícia havia enquadrado o caso como lesão corporal de natureza grave, alegando que o enquadramento como tentativa de homicídio não fora feito, porque os acusados disseram que não tiveram intenção de matar, mas apenas de agredir.

Ao pedir a prisão preventiva, o delegado Mário Franceschini, que atendeu a ocorrência, justificou dessa forma, o não enquadramento como tentativa de homicídio. “Diante dos fatos, considerando que no interrogatório dos autores ambos afirmaram que, não tinham intenção de praticar homicídio e sim que o objetivo seria simplesmente agredir as vítimas, e que seus objetivos foram alcançados, optou a autoridade policial pela lavratura do auto de prisão em flagrante delito por infringência ao artigo 129, parágrafo 1º, inciso II, deixar de arbitrar valor da fiança, representando imediatamente pela decretação de prisão preventiva junto ao Judiciário Local”. A prisão foi decretada pela Justiça e os dois seguem presos na Penitenciária de Itirapina.

Além do homicídio, os neonazistas também responderão por lesão corporal leve, já que um colega de “seo” Benedito, o guardador de carros, Sebastião Gonçalves de Oliveira, 57 anos, também foi atacado quando tentava socorrer o colega.

Denúncia

Convidado pela assessora de integração racial, Kizie Silva, o advogado Dojival Vieira esteve em Rio Claro na semana seguinte ao ataque e alertou para as consequências do enquadramento mais benéfico para um crime com essa gravidade, em reunião com a família da vítima e com lideranças de Rio Claro, inclusive, vereadores da Câmara Municipal. Também levou o caso ao conhecimento do ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, numa audiência pública na Assembléia Legislativa.

Em consequência da audiência com o ministro, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia, deputado Adriano Diogo fez aprovar uma representação que será encaminhada ao ministro pedindo que a Polícia Federal entre no caso para investigar a ação de gangues criminosas neonazistas nos Estados de S. Paulo, Paraná, Minas Gerais e Distrito Federal.

 

Da Redacao