A evidência dos indicadores sócio-econômicos disponíveis não deixa margem a duvidas quanto aos efeitos perversos do apartheid informal em que vive metade da população brasileira autodeclarada preta e parda nos Censos do IBGE – 45,6% de acordo com o mais recente deles, realizado em 2.000.
Este apartheid, que não pode mais ser negado ou ignorado por quem tenha um mínimo de honestidade intelectual e boa fé, é a verdadeira causa de o Brasil, reconhecidamente ser um país, com os maiores indicadores de desigualdade do mundo.
Não somos pentacampeões apenas no futebol. Somos também em desigualdade social e, neste quesito, já conquistamos o hexacampeonato mundial, o que é praticamente um consenso entre pesquisadores e estudiosos da realidade sócio-econômica brasileira.
O consenso, entretanto, rapidamente se esvai quando se propõe um diagnóstico da natureza desta desigualdade, quais são seus pilares, onde se sustenta. A resistência que estudiosos e pesquisadores – alguns dos quais de renome – têm em aceitar a desigualdade racial provocada pelo racismo, como elemento estruturante da desigualdade social, é espantosa.
Esta resistência, que não é nova, mas que vem adquirindo novos contornos, novas nuances, novo discurso, fica evidente no debate sobre a adoção de cotas nas Universidades Federais, projeto em discussão na Câmara Federal, e na discussão sobre o Estatuto da Igualdade Racial, de autoria do Senador Paulo Paim e que há, pelo menos 10 anos, tramita no Congresso.
É impressionante como o racismo brasileiro se metamorfoseia, como adquire novos contornos, para justificar o injustificável – a desigualdade provocada pelas seqüelas do escravismo vigente entre nós durante 350 anos – e tenta, a todo custo e por qualquer meio jogar para debaixo do tapete a mudança que vem sendo protelada: a incorporação de fato da população negra aos direitos básicos da cidadania, o que deveria ter ocorrido com a Abolição há 117 anos.
Primeiro discutiu-se, na Câmara, o prazo de quatro anos para adoção das cotas nas Universidades Federais. Agora surgem os defensores, incluindo o ministro da Educação Fernando Haddad, expressando a posição do Governo Lula – com a defesa de um prazo mais elástico: 10 anos. Seria o caso de perguntar: que tal, mas 117 anos, senhores?
Ouvindo há poucos dias, uma renomada professora da USP, desfilar sua retórica uspiana para justificar porque a Universidade burlou a exigência da Fundação Ford que repassou recursos para um Curso de Mestrado em Direitos Humanos, com a exigência da adoção de cotas para negros, indígenas e portadores de necessidades especiais.
Vendo a Globo e o telejornalismo das demais emissoras transformar as matérias sobre a tramitação do projeto na Câmara Federal, em verdadeiros editoriais antiações afirmativas, contrariando as regras mais elementares do jornalismo de ouvir os dois lados; e assistindo os arranjos dos parlamentares na discussão do projeto, surge a pergunta que não quer calar.
Será ignorância, desonestidade intelectual ou má fé, a razão pela qual, resistem a aceitar a necessidade de reparação pelos 350 anos de escravismo? Será por má fé, desonestidade intelectual ou ignorância a razão pela qual se recusam a reconhecer que a Abolição aqui se traduziu por mera troca de regime jurídico, com as conseqüências visíveis hoje no cotidiano da vida brasileira, com o racismo perverso e excludente que aparece em todas as pesquisas de opinião?
Neste caso, a resposta “não está soprando com o vento”, como na música “Blowind the Wind “. Trata-se do velho racismo de guerra que, como um camaleão, muda de cor, adquire contornos insuspeitados, veste as máscaras que lhe convém, se recicla.
Neste jogo de esconde-esconde em que, de um lado uma elite racista e insensível tenta se sustentar sob o mito/mentira da democracia racial, e de outro, metade da população negra submetida à pobreza mais extrema, não apenas sobrevive mais resiste e clama por igualdade e justiça, é muito pedagógico assistir ao espetáculo de hipocrisia e farisaísmo protagonizado por uma elite racista que outro dia o cineasta Walter Salles chamou, muito apropriadamente em um artigo publicado na “Folha”, de “Os Idiotas”.

Dojival Vieira