Rio de Janeiro – Sob o pretexto de retratar a cultura do século XIX, a Fazenda S. João, que fica em Rio das Flores, adotou a prática de vestir os empregados negros como escravos para o deleite de turistas que pagam diárias de até R$ 300,00.
A cena, que mostra a que nível chegou à naturalização do racismo no Brasil, passa, no entanto, como natural para as autoridades e para a maioria dos turistas que visita o lugar e é justificada assim pelos proprietários. “Trabalhamos com funcionários brancos e negros que fazem as mesmas funções e a principal é resgatar raízes. Desta forma, hoje eles sabem de onde vieram, onde estão e onde querem chegar. Todos têm muito orgulho de poder mostrar para o mundo (um momento histórico de nosso pais) o que nunca foi feito por ser uma história complicada socialmente”, afirma João Reis, que se diz proprietário da Fazenda, em e-mail a estudante Walleska Kruger, que circula na Internet.
A prática insólita de “resgate cultural” também é mostrada numa das mais importantes revistas de divulgação turística – a “Próxima Viagem”, edição deste mês, Nº 70 – que apresenta a Fazenda como um “refúgio no campo”.
Na matéria, o redator, ao comentar o caso, escreve que “pode ser doloroso para descendentes de escravos”, como se, a quem não é negro, também não devesse chocar.
É como se, para resgatar a história, de atrocidades e crimes contra a humanidade, a principal atração turística de Roma – o Coliseu – fosse apresentar espetáculos mostrando cristãos sendo atirados aos leões, ao vivo e a cores, e para ilustrar os horrores do nazismo, judeus fossem mostrados nas situações de sofrimento e pavor, a que foram submetidos no período do holocausto. “Entretanto, ao adentrar no antigo campo de concentração de Auschwitz, por exemplo, o clima é de pesar, tristeza e reflexão sobre o que o homem já foi capaz de fazer com seu semelhante. No caso da Fazenda, o lugar não serve para uma reflexão e arrependimento pelo passado, mas de reverência aos fatos e ao horror da escravidão, uma vez que é de lazer proporcionado pelo serviço de pessoas negras trajadas da mesma forma que no passado”, afirma Waleska no e-mail que mandou ao proprietário, e que também circula na Rede.

Da Redacao