S. Paulo – O Mapa da Diversidade, a resposta da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) às denúncias de discriminação contra negros feitas pelo Ministério Público Federal do Trabalho, em 2005, foi transformado em instrumento de marketing, a ser apresentado em platéias especiais, como aconteceu na última quinta-feira, em audiência pública convocada pelo Senado, por iniciativa do senador Paulo Paim (PT-RS).
O Mapa já havia sido apresentado em julho na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Na apresentação, desta vez no Senado, o diretor de Relações Institucionais da Febraban, Mário Sergio Vasconcelos, disse que resultados consistentes só devem ser esperados para “daqui a de 3 a 5 anos”.
“É um processo longo. Envolve relações humanas possibilitando situações delicadas e imprevistas. Expõe conteúdos subjetivos com potencial de conflitos. Políticas de promoção da igualdade alteram a cultura das organizações”, afirmou.
Ele não informou que medidas concretas foram adotadas para superar os indicadores que apontam a presença de apenas 19% de negros no mercado de trabalho bancário, com salários 64,2% inferiores aos não negros.
Sem transparência
Há cerca de três meses, Afropress havia solicitado, sem sucesso, à Assessoria de Imprensa da Febraban, uma entrevista sobre o processo de execução do Mapa. Nesta sexta-feira (02/10), depois de um protesto pela sonegação de informações públicas, o assessor Danilo Vivan, da Superintendência de Comunicação, encaminhou a apresentação em power point feita por Vasconcelos no Senado, no dia anterior. Não respondeu, porém, ao pedido de entrevista.
Na audiência do Senado, participaram o ministro Edson Santos, da Seppir, a professora Cida Bento, do Centro de Estudos de Relações do Trabalho e Desigualdades (CEERT) e o diretor executivo da Educafro, Frei David Raimundo dos Santos. Nenhum deles fez qualquer questionamento aos números nem aos prazos.
Bento, responsável pela elaboração do Mapa, também não fala sobre o assunto alegando razões de ordem ética. Segundo ela, a responsabilidade pela execução e, portanto, por falar sobre o Mapa, é da Febraban.
Denúncia do MPFT
O Mapa da Diversidade foi a resposta dos bancos às pressões do Ministério Público Federal do Trabalho que, em 2005, denunciou a discriminação de negros no mercado de trabalho, após constatar a não existência de diferenças educacionais para justificar as desvantagens salariais nas instituições pesquisadas.
O Instituto de Advocacia Racial e Ambiental, presidido pelo advogado Humberto Adami, hoje Ouvidor da Seppir, foi a entidade que inicialmente levou ao Ministério Público, a existência da discriminação nos bancos.
O Mapa da Diversidade foi concebido pelo CEERT, empresa contratada pela Febraban, sob a direção da professora Cida Bento, especialista em políticas de diversidade, a um custo não conhecido.
A estratégia de transformar o Mapa em um plano de marketing já havia sido esboçada na apresentação do plano, em abril de 2.008, em um megaevento no Hotel Inter-Continental da Alameda Santos, nos Jardins, zona nobre de S. Paulo, com a presença do próprio presidente da Febraban, Fábio Barbosa.
Como parte da campanha de comunicação para “vender” o produto foram contratados, além do CEERT, os atores negros globais, Ailton Graça e Solange Couto.
O primeiro passo da estratégia de marketing foi diluir a discriminação que atinge prioritariamente negros – com números eloqüentes, presentes em todos os indicadores, inclusive no Censo da Febraban -, em tema em que, portadores de necessidades especiais, indígenas e orientais, são apresentados, igualmente como alvos.
Ignora-se que negros representam 49,7% da população brasileira, portadores de deficiência cerca de 14% e indígenas e orientais menos de 1% e que estes não são vítimas de exclusão por motivação racial.
Mapa
Segundo o próprio Censo dos bancos, em que foram consultados 204.794 trabalhadores em todo o país, os números não mudaram, desde 2.005. Negros ganham 64,2% e pardos 67,6% dos salários dos não negros. O salário médio de um negro no setor bancário é de apenas 2.870,00, contra R$ 3.4211,00 do salário de um branco.
Na distribuição por grupo de cargos, os negros ocupam 4,8% dos cargos de Diretoria e Superintendência contra 91,6% dos brancos; 14,9% dos cargos de Gerência contra 81,7% de brancos; 17% dos cargos de Supervisão, Chefia e Coordenação contra 79,78% de brancos e, nos cargos Funcionais, 20,6% contra 75,7% de brancos.
No total, apenas 19,5% dos trabalhadores no setor bancário são negros (pretos ou pardos) e ganham em média, 84,1% dos salários dos brancos. A discriminação é ainda maior em relação às mulheres negras: somente 8% delas conseguem emprego nos bancos, apesar de representarem 18% da População Economicamente Ativa (PEA).

Da Redacao