O que liga mulheres como Carolina Monteiro, estudante de Minas Gerais; Cristiane Damacena, jornalista, de Brasília; Edna Maria dos Santos, funcionária de supermercado, de Minas Gerais; Thatiane Santos da Silva, médica clínica geral, no Paraná? O fio condutor é o racismo contra as mulheres negras, as comunidades negras, doença que vem dos tempos de um Brasil colonial.

E ainda ataca pessoas de quaisquer classes sociais e escolaridade. Evidentemente, que há grupos mais fragilizados, mas todo negro ou negra, afro-nordestino ou afro-nortista sabe perfeitamente o peso do racismo: nascem com um X nas costas.

Este tema foi densamente trabalhado pela filósofa e feminista negra, entre outras, Lélia Gonzalez, homenageada o Projeto Memória da Fundação Banco do Brasil, com a Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh) e Brasilcap.

Parte da exposição mostra que emoldurou o debate, do dia 6/05, mediado pela sua Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, ficará no auditório do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, na Rua Evaristo da Veiga, 16/17º andar – Centro – Rio de Janeiro.

O rico debate contou com a presença das amigas e discípulas de Lélia Gonzalez: a socióloga e mestre em História Comparada, Elizabeth Viana, e a doutoranda em Políticas Públicas, Rosália Lemos.

Repeteco

Só para relembrarmos brevemente, Carolina Monteiro é uma menina de 8 anos, da capital mineira, que para se defender das falas racistas de seus coleguinhas de sala, resolveu postar vídeos, nas redes sociais, explicando que racismo é sinal de ignorância.

A jornalista Cristina Damasceno, de Brasília, postou em seu perfil no facebook uma foto que mostra sua semelhança com a atriz mexicana Lupita Amondi Nyong'o. Postagens racistas mobilizaram uma rede de apoio antirracista. O caso foi para a esfera policial.

A trabalhadora de um supermercado Edna Maria dos Santos, de Belo Horizonte, Minas Gerais, foi xingadela de macaca por cliente. Esta foi presa, prestou depoimento e foi liberada, sem que sua identidade fosse revelada.

Já a médica clínica geral, Thatiane Santos da Silva, denunciou a fala racista da secretária municipal de Saúde de Santa Helena, Terezinha Madalena Bottega, e sua secretária. A servidora comunicou à médica que "sentia muito falar sobre isso, porém havia um problema: meu cabelo".

Metamorfose

Como dito acima, independente da classe social, o racismo é violento. Não importa a idade, a classe social, o nível cultural da vítima. Sendo mulher negra então… Esta virulência contra a mulher negra foi algo que Lélia Gonzalez aprendeu na carne, na dor. Depois foi estudar, teorizar e dividir com a militância negra e feminista negra. Estes são inclusive os temas abraçados na Marcha das Mulheres Negras 2015 – Contra o Racismo e a Violência e Pelo Bem Viver que, dia 18 de novembro, levará à Brasília milhares de mulheres negras. Na realidade, muitas mulheres que estão se descobrindo negras, pelas agruras, pelo olhar do outro.

Beth Viana aborda esta descoberta por parte de Lélia quando tratou de seu perfil. Uma mulher que não nasceu negra, mas que embranquecida pelos anos de academia, aprendera que o racismo mata. Seu marido, de origem italiana, se suicidara. Não suportou a pressão racial de sua família. “Esta experiência do encontro de sua negritude com a dor desta perda pessoal fez com que ela se voltasse para seu povo, estudando e se aproximando daquilo que o povo negro valoriza, que fez com ele pudesse sobreviver até hoje, como a religião.” O estudo e o ativismo no movimento negro e no feminismo negro Lélia a reerguem.

Segundo a perspectiva colonialista ocidental, as sociedades que não têm a escrita, não têm história, não pensa, não raciocina. “Muito pelo contrário”, disse Beth, afirmando que Lélia conseguiu através do candomblé fazer uma leitura muito própria e particular a partir da psicanálise. “Ela conceituou o que é a cultura negra e a cultura africana. Obviamente que a codificação é imposta. Somos negros porque o outro nos impôs esta identidade. Mas o diferencial é que ‘nós’ da militância e o povo negro que se encontra aqui até hoje neste país. Conseguimos dar inteligibilidade para dentro da academia e para os próprios militantes. Temos avanços nas categorias, como protagonismo negro, sujeito histórico.”

Rosália Lemos antes de apresentar os pressupostos da Marcha das Mulheres Negras 2015, citou um texto sobre racismo e sexismo da pensadora que traz uma reflexão rápida sobre a questão da consciência e da memória: “A consciência exclui, o que a memória inclui.” Ou seja, esta memória da Lélia possibilita não só para nossa geração, mas para gerações futuras, um apanhado desta contribuição que é muito esquecida.

Segundo a pesquisadora, a academia até aceita que você entre; mas não deixa que o pensamento negro flua. Se for ativista querendo pesquisar de seu lugar de militância, aí a complexidade será maior. É o que Rosália chama de pesquisa ativista, metodologia que ela adotou, em 1994 em seu mestrado. Nesta metodologia, o pesquisador se coloca enquanto ativista, mas também reflete sobre a prática. Ou seja, “está fazendo a práxis, como os marxistas evocam, mas a maioria só que estudar os pretinhos na academia, conforme bem dizia a Lélia”, salientou a doutoranda.

Mais Lélia

Vale a pena visitar a exposição que roda o Brasil. São painéis fotográficos que mostram um pouco do que foi fazer militância negra no Rio de Janeiro, em várias partes do Brasil – como na Serra da Barriga, território de Zumbi de Palmares em Alagoas –, como as viagens internacionais quando levava a questão do feminismo negro para outros ouvidos, corações e mentes. Para conhecer mais sobre o pensamento de Lélia Gonzalez vale a pena fazer uma varredura na internet, ver os audiovisuais do Cultne e ler as pesquisas sobre esta pensadora negra brasileira.

 

Sandra Martins