Confesso que nunca consegui ter simpatia por um movimento que, para lutar pelos direitos das mulheres, se intitula Marcha das Vadias. Tá bom… tudo começou em 2011, em Toronto, no Canadá, após ocorreram diversos casos de abuso sexual contra mulheres. Na época, um dos policiais que investigavam os crimes, fez um alerta para que "as mulheres evitassem se vestir como vadias para não serem mais vítimas”.

Neste caso, ficou estabelecido que as vítimas eram, na verdade, as culpadas pelos estupros porque usavam roupas insinuantes – como se um estuprador escolhesse suas vítimas pelos shortinhos ou blusinhas transparentes. Estupro é crime hediondo e deve ser punido como tal. A força da Lei não deve criminalizar a vítima, ao contrário, deve protegê-la, inclusive de uma possível gravidez. O fato é que este movimento canadense ganhou fama e se espalhou mundo a fora porque as participantes vão pra rua de soutien, shortinhos e roupas sensuais.

A questão é que antes de importarmos padrões é preciso que nos coloquemos a refletir se os modelos de protestos que dão certo em outros países nos interessam ou ajudam a impulsionar nossas próprias demandas. Já passamos muito tempo importando padrões de beleza, modelos discriminatórios, certezas científicas… que só fortaleceram o chaga do nosso eurocentrismo. Será que nós, mulheres brasileiras, não temos criatividade suficiente para encontrar uma forma própria de protestarmos pelos nossos direitos?

Fiquei pensando como tratar um movimento desses num país em que o clima e a própria cultura já nos possibilitam roupas leves? Não faço um juízo de valor – usar biquíni no frio canadense ou em um país como o Iraque pode ser considerado um ato revolucionário… mas, fazer passeata de mulher pelada pode ser classificado como revolução, no Brasil?

Um país que passou as últimas décadas "exportando mulatas" e tendo nossas bundas como patrimônio nacional? Um país que por séculos desqualificou mulheres negras como vadias, e que em muitos casos, as prendeu por isso? Onde o turismo sexual – não esqueçam que somos o paraíso dos pedófilos e as vítimas são crianças com menos de 4 anos de idade!!!!! – é o resultado mais perverso de uma campanha internacional que usava nossos dotes (quentes na cama, carinhosas e bundudas!!!!) para trazer público ao país do Carnaval? Ai, gente… é demais para a minha cabecinha quase grisalha.

O que vimos na praia de Copacabana, no sábado, dia 27 de julho, foi uma afronta aos séculos de lutas que nós, mulheres trabalhadoras – moradoras da periferia! – travamos. Não quero nem tocar nos atos de barbárie – vi fotos de uma moça introduzindo um crucifixo no ânus de um rapaz (postada pelo repórter Angelo Tortelly, no Facebook) – nem das inimagináveis quebradeiras de imagens de santas católicas, por um movimento que se diz lutar pelos nossos (????????) direitos individuais e coletivos (a Igreja Universal do Reino de Deus, o que há de pior em matéria de racismo, homofobia e intolerância religiosa, deve ter ficado orgulhosa dessa gente!)

Penso que é preciso reiterar o que venho dizendo nas redes sociais. Não somos vadias! Somos mulheres trabalhadoras – e eu incluo as profissionais do sexo, que de vadias não têm nada! Nós, mulheres trabalhadoras, sabemos o que é sair de casa às 6h – deixando nossos filhos cuidados, na escola, com comida pronta e casa arrumada – para ganhar menos que os homens, que fazem os mesmos trabalhos que nós. 

Nós não queremos colocar nossos peitos à mostra, nem ter o "direito"(?????!!!!) de mostrar nossas bundas. E sabe por quê? Porque somos a carne mais barata do mercado… porque os turistas sexuais escolhem as nossas filhas, tias, sobrinhas e irmãs para "'visitar". A mídia e os comerciais de cervejas, geladeiras, casas próprias, carros e sabe mais lá o que… já nos desrespeita demais, transformando nossos corpos em objetivos de compra e venda de desejos.

Somos mulheres trabalhadoras, forjadas na luta cotidiana (que não é escolhida, por ser uma luta pela própria dignidade) por um tratamento respeitoso de nossos corpos, pela igualdade de direitos em nossos trabalhos e para termos nossos direitos sexuais e reprodutivos respeitados. E isso tem muitos significados: não morrer nas filas do SUS antes de conseguirmos uma mamografia para detectar um câncer de mama; não ter nossas bundas expostas em comerciais de TV e revistas, gratuitamente; não sermos cafetinizadas pelo Estado que deveria nos proteger; ver nossos agressores presos e criminalmente responsabilizados pelos maus-tratos cometidos contra as nossas mães, filhas e amigas; termos o direito de abortarmos um bebê indesejado – porque muitas vezes não somos nós quem escolhemos o modo de como seremos "usadas" pelos homens que dizem que sustentam nossas casas…

Aproveito para mandar um recado para as nossas feministas "tipo exportação": tá pensando que a vida das mulheres fora do eixo Rio X São Paulo X Nova Iorque é fácil, querida? Você acha que mostrar os peitinhos, na orla do Rio de Janeiro, é muito revolucionário? Revolucionário é arriscar a vida num aborto com sonda, numa casa infecta, no meio de floresta amazônica porque não se pode sustentar mais uma boca… revolucionário é escolher qual filho entregar para a adoção, porque não quer ver mais um morrendo de desnutrição ou vitimado pela violência; é deixar de fazer a única refeição do dia para que o ‘mais novo’ não fique com fome; é catar os restos de pão e carne na lixeira para fazer sopa pras crianças e, ainda assim, agradecer o jantar numa oração; é deixar que se enterre um parente como indigente porque não se tem dinheiro para pagar o enterro… é parir com a parteira, no meio do sertão, porque não se tem hospital, muito menos pré-natal. Revolucionário é ganhar um salário mínimo e não permitir ser espancada pelo marido; é dar abrigo pra filha e pros netos, dividindo o pouco que se tem, para que se possa sonhar junto; é sambar, com um riso estampado no rosto, para esquecer por um breve tempo das amarguras da vida, das injustiças, dos tormentos… é mostrar que o tráfico – que arregimenta na vizinhança – não é um bom caminho para os filhos, mesmo sendo quase a única opção de ascensão social.

Nossos corpos são sagrados – mesmo depois de séculos de violência, espancamentos e estupros dos nossos "donos". É por isso que nós só o revelamos para aqueles que, por força da nossa luta, tivemos a liberdade e a coragem de escolher. Passeata de mulher pelada não é luta feminista. É, sim, a glorificação do machismo que nos trata como objetos de consumo e nega a nossa humanidade.

Rosiane Rodrigues