A “Roma Negra” – apelido dado à mais afro das capitais brasileiras, onde mais de 80% da população se declara afrodescendente – vivencia em pleno século 21 o que o Brasil conheceu bem no século passado, num dos períodos mais nefastos de nossa história. É o toque de recolher imposto pelo terror, obrigando seus habitantes a sitiarem-se durante a noite.
O dia amanhece e a população apreensiva conta seus mortos pretos ou “quase todos pretos”, como diria Gil e Caetano. São dezenas nos primeiros dias de greve, números com o qual a capital baiana tem aprendido a conviver nos últimos anos, por conta do abandono, do descaso, da falta de oportunidades, das desigualdades e de um racismo cada vez mais institucionalizado numa polícia truculenta, fruto de séculos de escravidão e décadas de coronelismo que mostra sua face mais nefasta nos dias de hoje, na miséria exacerbada e no consumo de crack nas madrugadas do Pelourinho.
A rotina de violência com o qual o soteropolitano aprendeu a conviver com certa normalidade só é quebrada quando alguém do circuito Barra ou dos condomínios blindados da orla (que lembram bairros brancos da África do Sul nos tempos do apartheid) é assassinado. Aí, há uma comoção e uma indignação da elite com repercussão na imprensa.
No mais, a indignação é exposta por um ou outro ativista da luta contra o racismo, por vezes chamado de louco ao denunciar o genocídio e o extermínio da juventude negra ou em programas sensacionalistas como Varela e Bocão, expondo mães e famílias negras cotidianamente aos prantos pela perda dos seus filhos.
O contraste entre o sol, o mar e a natureza exuberante com o clima de terror, nos faz lembrar outra ex-capital do Brasil, o Rio de Janeiro, que num esforço descomunal e para salvar os milhões de dólares que começam a entrar por conta dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo, acabou por unir governo, elites midiáticas e até o povo negro das comunidades esquecidas para um pacto geral contra a violência.
Cidades que além de serem ex-capitais brasileiras, tiveram em comum, principalmente, a ignorância de imaginar que poderiam apreciar eternamente e de forma pacífica de suas janelas as desigualdades raciais e sociais como na época da escravidão.
Diferentemente de outras capitais como São Paulo que, estrategicamente, colocou bairros como Jardins, Higienópolis e Morumbi- a quilômetros de distância de comunidades como Capão Redondo e Cidade Tiradentes. No Rio de Janeiro, a distância entre a zona sul e os morros abandonados é muitas vezes a de um tiro de AR-15. Em Salvador, dá para se ouvir da favela Calabar os fogos e festejos da burguesia branca e racista da Barra.
Seis dias se passaram, é hora de retornar. Deixo Salvador pela primeira vez sem as belas lembranças que sempre levei na bagagem: as terças-feiras no Pelô com as batidas do Olodum; os sábados festivos no Curuzu do Ylê Ayê – o mais belo dos belos -; os dedos de prosa na Alaíde do Feijão; o abraço carinhoso e altivo do Clarindo da Cantina da Lua; a carne de fumeiro do Manoel do Axego, da alegria, energia e do axé de um povo que não cansa de ter esperança e que luta, pura e simplesmente, por igualdade, porque mesmo sem ela, inexplicavelmente, já aprendeu a ser feliz.
Vivenciar esses dias de terror em Salvador foi, talvez, uma das experiências que ainda me faltavam acontecer na capital baiana, que já me dera tantas alegrias, entre elas o título de Cidadão Soteropolitano, mas que acaba de me lembrar da maior das lições: a de que sem igualdade, justiça social, educação, e salários dignos não há alegria que persista.
ODÒ-ÌYÁ IEMANJÁ!

Mauricio Pestana