Durante todo o dia, indígenas vestidos de praiás (criaturas encantadas), adultos e crianças com o corpo coberto de palha até a cabeça e panos coloridos sob os ombros, dançaram e cantaram no ginásio de esportes da Escola de Educação Infantil Pero Neto. A dança e os cantos dos praiás acontecem em sinal de agradecimento da comunidade pela cura de algum doente ou boa colheita.
A tradição vem sendo mantida em S. Paulo há sete anos e a celebração serve para reunir parentes pankararus, e indígenas de outras nações espalhados pela capital e por todo o Estado. Como Maria Zenaide dos Santos, por exemplo, pankararu que veio de Mogi Mirim, cidade da Grande S. Paulo onde, segundo ela, vivem 25 famílias.
Os primeiros pankararus começaram a chegar a S. Paulo, na década de 50 do século passado e ajudaram a construir grandes obras, inclusive o Estádio do Morumbi. Todos são oriundos da Aldeia Brejo dos Padres, a 555 km de Recife, Pernambuco, onde vivem cerca de 7 mil indígenas da agricultura de subsistência.
Lá, segundo Manoel Alexandre Sobrinho, 56 anos, presidente da Associação SOS Pankararu, o “seo” Bino, a comunidade originária enfrenta dificuldades, especialmente, de atendimento médico. A língua só é mantida pelos mais velhos, mas a dança e os cantos são preservados, até mesmo na favela, que fica a menos de 2 km da marginal Pinheiros, ao lado dos casarões e apartamentos de luxo do Morumbi.
Para “seo” Bino, que trabalhou e se aposentou como pedreiro em grandes obras da capital, a maior dificuldade dos pankararus é a terra. “Nós precisamos de terra, onde possa plantar. Se nós não tivesse essa cultura, não teria reconhecimento. A Funai (Fundação Nacional do Índio) quer que agente fique na aldeia prá matar como pioio na unha. Temos de ter nosso terreiro próprio”, afirma, apontando para o cimento em que dançam os praiás. “Isso aqui devia ser de terra”, acrescenta o presidente da Associação Indígena SOS Comunidade Pankararu.
“Seo” Bino é pai de seis filhos e diz que os dois netos também já estão sendo educados na cultura dos antepassados. Ele divide a liderança na comunidade pankararu com Dimas Joaquim, da ONG, mas não há problemas quando o assunto é a defesa da identidade cultural da nação pankararu.
Carta e Agenda
A Agenda Indígena de S. Paulo foi uma iniciativa da Comissão Intersecretarial de Monitoramento e Gestão da Diversidade (CIM-Diversidade) da Secretaria do Trabalho do Município, presidida pelo jornalista Dojival Vieira.
A Agenda, que ocorreu entre 13 e 19 de abril, com palestras sobre Educação, Saúde, Mercado de Trabalho, teve como tema “O que é ser índio em S. Paulo”, e levantou dez propostas que vão, desde a defesa e a exigência do respeito à identidade indígena, até a reivindicação pela inclusão de indígenas nos programas da Secretaria do Trabalho e criação de um Centro de Referência Indígena, como alternativa para geração de trabalho e renda e que funcione como ponto de escoamento da produção artesanal indígena, bem como para adifusão das culturais indígena e capacitação dos profissionais envolvidos. O secretário do Trabalho, Geraldo Vinholi, recebeu a Comissão de Indígenas e se comprometeu a adotar políticas públicas que terão, como ponto de partida, as propostas da Agenda.
Também consta da Agenda um Calendário de atividades e eventos que deverá ser concluído com a realização da segunda edição da Agenda em abril de 2.007.

Manoel Alexandre Sobrinho, Bino Pankararu – Foto: Repórter Brasil