No entanto, antes mesmo de a Copa do Mundo começar a Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa) decidiu que manifestações religiosas dentro das quatro linhas serão proibidas. O motivo? O excesso cometido pelo Brasil na última Copa das Confederações.
(Para quem não se lembra, ao final da Copa das Confederações – vencida pelo Brasil – o time inteiro se ajoelhou, rezou, agradeceu a Deus e a Jesus. Lúcio e Kaká se destacaram o tempo todo por manifestarem sua fé em gestos e/ou frases nas camisetas, declarações à imprensa etc., etc.)
Com a proibição os evangélicos chiaram e já acusam a Fifa de… intolerância religiosa. Segundo eles, ao proibir as manifestações religiosas, a Fifa estaria infringindo o sagrado direito de livre expressão, logo, a Federação estaria excedendo o limite tolerável de suas competências e passando a se imiscuir em questões que seriam de foro íntimo de cada indivíduo.
Eles estão errados! Ao proibir manifestações religiosas na verdade a Fifa está buscando evitar um problema maior. O temor, em realidade, é que essas manifestações de fé amanhã se tornem guerra intra e extra campo, principalmente quando os atletas muçulmanos resolverem seguir o exemplo e começarem, eles também, a agradecer a Alah por cada vitória obtida.
A verdade é que o proselitismo é uma das grandes pragas dos nossos tempos. Vindo do latim eclesiástico prosélytus, o proselitimo é o intento, zelo, diligência, empenho ativista de converter uma ou várias pessoas a uma determinada causa, ideia ou religião (proselitismo religioso). Daí a necessidade quase histérica de converter o outro, de convencê-lo a aderir à sua idéia pelo temor, pelo medo ou pela imposição que beira a uma lavagem cerebral.
Ao optarem por usar camisas, ficar falando em Jesus o tempo inteiro, afirmarem sua fé constantemente, estes atletas estão querendo impor sua crença religiosa, querem dizer que são cidadãos de melhor categoria pelo simples fato de expressarem tal fé. Ato contínuo, devemos lembrar que estes mesmos jogadores que tentam dar o exemplo da fé cristã a partir de suas palavras e expressões, reforçam a intolerância religiosa, como foi o caso recente dos jogadores do Santos que se negaram a visitar um hospital que trata crianças com câncer e que é de orientações espírita.
A maioria dos evangélicos conhecem muito pouco de sua própria história. Além de fazerem uma leitura fundamentalista e linear da Bíblia, eles desconhecem os conceitos básicos que fundamentam sua fé. Etimologicamente evangelho significa “boa mensagem”, “boa notícia” ou “boas-novas”, derivando da palavra grega ευαγγέλιον, euangelion (eu, bom, -angelion, mensagem).
Ou seja, anunciar a boa nova de Cristo não é berrar aos ouvidos de ninguém. Mas acreditar e afirmar que aquele Jesus nascido numa manjedoura, filho dos humildes José e Maria era o Messias, o Cristo, o filho de Deus que viria para redimir TODA a humanidade. Uma vez que Jesus é morto na cruz e o Cristo ressuscita três dias depois, esta ressurreição nada mais é que a reconciliação da humanidade com Deus. Passamos portanto da época da Lei (onde éramos obrigados a “agradar” a Deus), para a época da Graça (onde somos todos “agradáveis” perante o Senhor).
Ou seja nada mais é necessário ser feito, pois o sacrifício supremo, a maior das dádivas foi feita por Jesus ao se sacrificar pela humanidade na cruz. Esta seria a essencia vital do que se convencionou chamar de cristianismo. Aqueles que crêem no Cristo.
No entanto, nas últimas décadas o que se percebe é que a profusão de “evangélicos” passou a ser maior que aqueles que se declaram apenas “cristãos”. Muito mais que um jogo de palavras, a distinção acima traz uma abissal diferença conceitual entre um e outro grupo, opondo de um lado aqueles que crêem na Graça e professam sua fé a partir da adoração e louvor a Cristo; àqueles que, herdeiros do puritanismo inglês e americano, tendem a se ver como os mais perfeitos, rejeitando tudo aquilo que não esteja de acordo com seus padrões.
Ou seja, o puritanismo evangélico torna-se um problema à medida em que, sob influência dos tais evangelistas americanos dos anos de 1960, 1970 e 1980 – que passaram a viajar ao mundo para apregoar suas crenças – incutem em corações e mentes a idéia de que tudo que nao esteja de acordo com seus preceitos é de segunda categoria e como tal deve ser menosprezado.
É este tipo de visão que fará, por exemplo, com que homens e mulheres negros rejeitem os valores africanos que estão intrinsecamente ligados às religiões que nascem naquele continente. Portanto, por mais racista que possa parecer a intolerância religiosa às religiões de matrizes africanas – e de fato o é -, efetivamente, os evangélicos negros não se vêem cometendo nenhum ato racista pelo contrário, se vêem como homens e mulheres melhores que se “libertaram” daquilo que era primitivo, era ruim, era, em última análise, demoníaco.
As religiões que mais crescem no mundo têm em sua fundamentação o proselitismo: o Islã e o Cristianismo. Conhecemos países que são dominados por uma ou outra tradição religiosa e sabemos as consequências que isso traz para o cidadão ou cidadã desses países que professa fé distinta ou mesmo fé alguma. O que ainda não temos é um país dominado por esta nova espécie denominada evangélico-puritano (pentecostais, neo-pentecostais, web-pentecostais e por aí vai).
A América-Latina caminha a passos largos para ser o continente onde primeiro esta experimentação vai se dar. O Brasil, pior ainda, talvez seja o país ponta-de-lança desta experiência. Vale lembrar o documento da Iurd (Igreja Universal do Reino de Deus) que vazou alguns anos atrás que trazia em si a idéia de um projeto político que era fazer o Presidente da República em 20 anos.
Quer dizer, a estas mega-estruturas não basta mais apenas se comportar como empresa- manejando ofertas e dízimos como capital de giro -, elas querem se comportar como partidos políticos elegendo os seus para todas as esferas de poder, se infiltrando em todos os espaços, para amanhã ou depois, começar a proibir tudo aquilo a que são contrários e, por outro lado, liberarem tudo aquilo em que acreditam.
A Fifa talvez não tenha tido muita clareza aonde estava atirando ao proibir manifestações religiosas durante a Copa do Mundo. Mas com certeza acertou um alvo muito maior, o que nos faz pensar e refletir sobre que futuro queremos para nosso país, tanto nós que somos religiosos, quanto aqueles que não o são.
O título original do artigo é “Fifa proíbe manifestações religiosas e evangélicos acusam intolerância: será?”

Marcio Alexandre M. Gualberto