Brasília – O reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente, um dos dois negros que fazem parte do Conselho de Desenvolvimento Econômico, o Conselhão da Presidência da República, disse ontem, após participar da reunião convocada pela Presidente Dilma Rousseff (foto www.ebc.com.br) para marcar os 10 anos colegiado, ter saído “menos pessimista”.

“Mesmo assim, nós continuamos muito aquém da capacidade de pressão que poderíamos ter para atingir os objetivos que precisamos atingir”, acrescentou. O médico João Bosco Borba, de Brasília, presidente da Associação dos Empreendedores Afro-Brasileiros (Anceabra), é a outra liderança negra representante da sociedade civil entre os 90 membros do Conselhão.

A reunião foi a primeira após as manifestações de rua que se espalharam pelo país em junho e que abriram uma crise com a queda vertiginosa da popularidade da presidente e dos índices de aprovação do Governo.

Segundo Vicente, a presidente reafirmou os compromissos que tem sido a tônica do seu discurso após o movimento das ruas de aprofundar as mudanças para responder as demandas da sociedade, em especial, prometeu “aprofundar o combate à desigualdade entre negros e brancos no país”.

Como parte desse objetivo, Dilma, segundo Vicente, reafirmou a disposição de receber lideranças negras, estratégia adotada pelo Planalto para retomar o diálogo com os movimentos sociais como já fez com o movimento LGBT e evangélicos.  “Não fui convidado ainda não, mas eu soube que vai haver”, disse Vicente, referindo-se a reunião.

Demandas

Se vier a participar do encontro, o reitor da Unipalmares disse que considera fundamentais três pontos para abrir o debate com o Governo, como parte de uma pauta de interesse da população negra brasileira.

“E necessário que a perspectiva da educação se some a uma maior abertura do mercado de trabalho para os negros, com o estímulo e regras no sentido de que o ambiente cooperativo público possa se abrir”, afirmou.

Um outro ponto que ele considera fundamental é uma política de recuperação da nossa estética negra mestiça em oposição a estética branca. “A sensação que a gente tem é que após a conquista das cotas, esse tema precisa ter prioridade. Há uma tendência do mundo branco a agir dentro da seguinte lógica: “agora vocês tem cotas, fiquem prá lá, e nós ficamos prá cá". Isso, não é bom”, salientou.

Empreendedorismo

O terceiro ponto destacado por Vicente é o empoderamento da população negra para entrar com força no mercado empreendedor. “A possibilidade de termos um foco intenso para jogarmos os negros na área negocial afroétnica, com envolvimento do SEBRAE, FATECs etc. Há um nicho mercadológico onde o jovem negro pode ter um local de intervenção e empoderamento. É a única forma de consolidarmos a presença de nossos jovens na elite econômica e empresarial. Senão, vamos ver os negros voltarem com diploma bonito da UnB, da UERJ, das universidades,  para os morros, para as UPPs. O que precisamos é que permaneçam no asfalto, possibilitando a reversão dessa desvantagem do negro", frisou.

Segundo José Vicente uma das medidas que poderiam ser adotadas pelo Governo seria um "Programa Ciência Sem Fronteira"  (o Programa do Governo Federal que destina bolsas para estudantes brasileiros em universidades estrangeiras), para dentro". “Temos hoje 800 mil jovens negros nas Universidades, somando-se os que entraram pelo ProUni e pelas cotas. Se destinássemos 10% desse total para fazer MBA, mestrados e doutorados nas Universidades dentro do país, criaríamos uma ponte para o mercado de trabalho. Teríamos uma classe média negra com capital intelectual, para se manter nessa condição e ampliar seus horizontes nos próximos 5 anos no Brasil”, finalizou.

 

Da Redacao