Dos maus pedaços, algumas grandes perdas, como a do nosso irmão Mavile (operário gráfico encadernador que nos ensinou, desde pelo menos os 10 anos de idade, a trilhar o interminável e prazeroso caminho dos livros); a do primo e compadre Mizoca, companheiro de aventuras criativas e elucubrações intelectuais; e a de Luiz Carlos da Vila que, sozinho, valeu por uns cinqüenta dos “poetas” que pululam por aí, na cena musical brasileira. Mas vamos falar dos bons momentos.
Desses, destacamos o “bembé” ou “güemillere” realizado aqui no Lote em homenagem a Xangô, em novembro. Nele, sob a competente maestria de Léo Leobons, onilu consagrado em Cuba, os tambores batá soaram bonito, em honra do Alafim de Oyó, para gáudio dos fiéis presentes, num clima de grande harmonia, fraternidade, alegria e muita música. O Rei gostou!
Depois, num outro plano, teve o desafio feito pelo grupo editorial Barsa-Planeta para que produzíssemos, em menos de 30 dias, a partir de criterioso projeto editorial, inclusive com detalhamento gráfico, todo o conteúdo de um livro sobre História da África e do Brasil afrodescendente. O desafio foi aceito e o livro está, belissimamente ilustrado, já na bica. Orumilá ficou feliz! Como também feliz ficou com a publicação do nosso “Kofi e o menino de fogo”, pela Pallas Editora, já alçando vôo internacional.
Ainda em outra área, veio a consolidação do formato piano-baixo-bateria-violão-sopros que sonhamos para as nossas apresentações musicais. Conhecendo as inúmeras possibilidades de se cantar e tocar Samba (sem ficar preso ao esquema surdo-cavaco-pandeiro e sem descaracterizá-lo), o arranjador, produtor e parceiro Ruy Quaresma pôs mãos à obra e a coisa aconteceu. E o resultado foram os magníficos espetáculos da série Quartas Cariocas, no Teatro João Caetano, além dos temáticos “Samba na Caixa, Dinheiro no Samba”, “Tributo a Cartola” e “A Vez do Morro”. Neste (veja-se a foto), voltamos ao formato padrão, só que com o vantajoso acréscimo do sempre excelente Quinteto em Branco e Preto.
No campo político, é claro que a eleição de Barack Obama e a consagração de Lewis Hamilton foram acontecimentos marcantes para nós. Assim como foi triste o fim de Matilde Ribeiro à frente da SEPPIR, num episódio cheio das costumeiras “cascas-de-banana” que estão sempre espalhadas pelo nosso caminho. Tão triste quanto nos encheu de alegria rever o venerando líder Abdias Nascimento, aos 95 anos, embora diminuído fisicamente, ainda lançando a flecha flamejante e certeira de seu discurso, em duas ocasiões, uma em São Paulo, outra no Rio.
Mas nada deste ano foi melhor e mais emocionante que a seguinte descoberta.
Nascido em fevereiro de 1888, o Sr. Luiz Braz Lopes, patriarca de nossa família, falecido em 1960, pouquíssimas informações nos deixou sobre suas origens. Só sabíamos os nomes de seu pai e sua mãe, constantes de sua carteira de identidade, e da existência de um casal de seus sobrinhos, que pouco conhecemos.
Acontece que, em outubro, mais de 120 depois do nascimento do patriarca, ao passarmos pela porta da histórica Igreja da Lampadosa, na Avenida Passos, lembramo-nos de que ele sempre dizia ter sido batizado lá. Aí, através do amigo historiador Flávio dos Santos Gomes, desvendamos parte do mistério.
Nos registros da Igreja, que inclusive sediou uma “Irmandade de Homens Pardos”, está lá o batismo de nosso pai e de nossas tias Lucinda e Luiza (das quais ninguém na família sabia) nascidas respectivamente em 1884 e 1886. Ressalte-se que o Velho nasceu em 3 de fevereiro, dia de São Braz. Daí o “Braz” que legou a todos os filhos, como sobrenome. E, nesses registros estão também os nomes de nossos avós e bisavós, numa árvore que remonta à primeira metade século 19.
O ano de 2008, então, foi histórico para nós. Nele, além das recompensas conseguidos por nosso trabalho, graças ao incansável Flávio Gomes (um dos mais reconhecidos historiadores brasileiros da atualidade, e também sambista e afrodescendente) desvendamos parte do véu que cobria nossa ancestralidade, tornando para nós um pouco mais acessível o sonho de paz, saúde, estabilidade e desenvolvimento que todos pretendemos.
Que 2009 seja igual ou melhor. Para todos nós!
Reproduzido de Meu Lote – www.neilopes.blogger.com.br – com autorização do autor.

Nei Lopes