S. Paulo – O diretor executivo da Rede Educafro, Frei David Raimundo dos Santos, falou pela primeira vez sobre a polêmica reunião realizada pelo MEC na semana passada que resultou no “consenso” anunciado pelo ministro Fernando Haddad. O acordo chamado de “acordão chapa branca” por setores do Movimento Negro, defende a implantação das cotas “gradualmente”, no prazo de seis anos.
Em longa entrevista à Afropress, porém, sem entrar na ordem das perguntas encaminhadas, Frei David faz detalhado relato (“Cotas: para ajudar na reflexão e evitar injustiças”) e explica a tensão vivida em Brasília que culminou com o veto ao deputado Luiz Alberto (PT-BA), presidente da Frente em Defesa da Igualdade Racial, de participar da reunião que fechou o acordo. “Foram três dias de alta temperatura”, explicou.
A proposta do “consenso” será encaminhada aos presidentes da Câmara e do Senado para ser incorporada ao projeto de Lei 73/99, que reserva 50% das vagas das universidades para alunos oriundos da escola pública, incluindo negros e indígenas. O projeto tramita no Congresso e ainda não tem data para votação.
O Frei defendeu-se das críticas: “Errar o inimigo tem sido um dos problemas históricos dos oprimidos”; e queixa-se de ciúmes: “Alertaram-nos de que iria crescer o ciúme de alguns do Movimento Negro pelo espaço, credibilidade e respeitabilidade nacional que a Educafro estava alcançando”.
Quanto ao incidente do veto a presença do deputado, Frei David assume a responsabilidade, porém, defendeu a posição do MEC: “O MEC deixou claro que se a Educafro quisesse ceder sua vaga, o MEC aprovaria. O deputado Luiz Alberto não permitiu que isto acontecesse. Qualquer governante tem o direito e até obrigação de fazer grupos de trabalho para refletir questões específicas”.”É bom lembrar que no tempo do Ministro Paulo Renato, ele não chamava setores da sociedade para ajudar no discernimento”, acrescentou.
Frei David também falou da polêmica em torno das duas Marchas Zumbi + 10, em novembro do ano passado e explicou porque a Educafro se absteve de participar das duas: “por posição madura e para ajudar na reflexão”.
Veja, na íntegra, as explicações do líder da Educafro:
1- A comunidade negra é muito grande. Tem espaço e trabalho para todos os que querem trabalhar com despojamento. Nos quatro cantos do Brasil, por onde temos passado, temos encontrado militantes que foram esmagados e humilhados por “companheiros” do próprio movimento. Não sabemos se é por ai o caminho… Errar o inimigo tem sido um dos problemas históricos dos oprimidos. E não só do movimento negro. As duas marchas é o melhor exemplo deste erro.
2 – A Educafro Nacional tem investido muita energia nas políticas públicas de inclusão para a comunidade negra de todo o Brasil e não só para o público interno. A reunião marcada pela Educafro para recolher currículos para o Banco ITAÚ, no dia 14/2, foi divulgada na rede, em geral. Não foi só para o público interno da Educafro. Resultado: foram entregues 1.380 currículos de pessoas de todos os cantos de São Paulo. Uma parte é da Educafro. Apesar de ter sido um serviço para toda comunidade negra, soubemos que fomos incompreendidos.
3 – Alertaram-nos de que iria crescer o ciúme de alguns do Movimento Negro pelo espaço, credibilidade e respeitabilidade nacional que a Educafro estava alcançando. Não podemos fazer nada. Acreditamos que toda entidade que se dedicar com “unhas e dentes” por uma causa poderá facilmente alcançar este patamar de credibilidade e muito superior à Educafro.
4 – Por posição madura e ajudando com a reflexão do erro que estava sendo cometido com as duas Marchas a Educafro investiu, por um bom tempo, na unidade das duas marchas e disse que se os dois grupos continuassem a brigar que a Educafro não apoiaria a marcha 1 e nem a 2 (pró e nem a contra o governo).
5 – A falta de tempo dos organizadores da Marcha 1 e da 2, deixando 90% das reuniões decisivas sobre cotas sem a presença de ninguém, foi um erro de estratégia.
6- Após a Marcha, contávamos com a participação ativa dos organizadores das duas. Iriam dar tempo para a luta no front. Isto não aconteceu. Apesar de sair comunicação na rede da Internet, ninguém apareceu. Nem os que moram em Brasília.
7- Quando foi marcada a reunião de negociação com a ANDIFES, percebendo a importância deste momento, chamamos o PVNC, na pessoa do professor Alexandre, Sueli Carneiro, Manoel do Movimento Negro de Ceilândia e o deputado Luiz Alberto. Imploramos a todos a comparecerem. Sueli respondeu-nos que estava indo para um seminário da Fundação Ford; Alexandre disse-nos que estava correndo atrás de dinheiro para a passagem e não sabia se iria comparecer; o deputado Luiz Alberto atendeu ao nosso chamado por volta das 20 horas do dia 14/2. Deu-nos tranqüilidade e nos confirmou que iria se fazer presente na reunião do acordo com as feras da exclusão, leia-se ANDIFES.
2 – No dia 15/2 o Alexandre chegou AO MEC e não houve encrencas com sua presença. O Manoel também. Em seguida encontramos com o deputado Luiz Alberto e sua assessora. Eles chegaram bem antes. Contou-nos do incidente com a ANDIFES na sala de espera. (Vinte dias antes o deputado Luiz Alberto foi procurado pela ANDIFES para mudar a redação do projeto e colocar 10 anos. Ele nos telefonou dizendo que não havia aceitado, como relator, as reivindicações da ANDIFES).
3 – Na hora da primeira rodada da reunião, sem a ANDIFES, fomos surpreendidos com a atitude do Secretário Executivo do MEC. O deputado foi convidado a se retirar. O Secretário é uma pessoa educada e equilibrada. Aquela atitude não era normal por parte dele. No entanto, a disparada de e-mails provocados pela Educafro, em nível nacional, deixou todos do MEC sem dormir e muito tensos. A representante da SEPPIR teve falas brilhantes. Foi firme e lúcida. O MEC disse que ela poderia ficar, pois era do Executivo e, na noite anterior, a SEPPIR havia solicitado participação.
4 – Após longo período de tensão e embates, com o deputado Luiz Alberto tentando encontrar uma saída para o impasse, tomamos a palavra e falamos que tínhamos sido culpados pelo incidente criado. Dissemos ao MEC que o tema a ser discutido era amplo e havíamos chamado alguns companheiros de caminhada afro para estarem conosco para ajudar a tomar as decisões, naquilo que envolvia a comunidade negra. Havíamos escolhido o deputado como militante e não como político.
5 – O MEC disse-nos que não tinha o direito de chamar ninguém. A reunião era fechada com convidados pré-definidos. Qualquer governante tem o direito e até obrigação de fazer grupos de trabalho para refletir questões específicas. E bom lembrar que no tempo do ministro Paulo Renato, ele não chamava setores da sociedade para ajudar no discernimento. Nos 8 anos de poder – pelo que nos lembramos – o ministro Paulo Renato nunca recebeu a UNE e outros setores que lutavam com garra pela melhoria da educação a partir do povo
6 – O MEC deixou claro que se a Educafro quisesse ceder sua vaga para o deputado Luiz Alberto, o MEC aprovaria e a Educafro sairia da reunião. O deputado Luiz Alberto não permitiu que isto acontecesse.
7- Pela Rede, por e-mail e por telefone recebemos muitas sugestões do Brasil, onde pessoas enviavam suas opiniões. Foram muito tensos estes três dias.
8 – A reunião aconteceu e o resultado está abaixo:
Cotas nas Federais: acordo entre MEC, ANDIFES e Movimentos Sociais
Foram 3 dias de “Alta Temperatura”. A Educafro, UNE, MSU, e UBES, na segunda-feira, dia 13/02, fizeram a primeira reunião de avaliação com o MEC e o mesmo garantiu que haveria a possibilidade da ANDIFES ceder de 10 anos para 6 anos, o tempo para as Universidades Federais adotarem as COTAS. Ir para o Congresso neutralizando a influência da ANDIFES sobre os deputados era a estratégia.
9 – Na mesma segunda, à noite o deputado federal (Carlos) Abicalil recebeu telefonema da ANDIFES dizendo que não poderiam negociar menos do que 10 anos.
10 – A Educafro, para pressionar a ANDIFES fez uma campanha junto ao povo afro motivando-o a encher as caixas de e-mail da ANDIFES e dos deputados com protestos!
11- Deu certo: na terça a ANDIFES telefonou para a Educafro protestando contra o excesso de email’s e contra as mensagens fortes que estavam chegando nos e-mail’s de todos os diretores nos quatro cantos do Brasil. A Educafro, de maneira firme, comunicou a ANDIFES que aquilo era apenas o começo. A ANDIFES desligou o telefone na cara.
12 – Na terça, às 22h30, o MEC telefona para a Educafro apavorado. Disse que foi um absurdo o que a Educafro fez. O novo quadro criou tensões que iriam prejudicar as negociações. A ANDIFES estava abalada.
13 – Na quarta-feira, após a saída do deputado Luiz Alberto, a ANDIFES começa a reunião fazendo uma proposta “indecente” que foi rejeitada imediatamente pela Educafro, PVNC e MSU. A Educafro deixou claro, com outras palavras, que o movimento social não estava ali de joelhos pedindo a ANDIFES que cedesse para 6 anos. Dissemos que as Universidades comprometidas com o povo não estavam esperando pela lei. Já estavam adotando as cotas. Ex: UnB, UFPr, UFBa, etc. As universidades que não amavam o povo negro e os excluíam, inclusive do quadro de contratação de professores universitários, estavam contra as cotas e articuladas pela ANDIFES. Denunciamos que a ANDIFES, nos seus encontros, estava marginalizando as Universidades que adotaram cotas, não dando espaço para as mesmas narrarem suas experiências positivas. Que no site da ANDIFES não se vê relatadas estas experiências.
RESUMO FINAL:
Após insistência, a ANDIFES apresentou a condição para o acordo:
1- ANDIFES: sairia dos 10 anos e aceitaria os 6 anos. Iria abdicar do que disse no Jornal Nacional quando anunciaram que “iriam pressionar os Senadores para derrubar os 4 anos e recolocar os 10 anos.”
2 – Movimentos Sociais: sairiam dos 4 anos e aceitariam os 6 anos.
3 – MEC: Garantiria à ANDIFES e aos Movimentos Sociais dobrar as verbas para assistência estudantil tais como, alojamento, bandejão e transporte.
4 – Os três lados assumiram como próximo passo: entregar às lideranças dos partidos este acordo por escrito e marcar reunião com os Presidentes da Câmara e do Senado.
5 – todos iriam trabalhar para conseguir a unidade na Câmara e no Senado.

Da Redacao