S. Paulo – Seis dias após a Carta Pública da direção política da Educafro – a maior rede de cursinhos pré-vestibulares do país para negros e carentes – assinada pelos coordenadores geral, político, jurídico, administrativa e pedagógico – respectivamente, Heber Fagundes, Douglas Belchior, Clayton Borges, Vanessa Nascimento e Clayton Menezes – em que anunciam a saída da entidade e rompem com o Frei David Raimundo dos Santos por “não concordarem “com com o método e modelo de gestão impostos”, o Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras), departamento da Província da Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, que responde pela entidade, mantém silêncio sobre o caso.
O próprio Frei David, procurado várias vezes desde sábado (24/01) por telefone e por e-mail pela Afropress, não respondeu nem deu retorno, o que está sendo visto como uma estratégia para abafar o caso e evitar repercussões negativas que afetem o trabalho da entidade.
Defesa
Os Núcleos da entidade, porém, iniciaram movimento em defesa da liderança do Frei e acusam os dissidentes de fazerem parte “de uma panelinha ideológica” que pretendia se beneficiar de processos que deveriam ser coletivos e sem censuras. “Não permitimos a falta de ética e o favorecimento na distribuição de bolsas de estudo, queimando a imagem da entidade. Com isso, não permitimos o desvirtuamento das decisões coletivas do plenário em atingir os propósitos pessoais de poucos destes gestores gerais do projeto que é do povo”, afirma Carta-Resposta “À toda Família Educafro, Aos Movimentos Sociais e À sociedade brasileira”, assinada por Enilda Lúcia Suzart Medrado Rodrigues, coordenadora do Núcleo de Estudos das Mulheres Negras – SP, encaminhada à Afropress na madrugada deste domingo (25/01).
Na carta, os coordenadores negam que a Educafro esteja em crise e acusam os membros que se afastaram de serem “poucas pessoas bem remuneradas, mas que não cumpriram o comprimisso sócio-étnico racial e que foram violentos com a questão de gênero”. “Estes, utilizando-se da idoneidade da Educafro (esta que sempre foi a sua principal prioridade) visando interesses e projetos voltados a sí próprios (divergentes com a metodologia original da Educafro), estão mergulhados/as em tal crise”, acrescentam.
Os autores não explicam que tipo de remuneração recebiam e a que se referem com a acusão de de violência “com a questão de gênero”.
Centralização
As lideranças – que respondiam pela direção política da entidade – responsáveis pelas mobilizações públicas da Educafro, justificaram o rompimento com Frei David acusando-o de “carregar vícios como a centralização, o apego à hierarquia nas relações, e visão de que a democracia e os embates de idéias causam os conflitos e divisões de poder”.
É a primeira vez em 20 anos que a liderança do Frei é aberta e publicamente questionada por membros da Educafro. As divergências entre lideranças que passaram a adquirir consciência política nas próprias ações da organização e os métodos centralizadores do Frei David não são novas. Contudo, vinham sendo, até agora, administradas dentro do Sefras – Serviço Franciscano de Solidariedade, um departamento da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, organismod a Igreja Católica.
Leia, na íntegra, a Carta assumida pelos coordenadores de Núcleos da Educafro
Carta Resposta
São Paulo, 25 de janeiro de 2009.
À toda Família da Educafro,
Aos movimentos sociais e
À sociedade brasileira.
Nós, irmãos e irmãs (alunos/as, coordenadores/as, professores/as, universitários/as bolsistas, voluntários/as) militantes assíduos ao projeto franciscano Educafro, vimos por meio desta apresentar à todos/as nossa posição a respeito da Carta endereçada à família Educafro, conforme carta datada em 23 de Janeiro de 2009, veiculada nas redes de comunicação da internet e redigida por Heber Fagundes, Douglas Belchior, Vanessa Nascimento, Jorge Américo, Adriano, Cleiton Menezes, Clayton Borges, Nádia, Flavio, Maíra, Juliana, Daniel, Félix, Suellen, Noemy, Jarlene, William, Thayan, Vinicius e Amanda, estes que eram integrantes da coordenação geral da Educafro, comunicando os motivos de vossos pedidos de demissão e/ou afastamento.
A Educafro, projeto que visa à educação para afrodescendentes e carentes no Brasil, tem por base um trabalho árduo em diversas comunidades representadas em 6 Estados, a saber:
Rio de Janeiro, Espírito Santo, Santa Catarina, Minas Gerais, Brasília e São Paulo (onde se encontra a Sede Nacional do projeto) que somam mais de 10 mil pessoas nesses estados e durante seus mais de 11 anos de existência lutou e luta, firmemente, pela construção e transformação educacional da realidade do povo brasileiro com inclusão para os negros/as, índios e carentes. Nestes anos mais de 15 mil pessoas freqüentam ou já se formaram nas universidades públicas e/ou particulares (com bolsas de estudo), transformando a realidade de suas famílias e comunidades.
Nesta mais de uma década de existência milhares de pessoas passaram pela base deste projeto acreditando e se doando diariamente pela luta da inclusão educacional, cultural e social em nosso país. Isto posto para que as pessoas menos favorecidas alcançassem e alcancem o sonho de cursar o Nível Superior e transformarem não só suas vidas individuais, mas, principalmente, todo o seu conjunto de relacionamento. Neste sentido, ressaltamos que todos os funcionários/as ou não, que ainda estão neste projeto, trabalharam e trabalham incansavelmente, assim como os voluntários/as na base, para fazer deste projeto o que ele é hoje: uma referencia nacional, motivo de orgulho e glória em todos os segmentos que lutam pela causa sem sair dos seus princípios.
Cada um agregou conhecimento, disponibilizou tempo, dedicação, para florescer no povo o espírito de que sim, “é possível e nós podemos”, transformar a realidade de milhares de negros/as e pobres no Brasil, desde a nossa luta travada em Palmares pelos nossos grandes mestres Zumbi e Dandara. Prova disso é que vem à tona, no atual cenário internacional, a vitória do presidente Barack H. Obama, primeiro líder americano negro, motivo de esperança a muitos que lutam e lutaram pela questão sócio étnica.
Durante todo este momento de existência da Educafro é natural e até bom que surjam conflitos na administração do projeto, pois são graças aos conflitos que conseguimos aprimorar e ampliar os ideais e as lutas, bem como purificar o processo visando algo maior, não dando espaço para os interesses individuais que estavam sendo gestados às escondidas dentro do projeto.
Não concordamos com projetos elaborados por “debaixo dos panos”, que almejavam candidaturas a prefeito em seus municípios. Não admitimos decisões tomadas em Assembléia Geral, por exemplo, criação de uma rede de e-mails institucional para a comunicação de todos os universitários e demais membros da entidade (exemplo: “sou de luta”) sendo criado surdinamente e manipulado em nome particular, censurando e-mails que veiculem outros pensamentos e que somente liberam mensagens de auto louvação ou provinda de sua “panelinha ideológica” para se auto beneficiar de processos que deveriam ser coletivos e sem censuras. Não permitimos a falta de ética e o favorecimento na distribuição de bolsas de estudo, queimando a imagem da entidade. Com isso, não permitimos o desvirtuamento das decisões coletivas do plenário em atingir os propósitos pessoais de poucos destes gestores gerais do projeto que é do povo. Prova disso é o próprio CGE (Conselho Gestor da Educafro) que, em plenário de Guararema (2008) foi tirada uma comissão para pensar no formato do CGE e que, no próximo plenário geral da Educafro, em 2009, isto seria levado para, de maneira ampla e verdadeiramente democrática, serem votados os legítimos conselheiros gerais. Estes/as serviriam de apoio e referencia aos funcionários/as na gestão da Educafro. Porém, isto jamais aconteceu na gestão dos que se demitiram, pois os mesmos escolheram os 10 representantes de sua preferência ideológica, sem consultar nem comunicar a família Educafro, para assim centralizar as decisões sempre a seu favor.
Que processo democrático é este que beneficia poucos conforme sua ideologia política e prejudica a muitos que nada sabem sobre as transações internas de projetos? Isso sim não é uma forma centralizadora de poder?
Frei David foi um dos pioneiros na idealização da Educafro e mesmo sendo o Brasil um Estado Democrático de Direito, para que haja eficácia nas construções das Ações Afirmativas e implementações de Políticas Públicas, é necessário que a liderança, quando esta se vê de forma explicita, como a mais eficaz, tome atitudes emergenciais e ações em prol do projeto que não significa ser centralizador, uma vez que todas estas decisões são rediscutidas e avaliadas nas reuniões de coordenadores das sextas-feiras.
O benefício coletivo que a Educafro proporcionou, proporciona e proporcionará, principalmente agora com o retorno de uma personalidade nacional e internacionalmente reconhecida como é Frei David, sempre nos deu, nos dá e nos dará ótimos resultados e frutos, como por exemplo: parceria com novas universidades, novas salas de aulas com novas possibilidades de bolsas, além de resgatar pessoas com dificuldades financeiras permitindo-lhes a oportunidade de continuar lutando pelo curso de seus sonhos. Quem não se recorda que em vários momentos em algumas universidades, quando não se havia mais esperanças de bolsas, Frei David foi pessoalmente articulá-las, recuperando-as para os antigos e novos estudantes?
A Educafro não está em crise. Trata-se apenas da crise de poucas pessoas que foram bem remuneradas, porém não cumpriram com o compromisso sócio-etnico racial e que foram violentos com a questão de gênero. Estes, utilizando-se da idoneidade da Educafro (esta que sempre foi a sua principal prioridade) visando interesses e projetos voltados a sí próprios (divergentes com a metodologia original da Educafro), estão mergulhados/as em tal crise.
Mas se tal conflito existe na Educafro pelo fato alegado aos mencionados no início da Carta, porque, uma vez que se dizem ao lado da nossa família, eles/as, dizendo-se “por causa do dirigente Frei David”, abandonaram a todos/as (alunos/as, professores/as, coordenadores/as, voluntários/as e bolsistas)? Será que se imaginavam insubstituíveis?
Seria uma forma de desestruturar o retorno do nosso maior líder que é o Frei David?
Por que alguns setores da comunidade negra insistem nessa antropofagia que consiste em perseguir, invisibilizar e/ou destruir o surgimento de lideranças emergentes em nosso meio?
Entendemos que atitudes como essas são inescrupulosas e visam ter poder à custa do massacre de uma liderança tão marcante e necessária como é o Frei David. Não estariam, além desta frustrada tentativa, prejudicando todos os nossos irmãos e irmãs por algo pessoal?
A Educafro mudou, muda e continuará mudando a vida de cidadãos e cidadãs através da oportunidade do conhecimento à cidadania, propicia a graduação nas universidades publicas e privadas, (com bolsas de estudos), além do acesso ao mercado de trabalho. Mesmo que muitos/as tenham alcançado seus objetivos é preciso entender que muitos/as irmãos e irmãs esperam por sua vez.
As nossas lutas continuam. Sabemos que a Educafro é maior do que as intrigas expostas. Humildemente, aprendemos a cada dia que precisamos uns/as dos/as outros/as, mas que nenhum de nós é insubstituível nessa luta.
Uma andorinha não faz Verão, assim como Frei David não o fará só.
Mas, ele não está só. O retorno de Frei David é inevitável como o Verão e as demais estações.
“Não me intimida os gritos dos violentos e sim o silêncio dos justos”
(Martin Luther King)
Sem mais,
Pela comissão de Redação:
Enilda Lúcia Suzart Medrado Rodrigues
Coordenadora do Núcleo de Estudos das Mulheres Negras – SP

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