S. Paulo – Documentos do processo de canonização do frade franciscano Antônio de Sant’Ana Galvão, o Frei Galvão, o primeiro brasileiro a ser declarado santo pelo Vaticano, revelam que ele teve uma posição progressista em relação a causa da igualdade racial, em pleno século XVIII, quando a escravidão negra vigorava no Brasil. O frade será canonizado na em missa campal no Campo de Marte, em S. Paulo, a ser celebrada pelo Papa Bento XVI.
A informação consta do “Processo de Canonização do Servo de Deus Frei Galvão, volume II, Roma 1993”, e foi revelada com exclusividade para a Afropress por Frei David Raimundo dos Santos, diretor executivo da Educafro – a maior rede de cursinhos para negros do país. Os documentos tratam de um episódio envolvendo um soldado negro de nome Caetano José da Costa, Caetaninho, por volta do ano de 1780, quando era governador de S. Paulo, o capitão mor Martins Lobo de Saldanha.
O soldado Caetano José da Costa era trombeta da legião dos voluntários reais e o incidente aconteceu na fazenda S. Bernardo, localizada na região da cidade do mesmo nome, no ABC paulista. O soldado e o filho do governador, bêbados envolveram numa briga, em que presumivelmente o filho do governador levou a pior. Lobo de Saldanha mandou então enforcar o soldado negro.
Frei Galvão insurge-se contra a ordem do governador e assume a defesa do soldado negro, o que lhe valeu a expulsão do Estado. O governador deu prazo de 24 horas para que deixasse S. Paulo, aplicando-lhe a pena de “degredo” para o Rio de Janeiro.
Diante dos protestos da população inconformada com a expulsão, o governador teve de voltar atrás e revogou a ordem de enforcamento e de expulsão do frade.
Segundo Frei David, o episódio demonstra que o primeiro Santo brasileiro tinha uma posição claramente favorável ao povo negro, apesar do contexto da escravidão. “Ele já naquele contexto se mostrou contrário ao tratamento degradante dedicado aos negros, a ponto de sair em socorro do soldado negro, ameaçado de ir pra forca por decisão do governador”, afirma Frei David.
Frei David, disse que os alunos da Educafro participarão da missa pela cononização, que será rezada pelo Papa, no campo de Marte, em S. Paulo.
Quem foi
Antônio de Sant’Ana Galvão, conhecido como Frei Galvão, nasceu em Guaratinguetá, em 1.739 e morreu em 23 de dezembro de 1.822. Foi também o primeiro beato nascido no Brasil, reconhecido pelo Papa João Paulo II, em 1.997.

Da Redacao