Apesar da diversidade das análises e comentários, um eixo de sustentação avali (z)a as implicações do desastre que pôs a nu as demarcações raciais e de classe: o esquecimento e a pouca predisposição do governo americano para evitar que a tragédia acontecesse e, uma vez consumada, a falta de prontidão do Império para ajuda imediata. Um dos motivos que justifica a inércia do governo americano reside, seguindo a trilha dos comentários, no fato de a população daquela região ser composta por negros, pobres (redundância), idosos, enfim, para abreviar, pela “escória”, pelos que nada têm.
Os dados apóiam a questão: Nova Orleans é uma das cidades norte-americanas onde a maioria da população é negra, 67%, e 33% da população total vivem na pobreza. Das sete zonas mais afetadas pelas inundações, cinco são de maioria negra e a pobreza abrange 34,6% da população. Estes números, no entanto, não refletem os altos níveis de pobreza em certos “bairros negros” da cidade afetados pelas cheias. Na zona central da cidade (Central City) que está debaixo de água, 87% da população é negra e 50% vivem na pobreza.
Com o furacão Katrina, tem-se a ratificação de que o esquecimento da população negra é um mecanismo eficaz de exclusão em quase toda parte do planeta e se exerce em vários níveis e possibilidades. O depoimento de Larry Clawford, morador negro da região, é elucidativo: “Se era uma emergência, eles poderiam ter mandado ônibus para retirar as pessoas, negros e brancos, o que até ajudaria a diminuir o congestionamento. (…) Mas, para os negros como eu, não havia emergência, e sim um plano. E parte do plano foi abrir comportas (do sistema de controle de enchentes) depois do furacão e inundar os bairros pobres para aliviar a pressão das águas nos bairros ricos. Depois nos acusam de roubar. Sim, eu roubei comida porque estava com fome”. Indignado, Clawford acrescenta: “esse governo é capaz de mandar tropas, tanques, comida e água para lutar no Iraque, que, aliás, não fez nada contra nós, mas não tem soldados para acudir gente com sede e fome no próprio país”.
O depoimento peremptório de Clawford serve de orientação para outros casos. Somos esquecidos pelos (as) formuladores (as) de políticas públicas, pelos programas de governo, pelos planos de segurança e de salvamento em casos de catástrofe… Os esquecimentos nos riscam do mapa das possibilidades de melhoria de vida, nos vulnerabilizam frente a situações como essa e nos condenam a um ciclo vicioso de miséria. Além dos esquecimentos “corriqueiros”, já consagrados, vez por outra somos terrivelmente lembrados, digamos, por tragédias grotescas, como a do furacão Katrina, de que as assimetrias sociais sustentam-se em extratos de raça, classe, gênero, de idade e localização geográfica. Em meio ao turbilhão de comentários e perplexidades provocado pelo furacão lembrei-me do filme Hotel Ruanda, em cartaz nos principais cinemas do país, um relato comovente da carnificina ocorrida em 1994 no país africano. Assim como fez o governo americano com o “caso Katrina”, o mundo virou as costas para Ruanda na época. Em um dos massacres mais violentos da história contemporânea, Ruanda foi palco de política de extermínio. Sem intervenção internacional, um grupo de hutus radicais matou, usando facões, cerca de quase 1 milhão de tútsis em apenas cem dias. A ONU retirou as tropas de paz de um país prestes a entrar em colapso. A proteção da etnia perseguida, os tútsis, foi feita por um gerente de hotel, Paul Rusesabagina (no filme, Don Cheadle). Além de sua família Rusesabagina protegeu, entre adultos e crianças, mais de 1.200 pessoas.
No filme, o desabafo de um dos representantes da ONU para o gerente do hotel é esclarecedor: “Nós achamos que você é lixo, você não vale nada”.
É assim que a população de Nova Orleans também foi vista e tratada. Se já não bastasse o descaso com as vítimas do furacão, viu-se operar um outro mecanismo de exclusão tão ou mais perverso: o da criminalização dos (as) desabrigados (as). Políticos, a mídia e outros setores aderiram a esta mudança discursiva. De vítima, esquecida, a população de Nova Orleans ganhou o atributo de desordeira, selvagem, animalesca, perigosa, delinqüente. Os (as) desvalidos (as) e agonizantes foram convertidos (as) numa multidão desordeira, criminosa, ameaçadora.
O que está em causa é como o outro, o absolutamente diferente de mim (no caso, as vítimas do furacão) é visto e noticiado pela imprensa mundial e por outras esferas. Como os atingidos pela catástrofe foram inseridos em posições discursivas de tal modo que puderam ser classificadas num mesmo espectro? Em geral, olhamos para o outro, o diferente de nós, com as categorias classificatórias que formamos ao longo do tempo. Mesmo nas situações em que estamos em pé de igualdade com aquele (a) que reputamos ser diferente em algum aspecto, criamos constantemente mecanismos de diferenciação hierárquica.
O sociólogo Norbert Elias empreendeu pesquisa etnográfica, a primeira dessa natureza realizada por ele, que ajuda a esclarecer a “sociologia das relações de poder”, as condições em que grupos sociais conseguem lançar estigmas sobre outro. A sociodinâmica da estigmatização exclui por meio de atributos associados com a anomia, a delinqüência, a violência e a desintegração. Os estabelecidos, a “minoria dos melhores”, conformam o “grupo da boa sociedade, mais poderosa e melhor”, ao passo que os outsiders constituem os não membros da boa sociedade, os que estão fora dela. Quer me parecer que a população de Nova Orleans se alinha aos não membros da boa sociedade, condição mais que suficiente para que fosse desqualificada, destituída, tanto no plano material quanto simbólico.
As narrativas encobrem e revelam a disposição hierárquica da gestão do social, herdada pela memória coletiva. Enlaçando-se com ela, cobrindo-a ou descobrindo-a, articulam-se as novas categorizações formuladas a partir do funcionamento discursivo que enquadra os (as) noticiados (as) em aparatos de significação que os pré-julga e prejudica. A fabricação de imagens do outro, do outsider, do excluído, é também dependente da forma que a mídia, orientada por um imaginário, decide sobre ele, como o interpela e o projeta, mostrando as faces da violência, da criminalidade e do animalesco. Ônus para a população negra e pobre.

Rosane da Silva Borges